{"id":108842,"date":"2017-03-13T00:15:50","date_gmt":"2017-03-13T03:15:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=108842"},"modified":"2017-03-12T17:03:20","modified_gmt":"2017-03-12T20:03:20","slug":"doenca-emergente-que-afeta-gatos-pode-atingir-humanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/doenca-emergente-que-afeta-gatos-pode-atingir-humanos\/108842","title":{"rendered":"Doen\u00e7a emergente que afeta gatos pode atingir humanos"},"content":{"rendered":"<p> Peter Moon \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 H\u00e1 uma doen\u00e7a emergente que se alastra pelo Brasil, mas da qual pouco se tem falado, a n\u00e3o ser no Rio de Janeiro. O gato \u00e9 a maior v\u00edtima do problema, uma micose causadora de les\u00f5es s\u00e9rias e potencialmente fatais quando n\u00e3o tratadas em tempo h\u00e1bil. A doen\u00e7a se chama <em><strong>esporotricose<\/strong><\/em> e \u00e9 causada por um fungo que vive naturalmente no solo, o Sporothrix sp.. No Brasil, Sporothrix brasiliensis \u00e9 o agente etiol\u00f3gico mais prevalente, embora S. schenckii tamb\u00e9m seja encontrado em menor propor\u00e7\u00e3o. Por meio de unhadas (o termo t\u00e9cnico \u00e9 \u201carranhadura\u201d), os gatos infectados transmitem o fungo a outros felinos, a c\u00e3es e tamb\u00e9m a seus donos.<\/p>\n<p>As les\u00f5es em humanos e c\u00e3es geralmente n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o severas como nos felinos e raramente imp\u00f5em risco \u00e0 vida. Mesmo em gatos, que s\u00e3o mais afetados, a doen\u00e7a tem cura, mas o tratamento \u00e9 caro e demorado. E a doen\u00e7a se concentra em animais da periferia e de comunidades carentes, o que dificulta o tratamento devido principalmente ao custo.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil, a esporotricose humana n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a de notifica\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria e, por isso, a sua exata preval\u00eancia \u00e9 desconhecida\u201d, disse a veterin\u00e1ria Isabella Dib Gremi\u00e3o, do Laborat\u00f3rio de Pesquisa Cl\u00ednica em Dermatozoonoses em Animais Dom\u00e9sticos do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (INI\/Fiocruz).<\/p>\n<p>\u201cDesde julho de 2013, devido ao status hiperend\u00eamico da esporotricose no Rio de Janeiro, a doen\u00e7a se tornou de notifica\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria no estado. Apenas no INI\/Fiocruz, unidade de refer\u00eancia no Rio de Janeiro, mais de 5 mil casos humanos e 4.703 casos felinos foram diagnosticados at\u00e9 2015\u201d, disse a pesquisadora.<\/p>\n<p>Apenas naquele ano, segundo dados da Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria do munic\u00edpio do Rio de Janeiro, foram 3.253 casos felinos. J\u00e1 em 2016, verificou-se um aumento de 400% no n\u00famero de animais diagnosticados. Ao todo, o \u00f3rg\u00e3o fez 13.536 atendimentos no ano passado \u2013 seja nos institutos p\u00fablicos veterin\u00e1rios, em assist\u00eancia domiciliar ou comunit\u00e1ria. Em pessoas, a Secretaria Municipal de Sa\u00fade do Rio de Janeiro registrou no ano passado 580 casos.<\/p>\n<p>Essas estat\u00edsticas se referem apenas aos casos notificados. Os pesquisadores apontam que o n\u00edvel de subnotifica\u00e7\u00e3o deve ser grande. Gremi\u00e3o \u00e9 a primeira autora de um trabalho que acaba de ser publicado na revista  sobre a transmiss\u00e3o da esporotricose entre gatos e humanos.<\/p>\n<p>O bi\u00f3logo Anderson Rodrigues, professor da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), outro dos autores do artigo, estuda a gen\u00f4mica das muitas esp\u00e9cies do g\u00eanero Sporothrix (s\u00e3o 51, sendo cinco de relev\u00e2ncia m\u00e9dica) para comparar seus DNAs com o do S. brasiliensis, o agente causador da doen\u00e7a emergente no Brasil e de longe a esp\u00e9cie mais virulenta.<\/p>\n<p>Em pesquisa em seu p\u00f3s-doutorado , Rodrigues \u00a0uma nova esp\u00e9cie, Sporothrix chilensis, isolada a partir do diagn\u00f3stico de um caso humano em Vi\u00f1a del Mar, no Chile.<\/p>\n<p>\u201cA an\u00e1lise comparativa dos genomas de Sporothrix permitir\u00e1 identificar grupos de genes especificamente ligados aos fatores de virul\u00eancia e mecanismos de sobreviv\u00eancia durante a infec\u00e7\u00e3o\u201d, disse Rodrigues.<\/p>\n<p>\u201cNossa expectativa \u00e9 ampliar significativamente a compreens\u00e3o da diversidade gen\u00e9tica e resposta fisiol\u00f3gica em Sporothrix, um passo inicial para o desenvolvimento de m\u00e9todos melhores para controle desses pat\u00f3genos\u201d, disse.<\/p>\n<p>Transmiss\u00e3o e tratamento<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe como o Sporothrix brasiliensis come\u00e7ou a infectar os gatos. At\u00e9 o aumento no n\u00famero de casos no Rio de Janeiro, a esporotricose era considerada uma doen\u00e7a muito espor\u00e1dica e ocupacional, lembra Rodrigues.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 conhecida como a \u201cdoen\u00e7a dos jardineiros\u201d, pelo fato de os primeiros casos diagnosticados nos Estados Unidos no fim do s\u00e9culo 19 terem sido entre plantadores de rosas. O fungo ocorre naturalmente no solo e sobre a superf\u00edcie de plantas como a roseira. No caso norte-americano, os pacientes se infectaram ao se arranhar em seus espinhos.<\/p>\n<p>O primeiro diagn\u00f3stico de esporotricose animal no Brasil \u00e9 de 1907, entre ratos naturalmente infectados nos esgotos da cidade de S\u00e3o Paulo \u2013 os primeiros casos felinos ocorreram nos anos 1950.<\/p>\n<p>\u201cA doen\u00e7a tradicionalmente acometia uma a duas pessoas ao ano. Mas em 1998 o total de casos no Rio de Janeiro come\u00e7ou a crescer\u201d, disse o professor Zoilo Pires de Camargo, chefe do Laborat\u00f3rio de Micologia M\u00e9dica e Molecular da Unifesp e coordenador do Projeto Tem\u00e1tico , conduzido de 2010 a 2016 com apoio da FAPESP, orientador de Rodrigues no seu p\u00f3s-doutorado.<\/p>\n<p>Do Rio de Janeiro, a doen\u00e7a se espalhou para outras cidades fluminenses, e de l\u00e1 para outros estados. A recente emerg\u00eancia da esporotricose felina na regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo chama a aten\u00e7\u00e3o dos pesquisadores da Unifesp e do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), onde 1.093 casos foram confirmados .<\/p>\n<p>J\u00e1 h\u00e1 casos de esporotricose em todo o Sudeste e o Sul do Brasil. Come\u00e7am tamb\u00e9m a se manifestar na regi\u00e3o Nordeste e no exterior. Em Buenos Aires, em 2015, foram relatados cinco casos humanos positivos.<\/p>\n<p>Apesar de existir outras esp\u00e9cies de fungos do g\u00eanero Sporothrix espalhadas pelo mundo e que tamb\u00e9m provocam a doen\u00e7a, segundo os pesquisadores a epidemia brasileira \u00e9 \u00fanica, pelo agente etiol\u00f3gico a atacar felinos, por ter se tornado uma zoonose a partir do momento que os gatos passaram a transmitir o fungo aos humanos e pelo expressivo n\u00famero de casos.<\/p>\n<p>\u201cNos anais da medicina, o maior surto de esporotricose teria ocorrido nos anos 1940 entre mineiros na \u00c1frica do Sul. A origem da infec\u00e7\u00e3o nos 3 mil casos relatados estava no madeiramento de sustenta\u00e7\u00e3o das galerias das minas, onde havia col\u00f4nias de Sporothrix. Uma vez identificados os focos, a madeira foi tratada e a epidemia acabou\u201d, disse Camargo.<\/p>\n<p>No Brasil, al\u00e9m da falta de capacidade de fazer diagn\u00f3sticos em larga escala nas esferas municipal, estadual e nacional, falta acesso a rem\u00e9dios para tratar a doen\u00e7a.<\/p>\n<p>O medicamento de refer\u00eancia \u00e9 o antif\u00fangico itraconazol, de pre\u00e7o elevado. A cada m\u00eas e ao longo de seis meses s\u00e3o necess\u00e1rias no m\u00ednimo quatro caixas: duas para tratar o animal e outras duas para o tutor, caso este esteja doente. Como todo propriet\u00e1rio de gatos sabe, por mais queridos que sejam seus bichanos eles arranham, principalmente em situa\u00e7\u00e3o de estresse como na hora de dar rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>Enquanto n\u00e3o estiver livre do fungo, o gato pode continuar transmitindo o fungo. Ap\u00f3s o primeiro ou o segundo m\u00eas de tratamento, geralmente as les\u00f5es desaparecem, mas o fungo, n\u00e3o. \u201cA interrup\u00e7\u00e3o do tratamento antes de seis meses pode levar ao ressurgimento das les\u00f5es\u201d, disse Camargo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se conhece a raz\u00e3o pela qual os gatos s\u00e3o t\u00e3o suscet\u00edveis ao Sporothrix brasiliensis nem porque neles a doen\u00e7a \u00e9 t\u00e3o grave. Um gato com les\u00f5es pode ter o fungo em suas garras. Ao brigar com outro gato, um c\u00e3o ou perseguir um rato, ele passa o fungo por meio de arranhaduras.<\/p>\n<p>As arranhaduras nos gatos ocorrem geralmente na cabe\u00e7a, local mais comum do aparecimento de les\u00f5es, mas n\u00e3o o \u00fanico. O fungo presente nas les\u00f5es destr\u00f3i progressivamente a epiderme, a derme, o col\u00e1geno, os m\u00fasculos e at\u00e9 ossos. Al\u00e9m disso, o fungo pode acometer os \u00f3rg\u00e3os internos, agravando o quadro cl\u00ednico.<\/p>\n<p>\u201cQuando o animal chega a essas condi\u00e7\u00f5es, \u00e9 comum ele ser abandonado pelos donos. Vai para a rua e alimenta a cadeia de transmiss\u00e3o. Se o gato morre, ele \u00e9 enterrado no quintal ou num lix\u00e3o, que ser\u00e3o contaminados pelo fungo presente no cad\u00e1ver\u201d, disse Gremi\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, al\u00e9m da capacidade de diagnosticar todos os casos e do acesso ao medicamento, o combate ao surto de esporotricose exige que os governos realizem campanhas educativas sobre a guarda respons\u00e1vel do animal.<\/p>\n<p>O artigo Zoonotic Epidemic of Sporotrichosis: Cat to Human Transmission (doi:10.1371\/journal.ppat.1006077), de Isabella Dib Ferreira Gremi\u00e3o, Luisa Helena Monteiro Miranda, Erica Guerino Reis, Anderson Messias Rodrigues e Sandro Antonio Pereira, pode ser lido em\u00a0.<\/p>\n<p>O artigo Sporothrix species causing outbreaks in animals and humans driven by animal-animal transmission (doi:10.1371\/journal.ppat.1005638), de Anderson Messias Rodrigues, G. Sybren de Hoog e Zoilo Pires de Camargo, est\u00e1 publicado em .<\/p>\n<p>O artigo Sporothrix chilensis sp. nov. (Ascomycota: Ophiostomatales), a soil-borne agent of human sporotrichosis with mild-pathogenic potential to mammals (doi: 10.1016\/j.funbio.2015.05.006), de Anderson Messias Rodrigues, Rodrigo Cruz Choappa, Geisa Ferreira Fernandes, G. Sybren de Hoog e Zoilo Pires de Camargo, est\u00e1 publicado em .<\/p>\n<p>O artigo Feline sporotrichosis due to Sporothrix brasiliensis: an emerging animal infection in S\u00e3o Paulo, Brazil (doi: 10.1186\/s12917-014-0269-5), de Hildebrando Montenegro, Anderson Messias Rodrigues, Maria Adelaide Galv\u00e3o Dias, Elisabete Aparecida da Silva, Fernanda Bernardi e Zoilo Pires de Camargo, est\u00e1 publicado em .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peter Moon \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 H\u00e1 uma doen\u00e7a emergente que se alastra pelo Brasil, mas da qual pouco se tem falado, a n\u00e3o ser no Rio de Janeiro. O gato \u00e9 a maior v\u00edtima do problema, uma micose causadora de les\u00f5es s\u00e9rias e potencialmente fatais quando n\u00e3o tratadas em tempo h\u00e1bil. 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