{"id":109596,"date":"2017-03-23T00:08:54","date_gmt":"2017-03-23T03:08:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=109596"},"modified":"2017-03-22T14:10:10","modified_gmt":"2017-03-22T17:10:10","slug":"grupo-da-usp-investiga-como-a-fototerapia-combate-a-dor-neuropatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/grupo-da-usp-investiga-como-a-fototerapia-combate-a-dor-neuropatica\/109596","title":{"rendered":"Grupo da USP investiga como a fototerapia combate a dor neurop\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 A <strong><em>fototerapia<\/em><\/strong> com laser de baixa intensidade tem sido apontada por estudos recentes como uma alternativa n\u00e3o invasiva e eficaz no combate \u00e0 dor neurop\u00e1tica \u2013 sensa\u00e7\u00e3o dolorosa cr\u00f4nica que pode ser decorrente de les\u00f5es nos nervos, na medula ou de doen\u00e7as como diabetes.<\/p>\n<p>Tr\u00eas estudos recentes conduzidos no Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (ICB-USP) ajudam a elucidar os mecanismos por tr\u00e1s do efeito terap\u00eautico induzido pelo laser. A investiga\u00e7\u00e3o tem sido feita no \u00e2mbito de um  e coordenado pela professora Marucia Chacur.<\/p>\n<p>\u201cTestamos a fototerapia em diferentes modelos de neuropatia em ratos e em todos houve melhora na resposta comportamental. Um dos efeitos ben\u00e9ficos observados foi a recupera\u00e7\u00e3o da bainha de mielina \u2013 uma camada lip\u00eddica que recobre os neur\u00f4nios e atua como isolante el\u00e9trico, auxiliando na propaga\u00e7\u00e3o dos impulsos nervosos\u201d, contou Chacur em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Em um trabalho  na revista Lasers in Medical Science, em janeiro, o tratamento foi testado em um modelo de neuropatia diab\u00e9tica, uma das complica\u00e7\u00f5es cr\u00f4nicas mais comuns e incapacitantes do diabetes. O problema ocorre quando a doen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 adequadamente controlada e o excesso de glicose no sangue causa a oxida\u00e7\u00e3o da bainha de mielina e lesiona a estrutura de nervos perif\u00e9ricos. Al\u00e9m de causar dor, esse processo degenerativo prejudica a comunica\u00e7\u00e3o entre os neur\u00f4nios e pode at\u00e9 levar \u00e0 amputa\u00e7\u00e3o de membros.<\/p>\n<p>Para induzir uma condi\u00e7\u00e3o semelhante ao diabetes tipo 1, os pesquisadores injetaram nos animais uma subst\u00e2ncia conhecida como estreptozotocina (STZ), que destr\u00f3i as c\u00e9lulas beta do p\u00e2ncreas respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o de insulina. Nesse modelo, em cerca de uma semana o animal torna-se diab\u00e9tico. O experimento foi realizado durante o  de Igor Rafael Correia Rocha, bolsista da FAPESP.<\/p>\n<p>\u201cIniciamos o tratamento com laser de 904 nan\u00f4metros \u2013 capaz de atingir tecidos profundos \u2013 ap\u00f3s 45 dias, quando o quadro neurop\u00e1tico j\u00e1 estava bem padronizado e j\u00e1 havia se tornado cr\u00f4nico\u201d, contou Chacur.<\/p>\n<p>O grau de dor nos roedores foi avaliado antes e ap\u00f3s o in\u00edcio do tratamento por meio de testes comportamentais, como o de filamentos de von Frey \u2013 um conjunto de fios de n\u00e1ilon, com espessuras variadas, que s\u00e3o pressionados sobre a pata do animal. Cada filamento representa uma for\u00e7a em gramas e indica o grau de press\u00e3o que o animal consegue suportar antes de demonstrar desconforto. H\u00e1 ainda testes semelhantes com est\u00edmulos t\u00e9rmicos e mec\u00e2nicos.<\/p>\n<p>\u201cNossa ideia \u00e9 depois aplicar em humanos, ent\u00e3o adotamos protocolos terap\u00eauticos semelhantes. Planejamos inicialmente 10 sess\u00f5es de fototerapia a cada dois dias, sendo cada uma de 1 minuto sobre a regi\u00e3o da coxa. Mas observamos melhora logo ap\u00f3s a quarta sess\u00e3o. Ent\u00e3o sacrificamos o animal para analisar o nervo ci\u00e1tico\u201d, contou a pesquisadora.<\/p>\n<p>Com o aux\u00edlio de um microsc\u00f3pio eletr\u00f4nico de transmiss\u00e3o, os pesquisadores observaram que \u00e0 medida que o diabetes avan\u00e7ou, a camada de mielina que recobre o nervo ci\u00e1tico teve sua estrutura alterada. Ap\u00f3s as quatro sess\u00f5es de fototerapia, por\u00e9m, a recupera\u00e7\u00e3o da mielina foi praticamente total.<\/p>\n<p>\u201cA condi\u00e7\u00e3o do nervo praticamente voltou a n\u00edveis basais com o tratamento. Agora seguimos o estudo, analisando express\u00e3o de prote\u00ednas e libera\u00e7\u00e3o de citocinas inflamat\u00f3rias para entender o que exatamente est\u00e1 ocorrendo\u201d, disse Chacur.<\/p>\n<p>Nervo comprimido<\/p>\n<p>Em outro trabalho realizado durante o  de Mara Evany de Oliveira Silva e  na revista Photochemical &amp; Photobiological Sciences, o foco do tratamento tamb\u00e9m foi o ci\u00e1tico. Nesse caso, por\u00e9m, a les\u00e3o foi induzida pela compress\u00e3o do nervo \u2013 simulando o que ocorre com pacientes que sofrem de desvios na coluna, como h\u00e9rnia de disco.<\/p>\n<p>\u201cO nervo \u00e9 amarrado e permanece comprimido durante duas semanas, at\u00e9 que a les\u00e3o se torna cr\u00f4nica. E ent\u00e3o iniciamos a fototerapia no 14\u00b0 dia. Observamos melhora no comportamento logo ap\u00f3s a segunda sess\u00e3o, que se manteve at\u00e9 o final do tratamento\u201d, contou a pesquisadora.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a d\u00e9cima sess\u00e3o de fototerapia, os animais foram sacrificados para an\u00e1lise do g\u00e2nglio da raiz dorsal \u2013 regi\u00e3o pr\u00f3xima \u00e0 medula espinhal que cont\u00e9m corpos de c\u00e9lulas nervosas \u2013 por onde passam as informa\u00e7\u00f5es sensitivas e motoras.<\/p>\n<p>Por meio de uma metodologia conhecida como imuno-histoqu\u00edmica, os pesquisadores quantificaram no local a presen\u00e7a de astr\u00f3citos \u2013 um tipo de c\u00e9lula nervosa bastante envolvido em respostas inflamat\u00f3rias.<\/p>\n<p>\u201cQuando h\u00e1 uma les\u00e3o nervosa ou um processo inflamat\u00f3rio, as c\u00e9lulas gliais migram para o local. Eles s\u00e3o como uma esp\u00e9cie de macr\u00f3fago do sistema nervoso central, ou seja, s\u00e3o a primeira linha de defesa\u201d, explicou Chacur.<\/p>\n<p>As an\u00e1lises mostraram que nos animais tratados com laser havia uma quantidade reduzida de astr\u00f3citos (um tipo de c\u00e9lula da glia) em compara\u00e7\u00e3o aos ratos n\u00e3o tratados.<\/p>\n<p>\u201cEssas c\u00e9lulas liberam diversos mediadores inflamat\u00f3rios, como interleucina-1 (IL1), fator de necrose tumoral-alfa (TNF-?) e glutamato. Esses mediadores, por sua vez, levam \u00e0 libera\u00e7\u00e3o de outras subst\u00e2ncias inflamat\u00f3rias. Imaginamos que, ao reduzir a migra\u00e7\u00e3o de astr\u00f3citos para o local da les\u00e3o, o laser interfere nesse processo em cascata, como um medicamento anti-inflamat\u00f3rio\u201d, disse Chacur.<\/p>\n<p>O passo seguinte da investiga\u00e7\u00e3o, adiantou a pesquisadora, ser\u00e1 avaliar a concentra\u00e7\u00e3o de cada uma das subst\u00e2ncias inflamat\u00f3rias separadamente.<\/p>\n<p>O terceiro modelo em que o tratamento foi testado foi o de dor orofacial, no qual a les\u00e3o \u00e9 induzida por um esmagamento do nervo alveolar inferior \u2013 um dos ramos do nervo trig\u00eameo respons\u00e1vel por inervar toda a face.<\/p>\n<p>\u201cEsse tipo de les\u00e3o pode ocorrer, por exemplo, durante o processo de extra\u00e7\u00e3o do dente do siso. Muitos dentistas t\u00eam adotado o laser para reduzir a dor em seus pacientes\u201d, afirmou Chacur.<\/p>\n<p>A fototerapia foi iniciada dois dias ap\u00f3s a les\u00e3o do nervo. A melhora no comportamento doloroso relacionado \u00e0 les\u00e3o do nervo foi observada ap\u00f3s duas sess\u00f5es e se manteve ao longo de todo o tratamento \u2013 que incluiu 10 sess\u00f5es, sendo uma a cada dois dias.<\/p>\n<p>Os animais foram ent\u00e3o sacrificados e a presen\u00e7a de diversas prote\u00ednas no tecido tratado foi analisada por uma t\u00e9cnica conhecida como Western blot.<\/p>\n<p>\u201cNotamos que a aplica\u00e7\u00e3o do laser de baixa intensidade modulou a express\u00e3o de mediadores inflamat\u00f3rios e neuropept\u00eddeos que contribuem para o desenvolvimento de uma resposta dolorosa por meio da sensibiliza\u00e7\u00e3o dos neur\u00f4nios nociceptivos trigeminais. Muitos estudos t\u00eam relatado que o aumento da libera\u00e7\u00e3o do pept\u00eddeo relacionado com o gene da calcitonina [CGRP] e subst\u00e2ncia P [SP] nos terminais do nervo trigeminal contribui para o desenvolvimento de hiperalgesia perif\u00e9rica. Em nosso modelo, vimos que esse quadro foi revertido nos animais que receberam o protocolo de laser terapia. Esses achados podem impactar na melhora dos protocolos j\u00e1 existentes usando laser de baixa intensidade\u201d, disse a pesquisadora.<\/p>\n<p>O trabalho foi conduzido durante o  de Daniel de Oliveira Martins, bolsista da FAPESP. Os resultados ser\u00e3o publicados em breve no Journal of Biological Regulators &amp; Homeostatic Agents.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s buscamos entender os mecanismos e mediadores envolvidos porque acreditamos que a fototerapia pode ser usada em associa\u00e7\u00e3o a tratamentos farmacol\u00f3gicos, atuando em vias distintas. Dessa forma talvez seja poss\u00edvel reduzir a dose do medicamento e, consequentemente, os efeitos sist\u00eamicos do tratamento\u201d, disse Chacur.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, os resultados sugerem que nos tr\u00eas modelos de dor neurop\u00e1tica estudados h\u00e1 um mecanismo comum, que envolve regenera\u00e7\u00e3o da bainha de mielina e a redu\u00e7\u00e3o na migra\u00e7\u00e3o de astr\u00f3citos para o local da les\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEvid\u00eancias da literatura sugerem ainda um efeito sobre as mitoc\u00f4ndrias. O laser facilitaria o fluxo de c\u00e1lcio na organela, aumentando a produ\u00e7\u00e3o de ATP [adenosina trifosfato, o combust\u00edvel celular] e levando a uma melhora na cicatriza\u00e7\u00e3o e na libera\u00e7\u00e3o de mediadores que auxiliam no remodelamento. Pretendemos nos estudos futuros investigar melhor esse efeito sobre as mitoc\u00f4ndrias\u201d, concluiu a pesquisadora.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 A fototerapia com laser de baixa intensidade tem sido apontada por estudos recentes como uma alternativa n\u00e3o invasiva e eficaz no combate \u00e0 dor neurop\u00e1tica \u2013 sensa\u00e7\u00e3o dolorosa cr\u00f4nica que pode ser decorrente de les\u00f5es nos nervos, na medula ou de doen\u00e7as como diabetes. 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