{"id":113343,"date":"2017-05-17T00:08:30","date_gmt":"2017-05-17T03:08:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=113343"},"modified":"2017-05-16T16:28:28","modified_gmt":"2017-05-16T19:28:28","slug":"consumo-excessivo-de-alcool-na-balada-expoe-homens-e-mulheres-a-riscos-diferentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/consumo-excessivo-de-alcool-na-balada-expoe-homens-e-mulheres-a-riscos-diferentes\/113343","title":{"rendered":"Consumo excessivo de \u00e1lcool na balada exp\u00f5e homens e mulheres a riscos diferentes"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Um levantamento feito com 2.422 jovens frequentadores de \u201cbaladas\u201d na cidade de S\u00e3o Paulo revelou que a preval\u00eancia de <strong><em>consumo abusivo de \u00e1lcool<\/em><\/strong> nessa popula\u00e7\u00e3o \u00e9 de 43,4% \u2013 \u00edndice bem superior ao observado na popula\u00e7\u00e3o brasileira como um todo: 18,4%.<\/p>\n<p>No dia em que foram entrevistados, 30% dos \u201cbaladeiros\u201d deixaram a casa noturna com um n\u00edvel alco\u00f3lico que se enquadra no chamado binge drinking (ao menos quatro doses para mulheres e cinco para homens em um per\u00edodo aproximado de duas horas), um padr\u00e3o de consumo de risco associado em diversos estudos a maior ocorr\u00eancia de abuso sexual, tentativas de suic\u00eddio, sexo desprotegido, gravidez indesejada, infarto, overdose alco\u00f3lica, quedas e outros problemas de sa\u00fade.<\/p>\n<p>A pesquisa foi coordenada por Zila Sanchez, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina (EPM), Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), e contou com .<\/p>\n<p>\u201cOs resultados indicam que homens e mulheres se exp\u00f5em a riscos diferentes quando saem intoxicados da balada. Enquanto eles est\u00e3o mais sujeitos a fazer uso de drogas il\u00edcitas e a dirigir embriagados, elas tendem a continuar bebendo e correm maior risco de overdose alco\u00f3lica\u201d, disse Sanchez.<\/p>\n<p>\u201cObservamos ainda que, no caso das mulheres, beber em excesso triplica a possibilidade de sofrer abuso sexual nos estabelecimentos\u201d, disse.<\/p>\n<p>As entrevistas foram feitas com jovens entre 21 e 25 anos \u2013 60% homens e 40% mulheres \u2013, que aceitaram participar com a garantia de anonimato. Os participantes foram abordados em 31 estabelecimentos da capital paulista, situados em diferentes bairros e voltados a diferentes classes sociais e estilos musicais.<\/p>\n<p>\u201cBuscamos compor uma amostra representativa das baladas da cidade. Entramos em contato com os donos ou gerentes e pedimos autoriza\u00e7\u00e3o para a coleta de dados. Bord\u00e9is e casas de swing n\u00e3o foram inclu\u00eddos, pois nosso foco foram os locais em que as pessoas v\u00e3o para dan\u00e7ar\u201d, disse Sanchez.<\/p>\n<p>Cada estabelecimento foi visitado por uma equipe de oito pesquisadores uniformizados \u2013 seis dedicados a entrevistar volunt\u00e1rios e dois a observar fatores ambientais que poderiam influenciar o consumo de \u00e1lcool, como temperatura, umidade, ilumina\u00e7\u00e3o, press\u00e3o sonora, n\u00famero de mesas e de pistas de dan\u00e7a e promo\u00e7\u00f5es para a venda de \u00e1lcool.<\/p>\n<p>A primeira entrevista foi feita ainda na fila de entrada. Os volunt\u00e1rios responderam a quest\u00f5es sobre o perfil sociodemogr\u00e1fico (idade, profiss\u00e3o, escolaridade, renda), a pr\u00e1tica do \u201cesquenta\u201d pr\u00e9-balada (local, tipo de bebida consumida, frequ\u00eancia, gastos), o padr\u00e3o convencional de uso de \u00e1lcool (durante a vida e recente) e a experimenta\u00e7\u00e3o de outras drogas ao longo da vida. Em seguida, foram submetidos ao teste do baf\u00f4metro e ganharam uma pulseira numerada para identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao final da balada, o teste do baf\u00f4metro foi repetido com os mesmos participantes, que tamb\u00e9m informaram a quantidade de \u00e1lcool consumida e o dinheiro gasto no estabelecimento. No dia seguinte, os entrevistados receberam em seu e-mail um link para um novo question\u00e1rio, no qual tinham de relatar o que fizeram ap\u00f3s deixar a casa noturna.<\/p>\n<p>Dos 1.222 volunt\u00e1rios que conclu\u00edram as tr\u00eas etapas de perguntas, 10% disseram n\u00e3o se lembrar do que fizeram depois de sair da balada. \u201cMuitos disseram ter mantido rela\u00e7\u00e3o sexual, mas n\u00e3o sabiam com quem. Ou ter acordado em um local estranho ou n\u00e3o se lembrar como haviam chegado em casa. Isso \u00e9 bastante preocupante\u201d, disse a pesquisadora.<\/p>\n<p>De acordo com Sanchez, a venda de bebidas no sistema open bar \u2013 em que se paga um valor fixo e o consumo \u00e9 liberado \u2013 foi o principal fator ambiental associado \u00e0 intoxica\u00e7\u00e3o. \u201cIsso aumentou n\u00e3o apenas o consumo de \u00e1lcool, como j\u00e1 era esperado, mas tamb\u00e9m o de drogas il\u00edcitas. Nas baladas open bar, chega a ser 12 vezes maior a probabilidade de haver consumo de ecstasy [metilenodioximetanfetamina], maconha, coca\u00edna e at\u00e9 quetamina, um anest\u00e9sico para cavalos com efeito alucin\u00f3geno\u201d, contou.<\/p>\n<p>A press\u00e3o sonora e o estilo musical tamb\u00e9m influenciaram o padr\u00e3o de consumo de \u00e1lcool dos frequentadores. De acordo com os resultados, quanto mais alto era o som ambiente, maior era a possibilidade de os baladeiros deixarem o estabelecimento intoxicados. Nas casas especializadas em m\u00fasica eletr\u00f4nica ou em hip hop, foi mais prevalente o consumo de \u00e1lcool associado ao de drogas il\u00edcitas. Por outro lado, os casos de intoxica\u00e7\u00e3o alco\u00f3lica foram bem menos frequentes nas casas especializadas em forr\u00f3 ou zouk, locais onde o foco dos frequentadores parece ser, de fato, a dan\u00e7a.<\/p>\n<p>Nas baladas LGBT (l\u00e9sbicas, gays, bissexuais e transexuais), particularmente nos estabelecimentos voltados ao p\u00fablico masculino, chamou a aten\u00e7\u00e3o dos pesquisadores a maior preval\u00eancia no uso de quetamina e na pr\u00e1tica de sexo sem prote\u00e7\u00e3o \u2013 mesmo havendo oferta gratuita de preservativo nos locais.<\/p>\n<p>O levantamento mostrou ainda que, de maneira geral, o \u201cesquenta\u201d pr\u00e9-balada \u00e9 mais comum entre os homens, que chegaram \u00e0 casa noturna com n\u00edveis alco\u00f3licos mais elevados. Na sa\u00edda, por\u00e9m, as mulheres apresentaram dosagens equivalentes, o que indica um consumo feminino maior dentro do estabelecimento.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s t\u00ednhamos, inicialmente, a hip\u00f3tese de que o objetivo do esquenta era economizar, reduzindo a compra de bebida dentro da balada. Mas, na realidade, aqueles que chegaram ao estabelecimento com n\u00edveis elevados de \u00e1lcool acabaram bebendo mais que os outros. Portanto, s\u00e3o indiv\u00edduos que t\u00eam um padr\u00e3o de beber mais e, consequentemente, um gasto maior\u201d, disse a pesquisadora.<\/p>\n<p>De olho no lucro<\/p>\n<p>Em paralelo ao levantamento epidemiol\u00f3gico, o grupo da Unifesp realizou um estudo qualitativo com aproximadamente 30 donos ou gerentes dos estabelecimentos inclu\u00eddos na pesquisa, dados apresentados na tese de doutorado de Claudia Carlini, com .<\/p>\n<p>Segundo Sanchez, muitos admitiram a venda de bebida adulterada como estrat\u00e9gia para aumentar o lucro, principalmente nos locais que adotam o modelo open bar. Alguns entrevistados relataram diminuir propositalmente a pot\u00eancia do ar condicionado com o intuito de elevar a temperatura ambiente e, assim, estimular o consumo de \u00e1lcool pelos frequentadores. No entanto, os resultados da pesquisa epidemiol\u00f3gica n\u00e3o indicaram a temperatura como um fator que influencia o consumo.<\/p>\n<p>Embora a maioria tenha afirmado n\u00e3o aprovar a venda ou uso de drogas il\u00edcitas em seus estabelecimentos, admitiram n\u00e3o coibir a pr\u00e1tica feita de forma clandestina por medo de espantar clientes e ter o lucro reduzido.<\/p>\n<p>\u201cQuando iniciamos a pesquisa, pens\u00e1vamos em usar os dados para desenhar estrat\u00e9gias de interven\u00e7\u00e3o que pudessem ser aplicadas nesses estabelecimentos para diminuir o consumo abusivo de \u00e1lcool. Por\u00e9m, o estudo qualitativo mostrou ser pouco vi\u00e1vel esse tipo de medida. Os donos n\u00e3o est\u00e3o abertos a interven\u00e7\u00f5es que possam vir a comprometer seu faturamento mensal\u201d, avaliou Sanchez.<\/p>\n<p>Para a pesquisadora, somente pol\u00edticas p\u00fablicas poderiam amenizar o problema. Uma proposta seria combater a venda de \u00e1lcool no modelo open bar e as demais promo\u00e7\u00f5es que tornem a bebida muito barata. \u201cOutra medida interessante seria proibir a venda para pessoas que j\u00e1 apresentam sinais de intoxica\u00e7\u00e3o, como fala pastosa e olhos vermelhos. Isso j\u00e1 \u00e9 feito em diversos pa\u00edses. A ideia n\u00e3o \u00e9 extinguir o consumo e sim garantir que as pessoas deixem os estabelecimentos em condi\u00e7\u00f5es mais seguras\u201d, disse.<\/p>\n<p>Modelo de interven\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Os 1.222 baladeiros que responderam as tr\u00eas etapas de question\u00e1rios foram convidados a participar de uma interven\u00e7\u00e3o on-line inspirada em um modelo desenvolvido na Austr\u00e1lia para reduzir a pr\u00e1tica de binge drinking entre universit\u00e1rios. Desses, 1.057 concordaram em participar da interven\u00e7\u00e3o e 465 conclu\u00edram o estudo e foram acompanhados ao longo de 12 meses.<\/p>\n<p>Os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos. A metade considerada como grupo controle apenas respondeu a algumas quest\u00f5es sobre padr\u00f5es de consumo de \u00e1lcool. Os demais, al\u00e9m do question\u00e1rio, receberam ao final uma tela com um conjunto de informa\u00e7\u00f5es como o quanto a pessoa gastava por ano com bebidas, que tipo de coisas ela poderia comprar com esse dinheiro e em que faixa de risco est\u00e1 enquadrada (uso leve, moderado, pesado ou depend\u00eancia).<\/p>\n<p>\u201cEssa tela de interven\u00e7\u00e3o tem como objetivo mostrar ao indiv\u00edduo se ele est\u00e1 fora do padr\u00e3o de consumo para sua faixa et\u00e1ria e fora de um perfil de consumo considerado seguro\u201d, explicou a pesquisadora.<\/p>\n<p>De acordo com Sanchez, os resultados desse estudo espec\u00edfico n\u00e3o foram claros. Entre os jovens que estavam nas faixas de consumo intenso, foi observada uma redu\u00e7\u00e3o ao longo dos 12 meses tanto no grupo controle como no grupo que recebeu a interven\u00e7\u00e3o. J\u00e1 entre aqueles que bebiam pouco, houve aumento no consumo durante o per\u00edodo analisado \u2013 tamb\u00e9m nos dois grupos.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 v\u00e1rias hip\u00f3teses para explicar esse desfecho, entre elas a exist\u00eancia de um vi\u00e9s estat\u00edstico. Mas, do ponto de vista de sa\u00fade p\u00fablica, os dados refor\u00e7am a ideia de que esse tipo de interven\u00e7\u00e3o s\u00f3 deve ser feito com quem realmente bebe em excesso, caso contr\u00e1rio pode at\u00e9 ser prejudicial\u201d, afirmou Sanchez.<\/p>\n<p>A pesquisa teve in\u00edcio em 2012 e envolveu tamb\u00e9m a participa\u00e7\u00e3o da mestranda  e dos bolsistas de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica , ,  e .<\/p>\n<p>Mais informa\u00e7\u00f5es sobre o projeto e seus resultados podem ser encontradas no site: .<\/p>\n<p>Artigos:<\/p>\n<p>PLoS One: <\/p>\n<p>International Journal of Drug Policy: <\/p>\n<p>Alcohol and Alcoholism: <\/p>\n<p>Alcoholism: Clinical And Experimental Research:\u00a0<\/p>\n<p>The American Journal of Drug and Alcohol Abuse: <\/p>\n<p>Sexual Health: <\/p>\n<p>Drug and Alcohol Review:\u00a0<\/p>\n<p>Revista de Sa\u00fade P\u00fablica: <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Um levantamento feito com 2.422 jovens frequentadores de \u201cbaladas\u201d na cidade de S\u00e3o Paulo revelou que a preval\u00eancia de consumo abusivo de \u00e1lcool nessa popula\u00e7\u00e3o \u00e9 de 43,4% \u2013 \u00edndice bem superior ao observado na popula\u00e7\u00e3o brasileira como um todo: 18,4%. 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