{"id":115529,"date":"2017-06-21T00:07:03","date_gmt":"2017-06-21T03:07:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=115529"},"modified":"2017-06-20T13:47:09","modified_gmt":"2017-06-20T16:47:09","slug":"grupo-investiga-como-a-restricao-de-calorias-beneficia-o-funcionamento-celular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/grupo-investiga-como-a-restricao-de-calorias-beneficia-o-funcionamento-celular\/115529","title":{"rendered":"Grupo investiga como a restri\u00e7\u00e3o de calorias beneficia o funcionamento celular"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo\u00a0 | \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Controlar o consumo de <strong><em>calorias<\/em><\/strong> no dia a dia \u00e9 uma forma comprovada de evitar n\u00e3o s\u00f3 a obesidade como tamb\u00e9m diversas complica\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 idade, como diabetes, doen\u00e7as do cora\u00e7\u00e3o e do c\u00e9rebro. Trata-se, portanto, de uma estrat\u00e9gia eficaz para aumentar a longevidade. Em um laborat\u00f3rio sediado no Instituto de Qu\u00edmica (IQ) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), um grupo coordenado pela professora Alicia Kowaltowski investiga, em modelos animais, os mecanismos moleculares desencadeados pela interven\u00e7\u00e3o diet\u00e9tica que resultam na melhora do funcionamento de \u00f3rg\u00e3os importantes para o metabolismo, como p\u00e2ncreas, f\u00edgado e at\u00e9 mesmo o c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>\u201cDizer para as pessoas simplesmente comerem menos n\u00e3o est\u00e1 funcionando. A obesidade se tornou uma epidemia mundial. Temos tentado entender como a restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica age no organismo e quais s\u00e3o as mol\u00e9culas envolvidas, para encontrar alvos que permitam prevenir ou tratar doen\u00e7as relacionadas ao ganho de peso e \u00e0 idade\u201d, disse Kowaltowski, que integra a equipe do Centro de Pesquisa em Processos Redox em Biomedicina () \u2013 um dos Centros de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o (CEPIDs) da FAPESP.<\/p>\n<p>De acordo com Kowaltowski,\u00a0os experimentos realizados at\u00e9 o momento mostraram que a restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica em animais de laborat\u00f3rio causa efeitos muito espec\u00edficos nos diferentes \u00f3rg\u00e3os. No p\u00e2ncreas, por exemplo, torna as c\u00e9lulas produtoras de insulina capazes de responder melhor ao aumento na taxa de glicose do sangue.<\/p>\n<p>Para chegar a essa conclus\u00e3o, os pesquisadores realizaram testes com culturas de c\u00e9lulas beta \u2013 que ficam nas ilhotas pancre\u00e1ticas e s\u00e3o respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o de insulina. Em vez de nutrir as c\u00e9lulas cultivadas in vitro com soro sangu\u00edneo comercial, como de costume, foi usado material extra\u00eddo de dois grupos de ratos submetidos a diferentes dietas.<\/p>\n<p>O grupo controle se alimentou \u00e0 vontade durante as 26 semanas anteriores ao experimento e se tornou obeso, como normalmente ocorre em casos com confinamento. Os outros animais foram submetidos durante o mesmo per\u00edodo a uma dieta com cerca de 60% das calorias em m\u00e9dia consumidas pelos roedores liberados para comer sem restri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cA secre\u00e7\u00e3o de insulina pelas c\u00e9lulas beta deve ser pequena em uma condi\u00e7\u00e3o de baixa glicose e aumentar em uma condi\u00e7\u00e3o de glicose elevada. E isso de fato acontece com as c\u00e9lulas tratadas com o soro dos animais submetidos \u00e0 restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica, mas n\u00e3o com as que receberam o soro de animais obesos. H\u00e1 algum fator circulante no sangue que modifica de forma aguda o funcionamento das c\u00e9lulas beta e essa pode ser uma das altera\u00e7\u00f5es que acontecem no diabetes tipo 2\u201d, disse Kowaltowski.<\/p>\n<p>Como a secre\u00e7\u00e3o de insulina depende da disponibilidade de ATP (adenosina trifosfato, mol\u00e9cula que armazena energia) na c\u00e9lula, os pesquisadores levantaram a hip\u00f3tese de que o fen\u00f4meno observado estaria relacionado com as mitoc\u00f4ndrias \u2013 as \u201cusinas\u201d de energia das c\u00e9lulas.<\/p>\n<p>\u201cAo medirmos o consumo de oxig\u00eanio pelos dois grupos de c\u00e9lulas, observamos que ele estava diferente. A respira\u00e7\u00e3o \u2013 que \u00e9 a respons\u00e1vel pela libera\u00e7\u00e3o de insulina quando temos alta de glicose \u2013 \u00e9 maior nas c\u00e9lulas que receberam o soro dos animais submetidos \u00e0 restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica. Essas c\u00e9lulas, portanto, geram mais ATP diante da alta na taxa de glicose\u201d, contou a pesquisadora.<\/p>\n<p>Por meio de experimentos com corantes fotossens\u00edveis, o grupo descobriu que as mitoc\u00f4ndrias das c\u00e9lulas tratadas com o soro dos animais submetidos \u00e0 restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica trocavam mais material gen\u00e9tico entre si e, de algum modo, isso as tornava mais eficientes.<\/p>\n<p>\u201cAs mitoc\u00f4ndrias n\u00e3o s\u00e3o organelas est\u00e1ticas e nem sempre t\u00eam aquele formato de amendoim que vemos nos livros. Est\u00e3o continuamente se fundindo [duas viram uma s\u00f3] e se dividindo [uma d\u00e1 origem a duas] e isso \u00e9 importante para remover organelas que n\u00e3o est\u00e3o funcionando adequadamente e tamb\u00e9m para trocar enzimas e DNA\u201d, explicou Kowaltowski.<\/p>\n<p>Para confirmar que o interc\u00e2mbio de material mitocondrial seria a causa primordial na diferen\u00e7a observada na produ\u00e7\u00e3o de insulina, o grupo repetiu o experimento com o soro dos dois grupos de animais \u2013 mas desta vez usando c\u00e9lulas beta incapazes de produzir a prote\u00edna mitofusina-2 (Mfn-2), importante no processo de fus\u00e3o mitocondrial.<\/p>\n<p>Como esperado, tanto as c\u00e9lulas que receberam o soro dos animais obesos quanto as que receberam soro dos animais submetido \u00e0 restri\u00e7\u00e3o passaram a responder mal ao aumento na taxa de glicose, ou seja, a restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica perdeu o efeito protetor sobre o p\u00e2ncreas. Os resultados foram no The FEBS Journal, da Federation of European Biochemical Societies. O trabalho contou com a participa\u00e7\u00e3o central de Fernanda Cerqueira,  e, atualmente, pesquisadora da Boston University, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u201cBasicamente, o que estamos propondo \u00e9 que existe um fator circulando no sangue dos animais submetidos \u00e0 restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica que \u00e9 o respons\u00e1vel por esse efeito no funcionamento mitocondrial das c\u00e9lulas beta. Mas ainda n\u00e3o sabemos que fator \u00e9 esse. Ser\u00e3o necess\u00e1rios novos estudos\u201d, disse Kowaltowski.<\/p>\n<p>Resultados da pesquisa foram apresentados por Kowaltowski no dia 18 de maio durante o\u00a0, realizado no Expo Center Norte durante a Feira+F\u00f3rum Hospitalar 2017. O evento foi organizado no \u00e2mbito de um acordo firmado entre a FAPESP e a Organiza\u00e7\u00e3o Holandesa para a Pesquisa Cient\u00edfica (NWO) para fomentar a coopera\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica entre pesquisadores da Holanda e de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Em um\u00a0, com participa\u00e7\u00e3o do \u00a0Ignacio Amigo, o grupo mostrou que uma redu\u00e7\u00e3o de 40% nas calorias da dieta dos roedores aumenta a capacidade da mitoc\u00f4ndria de captar c\u00e1lcio em algumas situa\u00e7\u00f5es nas quais o n\u00edvel desse mineral no meio celular encontra-se patologicamente elevado. No c\u00e9rebro, isso pode ajudar a evitar a morte de neur\u00f4nios associada a doen\u00e7as como Alzheimer, Parkinson, epilepsia e acidente vascular cerebral (AVC), entre outras.<\/p>\n<p>Atualmente, o doutorando Sergio Menezes investiga o efeito da restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica no f\u00edgado, onde o c\u00e1lcio tamb\u00e9m atua como sinalizador celular. \u201cObservamos o mesmo efeito: no contexto de restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica, as mitoc\u00f4ndrias conseguem captar mais c\u00e1lcio e, nos experimentos com animais, isso protegeu as c\u00e9lulas contra os danos causados por isquemia. A mitoc\u00f4ndria parece ser, de fato, o segredo para o envelhecimento saud\u00e1vel\u201d, disse Kowaltowski.<\/p>\n<p>Novo programa de pesquisa<\/p>\n<p>Durante a abertura do Workshop Healthy Ageing Opportunities, o diretor cient\u00edfico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, lembrou que desde 2012 a Funda\u00e7\u00e3o mant\u00e9m com a NWO um acordo que possibilita o financiamento conjunto de projetos de pesquisa que re\u00fanem pesquisadores paulistas e holandeses.<\/p>\n<p>\u201cA ideia desta sess\u00e3o \u00e9 mostrar resultados recentes obtidos tanto aqui em S\u00e3o Paulo como na Holanda nesse tema t\u00e3o importante que \u00e9 o envelhecimento saud\u00e1vel\u201d, disse.<\/p>\n<p>Ruben Sharpe, respons\u00e1vel pelas pol\u00edticas da NWO, afirmou que esperava com o evento atrair as funda\u00e7\u00f5es para um novo programa de pesquisa conjunto. \u201cUm programa para continuar a gerar conhecimento sobre este importante t\u00f3pico e para construir uma rede duradoura, para que possamos usar esse conhecimento em ambos os pa\u00edses.\u201d<\/p>\n<p>\u201cAqui no Brasil, assim como na Holanda, a popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 envelhecendo. A expectativa de vida na \u00faltima d\u00e9cada aumentou bastante e ficamos ativos por mais tempo. Portanto, quando olhamos a colabora\u00e7\u00e3o cient\u00edfica entre os dois pa\u00edses este \u00e9 um dos principais t\u00f3picos\u201d, ressaltou Bas van den Dungen, vice-ministro da Sa\u00fade no Minist\u00e9rio Holand\u00eas de Sa\u00fade, Bem-Estar e Esporte.<\/p>\n<p>Carlos Eduardo Negr\u00e3o, membro da coordena\u00e7\u00e3o adjunta de Ci\u00eancias da Vida da FAPESP, observou que os recentes avan\u00e7os nas ci\u00eancias da sa\u00fade, como novos m\u00e9todos diagn\u00f3sticos e medicamentos, melhoraram o tratamento de doen\u00e7as com grande impacto na longevidade. \u201cNo entanto, esses avan\u00e7os n\u00e3o necessariamente representam uma melhora na qualidade de vida. O envelhecimento saud\u00e1vel \u00e9 um dos maiores desafios atuais\u201d, avaliou.<\/p>\n<p>Entre os palestrantes estavam a professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Claudia Bauzer e Albert Mons, da Dutch Techcenter for Life Sciences, que abordaram os desafios e oportunidades do uso de big data em pesquisa na \u00e1rea da sa\u00fade.<\/p>\n<p>Iscia Lopes Cendes, tamb\u00e9m da Unicamp, apresentou dados da Brazilian Initiative on Precision Medicine (BIPMed), que criou o primeiro banco p\u00fablico de dados gen\u00f4micos da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m participaram das discuss\u00f5es os holandeses Wilco Achterberg, do Leiden University Medical Center, e Erik Boddeke, do University Medical Center Groningen.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo\u00a0 | \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Controlar o consumo de calorias no dia a dia \u00e9 uma forma comprovada de evitar n\u00e3o s\u00f3 a obesidade como tamb\u00e9m diversas complica\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 idade, como diabetes, doen\u00e7as do cora\u00e7\u00e3o e do c\u00e9rebro. 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