{"id":115987,"date":"2017-06-28T00:06:10","date_gmt":"2017-06-28T03:06:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=115987"},"modified":"2017-06-27T19:05:53","modified_gmt":"2017-06-27T22:05:53","slug":"infeccao-previa-por-dengue-nao-agrava-o-quadro-de-zika","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/infeccao-previa-por-dengue-nao-agrava-o-quadro-de-zika\/115987","title":{"rendered":"Infec\u00e7\u00e3o pr\u00e9via por dengue n\u00e3o agrava o quadro de Zika"},"content":{"rendered":"<p> Ricardo Zorzetto | Revista Pesquisa FAPESP \u2013 Quem \u00e9 infectado pelo v\u00edrus <strong><em>Zika<\/em><\/strong> depois de j\u00e1 ter tido dengue aparentemente n\u00e3o apresenta uma enfermidade mais severa do que pessoas sem contato pr\u00e9vio com o v\u00edrus da dengue. Essa conclus\u00e3o decorre de um estudo  no dia 20 de junho na revista Clinical Infectious Diseases, realizado com 65 pessoas que moravam em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, no norte do Estado de S\u00e3o Paulo, regi\u00e3o em que a dengue \u00e9 end\u00eamica e na qual o Zika se disseminou durante a epidemia de 2016.<\/p>\n<p>, esse \u00e9 o primeiro trabalho a indicar que, em seres humanos, uma infec\u00e7\u00e3o pr\u00e9via por dengue n\u00e3o leva necessariamente a um quadro mais grave de Zika. Estudos anteriores, realizados apenas com c\u00e9lulas e com roedores, sugeriam que ter tido uma infec\u00e7\u00e3o por dengue potencializaria o agravamento da Zika por facilitar a multiplica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Alguns m\u00e9dicos e virologistas suspeitavam que essa poss\u00edvel amplifica\u00e7\u00e3o viral pudesse explicar a concentra\u00e7\u00e3o de casos de microcefalia associada \u00e0 Zika registrada no Nordeste brasileiro, onde a preval\u00eancia de dengue \u00e9 mais elevada do que em outras regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cNossos resultados indicam que esse agravamento n\u00e3o ocorre ou, se ocorrer, \u00e9 muito raro e n\u00e3o p\u00f4de ser detectado em um estudo como esse\u201d, conta o virologista Maur\u00edcio Lacerda Nogueira, professor da Faculdade de Medicina de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto (Famerp) e coordenador da pesquisa. O estudo foi realizado em parceria com pesquisadores de duas institui\u00e7\u00f5es norte-americanas e outras tr\u00eas paulistas \u2013 a Universidade Estadual Paulista (Unesp), a Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e o Instituto Butantan.<\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo mais intenso da epidemia de Zika, entre janeiro e julho de 2016, a equipe de Nogueira coletou amostras de sangue de 65 pessoas com febre e sintomas de dengue ou Zika \u2013 eles s\u00e3o semelhantes e se confundem \u2013 atendidas em um pronto-socorro de refer\u00eancia da cidade de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, um polo de sa\u00fade nas regi\u00f5es norte e no noroeste de S\u00e3o Paulo. A an\u00e1lise do material gen\u00e9tico viral encontrado no sangue revelou que 45 apresentavam uma infec\u00e7\u00e3o por Zika e 20 por dengue. Os testes indicaram ainda que 78% daquelas com Zika (35 pessoas) e 70% das com dengue j\u00e1 haviam sido infectadas anteriormente pelo v\u00edrus da dengue.<\/p>\n<p>Pouco depois que a epidemia de Zika emergiu, come\u00e7ou-se a suspeitar que a infec\u00e7\u00e3o pr\u00e9via por dengue pudesse gerar quadros mais graves de Zika, semelhantes aos que ocorrem na dengue hemorr\u00e1gica. Cerca de 90% dos casos de dengue hemorr\u00e1gica \u2013 marcada por sangramentos e, quando mais severa, por queda importante de press\u00e3o arterial \u2013 ocorrem em pessoas que j\u00e1 haviam tido a doen\u00e7a e s\u00e3o infectadas por um subtipo diferente do v\u00edrus (ao todo s\u00e3o quatro os subtipos). O problema \u00e9 que os anticorpos produzidos pelo sistema imune contra um dos subtipos nem sempre neutraliza o outro de modo eficiente, gerando uma imuniza\u00e7\u00e3o parcial.<\/p>\n<p>Segundo uma hip\u00f3tese chamada incremento dependente de anticorpos (ADE), a imuniza\u00e7\u00e3o incompleta parece facilitar a entrada do v\u00edrus nas c\u00e9lulas do sistema de defesa em que ele consegue se reproduzir, aumentando o n\u00famero de suas c\u00f3pias no organismo e a gravidade da infec\u00e7\u00e3o. Como os v\u00edrus da dengue e da febre Zika s\u00e3o muito semelhantes (integram a fam\u00edlia dos flaviv\u00edrus), imaginava-se que a imuniza\u00e7\u00e3o parcial observada ap\u00f3s a infec\u00e7\u00e3o por dengue tamb\u00e9m pudesse ocorrer quando algu\u00e9m que j\u00e1 teve dengue contrai Zika.<\/p>\n<p>Essa suspeita ganhou for\u00e7a em meados de 2016 quando surgiram os primeiros estudos mostrando que os anticorpos que protegem da dengue tamb\u00e9m atuam contra o v\u00edrus Zika, mas n\u00e3o os neutralizam completamente. Em mar\u00e7o deste ano, pesquisadores dos Estados Unidos verificaram que essa imuniza\u00e7\u00e3o parcial aumentava a multiplica\u00e7\u00e3o do Zika em um estudo feito com camundongos com o sistema imune debilitado. Agora, os resultados apresentados na Clinical Infectious Diseases sugerem que o que se passa com c\u00e9lulas in vitro e com roedores n\u00e3o necessariamente ocorre com os seres humanos.<\/p>\n<p>Com o aux\u00edlio do imunologista Jorge Kalil Filho, da USP, Nogueira e sua equipe examinaram a quantidade de c\u00f3pias do Zika no sangue de pessoas infectadas anteriormente com dengue e compararam com a encontrada no sangue daquelas jamais expostas ao v\u00edrus da dengue. Se a infec\u00e7\u00e3o pr\u00e9via por dengue facilitasse a multiplica\u00e7\u00e3o do Zika, a quantidade de v\u00edrus Zika deveria ser bem mais elevada no organismo do primeiro grupo de pacientes. N\u00e3o foi o que observaram: a concentra\u00e7\u00e3o de v\u00edrus foi semelhante nos dois grupos. \u201cNosso estudo tinha poder estat\u00edstico suficiente para detectar uma diferen\u00e7a muito pequena, de apenas 10 vezes, na concentra\u00e7\u00e3o do v\u00edrus\u201d, conta Nogueira. Se o incremento mediado por anticorpos ocorresse nessa situa\u00e7\u00e3o, seria esperado que a concentra\u00e7\u00e3o fosse dezenas de milhares de vezes maior.<\/p>\n<p>\u201cEsses resultados n\u00e3o excluem totalmente a possibilidade de que a ADE ocorra, mas s\u00e3o uma evid\u00eancia importante de que ter tido dengue n\u00e3o leva a uma infec\u00e7\u00e3o mais severa por Zika\u201d, conta Kalil, coautor da pesquisa. \u201cNa realidade, h\u00e1 relatos n\u00e3o publicados de que pessoas que j\u00e1 tiveram dengue apresentaram uma forma mais branda de infec\u00e7\u00e3o ao contrair Zika.\u201d<\/p>\n<p>\u201cSe o incremento mediado por anticorpos causado pela dengue levasse \u00e0 microcefalia, dever\u00edamos ter identificado centenas de casos em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto e em Ribeir\u00e3o Preto\u201d, explica Nogueira. \u201cN\u00e3o detectamos nenhum.\u201d A equipe do virologista tamb\u00e9m acompanhou em Rio Preto 55 mulheres que tiveram Zika durante a gesta\u00e7\u00e3o. Todas deram \u00e0 luz filhos sem microcefalia \u2013 algumas das crian\u00e7as apresentaram danos neurol\u00f3gicos, mas bem mais leves do que os registrados no Nordeste.<\/p>\n<p>\u201cSem d\u00favida, esse artigo [da Clinical Infectious Diseases] tem implica\u00e7\u00f5es de longo alcance, tanto epidemiol\u00f3gicas quanto para o desenvolvimento de vacinas\u201d, afirma o pesquisador Nikos Vasilakis, da Universidade do Texas, coautor do estudo. \u201cEsses dados sugerem que outros fatores podem ser os respons\u00e1veis pela s\u00edndrome cong\u00eanita do Zika.\u201d<\/p>\n<p>As primeiras evid\u00eancias de que a infec\u00e7\u00e3o pr\u00e9via por dengue levaria a uma Zika mais severa levantaram uma preocupa\u00e7\u00e3o com respeito ao desenvolvimento de vacinas, em especial a vacina da dengue, em teste no Brasil. \u201cHouve o temor de que vacinar a popula\u00e7\u00e3o contra a dengue pudesse levar a casos mais severos de Zika\u201d, conta Kalil. \u201cOs resultados que obtivemos agora indicam que esse problema n\u00e3o deve existir.\u201d<\/p>\n<p>O artigo Viral load and cytokine response profile does not support antibody-dependent enhancement in dengue-primed Zika-infected patients, publicado na Clinical Infectious Diseases, por ser lido em .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo Zorzetto | Revista Pesquisa FAPESP \u2013 Quem \u00e9 infectado pelo v\u00edrus Zika depois de j\u00e1 ter tido dengue aparentemente n\u00e3o apresenta uma enfermidade mais severa do que pessoas sem contato pr\u00e9vio com o v\u00edrus da dengue. Essa conclus\u00e3o decorre de um estudo no dia 20 de junho na revista Clinical Infectious Diseases, realizado com [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":40847,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"tdm_status":"","tdm_grid_status":"","footnotes":""},"categories":[22,5],"tags":[],"class_list":{"0":"post-115987","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil","8":"category-saude-e-vida"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115987","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=115987"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/115987\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40847"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=115987"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=115987"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=115987"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}