{"id":117863,"date":"2017-07-27T00:09:35","date_gmt":"2017-07-27T03:09:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=117863"},"modified":"2017-07-26T20:48:52","modified_gmt":"2017-07-26T23:48:52","slug":"grupo-da-usp-propoe-nova-estrategia-terapeutica-para-o-tratamento-do-cancer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/grupo-da-usp-propoe-nova-estrategia-terapeutica-para-o-tratamento-do-cancer\/117863","title":{"rendered":"Grupo da USP prop\u00f5e nova estrat\u00e9gia terap\u00eautica para o tratamento do c\u00e2ncer"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Sempre que o organismo sofre uma agress\u00e3o \u2013 seja um simples corte no dedo ou uma cirurgia \u2013 as c\u00e9lulas no entorno da les\u00e3o recebem sinais para se proliferarem mais intensamente, de modo a regenerar o tecido danificado. No caso do <em><strong>c\u00e2ncer<\/strong><\/em> n\u00e3o \u00e9 diferente. Muitas vezes, as c\u00e9lulas tumorais s\u00e3o praticamente eliminadas pelo tratamento com radio ou quimioterapia e, depois de algum tempo, retornam ainda mais agressivas.<\/p>\n<p>Em um  e coordenado pela professora Sonia Jancar, pesquisadores do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (ICB-USP) mostraram que uma prote\u00edna conhecida como PAFR (receptor do fator de ativa\u00e7\u00e3o plaquet\u00e1ria, na sigla em ingl\u00eas) desempenha um papel-chave nesse fen\u00f4meno de repopula\u00e7\u00e3o tumoral \u2013 pelo menos em alguns tipos de c\u00e2ncer j\u00e1 estudados pelo grupo.<\/p>\n<p>Parte dos resultados foi  recentemente na revista Oncogenesis, do grupo Nature.<\/p>\n<p>\u201cEm experimentos com linhagens tumorais e em camundongos, observamos que f\u00e1rmacos capazes de bloquear PAFR inibiram significativamente o crescimento dos tumores e o fen\u00f4meno da repopula\u00e7\u00e3o tumoral ap\u00f3s radioterapia. Sugerimos, portanto, a associa\u00e7\u00e3o da radioterapia com antagonistas desse receptor como uma nova e promissora estrat\u00e9gia terap\u00eautica\u201d, disse Jancar \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Como contou a pesquisadora, a linha de investiga\u00e7\u00e3o teve in\u00edcio ainda na d\u00e9cada de 1990, durante o doutorado de , quando o grupo mostrou que tumores induzidos na cavidade peritoneal de camundongos cresciam significativamente menos quando PAFR era bloqueado. Nesse trabalho, os pesquisadores observaram que o tratamento com antagonistas do receptor ativou os macr\u00f3fagos (um tipo de c\u00e9lula de defesa) e inibiu o crescimento do c\u00e2ncer. O trabalho foi  na revista Inflammation.<\/p>\n<p>Alguns anos depois, durante o  de Soraya Imon de Oliveira \u2013 em colabora\u00e7\u00e3o com o professor da Faculdade de Medicina da USP Roger Chammas \u2013, o grupo mostrou que, em camundongos tratados com antagonistas de PAFR, o melanoma tamb\u00e9m cresce menos. Os resultados foram  no peri\u00f3dico BMC Cancer.<\/p>\n<p>Mais recentemente, durante o  de Ildefonso Alves da Silva Junior, o grupo comprovou que a ativa\u00e7\u00e3o desse receptor induz a prolifera\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas tumorais, protegendo-as da morte induzida pela radioterapia. O trabalho foi orientado pela professora do ICB-USP Ana Paula Lepique e contou com a colabora\u00e7\u00e3o da equipe de Chammas.<\/p>\n<p>\u201cSilva-Junior mostrou que a irradia\u00e7\u00e3o induz a produ\u00e7\u00e3o de mol\u00e9culas semelhantes ao PAF, que ativam o PAFR na c\u00e9lula tumoral e induzem um aumento na express\u00e3o desse receptor e a prolifera\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas tumorais. Essa ativa\u00e7\u00e3o, portanto, promove a repopula\u00e7\u00e3o tumoral. Esse trabalho confirmou ainda, por m\u00e9todos mais sens\u00edveis, que os macr\u00f3fagos existentes no microambiente do tumor, quando s\u00e3o tratados por f\u00e1rmacos bloqueadores do PAFR, s\u00e3o reprogramados para combaterem melhor a doen\u00e7a\u201d, contou Jancar.<\/p>\n<p>Ensaios pr\u00e9-cl\u00ednicos<\/p>\n<p>Os experimentos que comprovaram o envolvimento de PAFR no fen\u00f4meno de repopula\u00e7\u00e3o tumoral foram feitos com linhagens de carcinoma de boca (humana) e de carcinoma de colo uterino (de camundongo) \u2013 tipos de c\u00e2ncer preferencialmente tratados por meio da radioterapia.<\/p>\n<p>As c\u00e9lulas tumorais foram colocadas em um meio de cultura e, depois que come\u00e7aram a crescer, foram irradiadas \u2013 simulando um tratamento radioter\u00e1pico. Logo ap\u00f3s o procedimento, foi poss\u00edvel observar grande produ\u00e7\u00e3o de mol\u00e9culas semelhantes ao PAF nas culturas.<\/p>\n<p>\u201cO PAF \u00e9 na verdade, um fosfolip\u00eddeo produzido principalmente em processos inflamat\u00f3rios e de morte celular. Como a radioterapia causa uma morte inflamat\u00f3ria das c\u00e9lulas tumorais, os n\u00edveis de PAF aumentam muito com esse tratamento\u201d, explicou Silva-Junior.<\/p>\n<p>Os pesquisadores ent\u00e3o trataram parte das culturas com drogas capazes de bloquear o receptor do PAF. Diferentes mol\u00e9culas foram testadas \u2013 inclusive algumas j\u00e1 dispon\u00edveis no mercado, mas que nunca haviam sido usadas contra o c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>An\u00e1lises feitas logo ap\u00f3s o tratamento mostraram que, nas linhagens expostas aos antagonistas de PAFR, o \u00edndice de morte celular pela radioterapia foi at\u00e9 30% maior do que nas culturas n\u00e3o tratadas. Uma nova verifica\u00e7\u00e3o feita nove dias depois revelou que, nas linhagens n\u00e3o tratadas, o \u00edndice de prolifera\u00e7\u00e3o celular era bem maior, em torno de 50% a mais do que nas culturas tratadas com o bloqueador.<\/p>\n<p>O passo seguinte foi injetar essas linhagens tumorais \u2013 depois de irradiadas \u2013 embaixo da pele de camundongos para observar o fen\u00f4meno de repopula\u00e7\u00e3o tumoral in vivo, situa\u00e7\u00e3o em que h\u00e1 intera\u00e7\u00e3o com c\u00e9lulas imunol\u00f3gicas e com outros fatores. Cerca de 30 dias depois da inje\u00e7\u00e3o, os pesquisadores mediam o volume do tumor.<\/p>\n<p>\u201cNesse experimento usamos duas linhagens tumorais modificadas geneticamente: uma que superexpressa o PAFR e outra que n\u00e3o expressa esse receptor. A repopula\u00e7\u00e3o tumoral s\u00f3 aconteceu efetivamente nos animais que receberam a linhagem com superexpress\u00e3o de PAFR\u201d, contou Silva-Junior.<\/p>\n<p>Em um terceiro experimento, camundongos receberam pela inje\u00e7\u00e3o, al\u00e9m das c\u00e9lulas tumorais, uma esp\u00e9cie de c\u00e9lula-controle modificada geneticamente para expressar uma enzima que produz luz, servindo como um marcador dentro do tumor.<\/p>\n<p>\u201cA c\u00e9lula-controle n\u00e3o foi irradiada, mas foi exposta ao mesmo ambiente e recebeu os sinais que o tumor estava produzindo para estimular a prolifera\u00e7\u00e3o celular. Por meio de uma tecnologia conhecida como IVIS [Sistema de Imagem In Vivo, na sigla em ingl\u00eas] foi poss\u00edvel medir a prolifera\u00e7\u00e3o dessas c\u00e9lulas luminescentes e calcular o quanto a irradia\u00e7\u00e3o estava induzindo a repopula\u00e7\u00e3o do tumor\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Resultados mostraram que, nos animais que receberam a linhagem que superexpressa PAFR, a taxa de prolifera\u00e7\u00e3o foi 30 vezes mais alta quando as c\u00e9lulas eram irradiadas em compara\u00e7\u00e3o aos que receberam a mesma linhagem n\u00e3o irradiada.<\/p>\n<p>Pr\u00f3ximos passos<\/p>\n<p>Com o objetivo de avaliar se o fen\u00f4meno observado n\u00e3o \u00e9 espec\u00edfico das linhagens tumorais estudadas at\u00e9 o momento, o grupo do ICB-USP est\u00e1 replicando os experimentos em outros 10 tipos de tumores humanos. Tamb\u00e9m est\u00e3o sendo feitos ensaios em que os antagonistas de PAFR s\u00e3o testados em associa\u00e7\u00e3o com medicamentos quimioter\u00e1picos.<\/p>\n<p>O grupo do ICB-USP testa ainda novos tipos de inibidores de PAFR nas linhagens tumorais, inclusive um grupo de mol\u00e9culas isolado de um fungo marinho pela equipe do professor Roberto Berlinck, do Instituto de Qu\u00edmica de S\u00e3o Carlos (IQSC-USP).<\/p>\n<p>\u201cV\u00e1rias dessas mol\u00e9culas se mostraram potentes antagonistas de PAFR, capazes de inibir o fen\u00f4meno de repopula\u00e7\u00e3o tumoral. Embora a descoberta seja relevante, o caminho para sua valida\u00e7\u00e3o e uso em testes cl\u00ednicos \u00e9 longo e demanda associa\u00e7\u00e3o entre pesquisadores da \u00e1rea b\u00e1sica, como n\u00f3s, qu\u00edmicos para s\u00edntese de mol\u00e9culas e cl\u00ednicos, para testes em pessoas sadias e pacientes\u201d, avaliou Jancar.<\/p>\n<p>Para a pesquisadora, o ideal seria resgatar estudos cl\u00ednicos com antagonistas de PAFR feitos na d\u00e9cada de 1980 em pacientes com asma e pancreatite. \u201cPara essas doen\u00e7as os ensaios foram negativos, mas podem ser positivos contra o c\u00e2ncer. Espero que nossas publica\u00e7\u00f5es alertem outros pesquisadores da \u00e1rea para que possam dar esse passo. Enquanto isto estamos avaliando formas de proteger os achados\u201d, disse Jancar.<\/p>\n<p>O artigo \u201cPlatelet-activating factor (PAF) receptor as a promising target for cancer cell repopulation after radiotherapy\u201d pode ser lido em: .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Sempre que o organismo sofre uma agress\u00e3o \u2013 seja um simples corte no dedo ou uma cirurgia \u2013 as c\u00e9lulas no entorno da les\u00e3o recebem sinais para se proliferarem mais intensamente, de modo a regenerar o tecido danificado. No caso do c\u00e2ncer n\u00e3o \u00e9 diferente. 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