{"id":118673,"date":"2017-08-09T00:07:46","date_gmt":"2017-08-09T03:07:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=118673"},"modified":"2017-08-08T20:24:24","modified_gmt":"2017-08-08T23:24:24","slug":"estudo-associa-esquizofrenia-a-defeito-no-processamento-do-rna-mensageiro-na-celula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/estudo-associa-esquizofrenia-a-defeito-no-processamento-do-rna-mensageiro-na-celula\/118673","title":{"rendered":"Estudo associa esquizofrenia a defeito no processamento do RNA mensageiro na c\u00e9lula"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo\u00a0|\u00a0Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 <strong><em>esquizofrenia<\/em><\/strong> &#8211; No organismo humano, um \u00fanico gene pode dar origem a diferentes prote\u00ednas de acordo com a necessidade do momento e os est\u00edmulos ambientais. Para isso, o RNA mensageiro \u2013 mol\u00e9cula que \u00e9 expressa pelo gene e depois \u00e9 transcrita como uma prote\u00edna \u2013 passa por um processo de \u201cedi\u00e7\u00e3o\u201d (splicing) dentro no n\u00facleo celular.<\/p>\n<p>Esse processamento \u00e9 feito por um complexo proteico conhecido como spliceossoma. Consiste em remover da mol\u00e9cula precursora do RNA mensageiro os chamados \u00edntrons (por\u00e7\u00f5es que n\u00e3o cont\u00eam informa\u00e7\u00f5es para a produ\u00e7\u00e3o de prote\u00ednas) e unir os \u00e9xons (as partes codificantes do c\u00f3digo gen\u00e9tico). A prote\u00edna formada no final do processo vai depender de como a montagem dos \u00e9xons ser\u00e1 feita pelo spliceossoma.<\/p>\n<p>Um estudo brasileiro\u00a0\u00a0e\u00a0\u00a0recentemente na revista\u00a0Molecular Neuropsychiatry\u00a0sugere que esse maquin\u00e1rio celular de processamento do RNA mensageiro pode estar alterado em pacientes com esquizofrenia.<\/p>\n<p>Segundo os autores, esse defeito no spliceossoma poderia ser a g\u00eanese de boa parte das altera\u00e7\u00f5es cerebrais observadas nos portadores da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cUma altera\u00e7\u00e3o no sistema de processamento do RNA mensageiro poderia comprometer a express\u00e3o de in\u00fameras prote\u00ednas \u2013 muitas delas com papel-chave em processos biol\u00f3gicos importantes, como o metabolismo de \u00e1cidos nucleicos, gerando um efeito cascata. Mas isso \u00e9 algo que ainda precisa ser confirmado em estudos futuros\u201d, disse Daniel Martins-de-Souza, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp) e coordenador da pesquisa.<\/p>\n<p>A hip\u00f3tese apresentada pelo grupo de Martins-de-Souza est\u00e1 baseada na an\u00e1lise do tecido cerebral\u00a0post mortem\u00a0de 12 pacientes com esquizofrenia e de oito pessoas sem doen\u00e7a mental (grupo controle). O trabalho teve como foco duas regi\u00f5es cerebrais que estudos anteriores mostram estar morfologicamente e funcionalmente alteradas em portadores da doen\u00e7a: o lobo temporal anterior e o corpo caloso.<\/p>\n<p>\u201cO lobo temporal anterior est\u00e1 envolvido no processamento auditivo e visual e, portanto, tem muita rela\u00e7\u00e3o com sintomas como psicose e alucina\u00e7\u00e3o. J\u00e1 o corpo caloso \u00e9 a regi\u00e3o do c\u00e9rebro que mais cont\u00e9m c\u00e9lulas da glia [astr\u00f3citos, micr\u00f3glias e oligodendr\u00f3citos]. Em trabalhos anteriores, mostramos que pacientes com esquizofrenia apresentam disfun\u00e7\u00f5es nos oligodendr\u00f3citos\u201d, contou Martins-de-Souza.<\/p>\n<p>Como explicou o pesquisador, os oligodendr\u00f3citos s\u00e3o as c\u00e9lulas respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o de mielina, uma subst\u00e2ncia lip\u00eddica fundamental para a troca de informa\u00e7\u00e3o entre neur\u00f4nios. Estudos de imagem feitos por volta dos anos 2000 mostraram que o c\u00e9rebro de portadores de esquizofrenia tem uma quantidade reduzida de oligodendr\u00f3citos quando comparado ao de pessoas sadias. Por volta de 2005, o grupo de Martins-de-Souza apontou que algumas prote\u00ednas produzidas pelos oligodendr\u00f3citos \u2013 particularmente as que fazem parte da fam\u00edlia hnRNP [Ribonucleoprote\u00ednas Nucleares Heterog\u00eaneas, na sigla em ingl\u00eas] \u2013 tamb\u00e9m se apresentavam com a express\u00e3o alterada nesses pacientes.<\/p>\n<p>\u201cEstudos subsequentes feitos por outros grupos com base em nossos achados mostraram, em modelos animais e celulares, que a altera\u00e7\u00e3o nas hnRNPs de fato interfere no processo de mieliniza\u00e7\u00e3o dos neur\u00f4nios, podendo prejudicar a conectividade cerebral. Por isso decidimos estudar melhor o papel dessas prote\u00ednas nucleares na doen\u00e7a\u201d, explicou Martins-de-Souza.<\/p>\n<p>Prote\u00ednas do n\u00facleo<\/p>\n<p>Com aux\u00edlio de um espectr\u00f4metro de massas e\u00a0, os pesquisadores mapearam todo o conjunto de prote\u00ednas (proteoma) encontrado no n\u00facleo das c\u00e9lulas dessas duas regi\u00f5es cerebrais selecionadas para a an\u00e1lise \u2013 excluindo, portanto, as prote\u00ednas encontradas nas demais organelas e no citoplasma.<\/p>\n<p>\u201cO proteoma total dessas c\u00e9lulas j\u00e1 havia sido analisado em pesquisas anteriores. Por\u00e9m, dada a complexidade desse tipo de an\u00e1lise, n\u00e3o tinha sido poss\u00edvel avaliar a diferen\u00e7a na express\u00e3o das prote\u00ednas menos abundantes. Com esse objetivo, decidimos focar apenas no proteoma nuclear\u201d, explicou Ver\u00f4nica Saia-Cereda, primeira autora do artigo e\u00a0\u00a0do IB-Unicamp.<\/p>\n<p>Ao comparar o resultado do grupo controle com o de portadores de esquizofrenia, foi poss\u00edvel identificar quais mol\u00e9culas estavam com a express\u00e3o alterada na condi\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica.<\/p>\n<p>No corpo caloso foram encontradas 119 prote\u00ednas diferencialmente expressas \u2013 sendo 24 consideradas prote\u00ednas nucleares. De acordo com Saia-Cereda, a maioria est\u00e1 envolvida na sinaliza\u00e7\u00e3o celular mediada por c\u00e1lcio, que \u00e9 importante tanto para o metabolismo das mitoc\u00f4ndrias (organelas que produzem energia para a c\u00e9lula) quanto para a retirada do excesso do neurotransmissor dopamina na fenda sin\u00e1ptica (local onde ocorre a troca de informa\u00e7\u00e3o entre os neur\u00f4nios).<\/p>\n<p>\u201cAltera\u00e7\u00f5es no n\u00edvel de dopamina no c\u00e9rebro est\u00e3o associadas aos sintomas mais caracter\u00edsticos do transtorno, como del\u00edrios e alucina\u00e7\u00f5es\u201d, comentou Saia-Cereda.<\/p>\n<p>J\u00e1 no lobo temporal anterior, 224 prote\u00ednas estavam diferencialmente expressas na doen\u00e7a, sendo 76 delas prote\u00ednas nucleares. Dessas, oito est\u00e3o envolvidas no funcionamento do spliceossoma.<\/p>\n<p>\u201cEntre essas oito est\u00e3o as hnRNPs, que desempenham papel central tanto na fun\u00e7\u00e3o do spliceossoma como dos oligodendr\u00f3citos. Aqui, portanto, pode estar a g\u00eanese das disfun\u00e7\u00f5es na mieliniza\u00e7\u00e3o associadas \u00e0 esquizofrenia. Nosso trabalho \u00e9 o primeiro a relacionar o spliceossoma com a doen\u00e7a\u201d, contou Martins-de-Souza.<\/p>\n<p>Segundo Saia-Cereda, o mau funcionamento do maquin\u00e1rio de processamento do RNA mensageiro pode fazer com que determinadas prote\u00ednas n\u00e3o sejam traduzidas corretamente e passem a ter express\u00e3o alterada no organismo como um todo, com consequ\u00eancias ainda desconhecidas. \u201cA rela\u00e7\u00e3o disso com a esquizofrenia pouco se sabe. \u00c9 algo que ainda precisa ser estudado\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Desdobramentos<\/p>\n<p>Em um outro trabalho que vem sendo realizado com apoio da FAPESP, a\u00a0\u00a0Mariana Fioramonte investiga no IB-Unicamp quais prote\u00ednas atuam em parceria com as hnRNPs no processamento do RNA mensageiro.<\/p>\n<p>Como explicou Martins-de-Souza, supervisor da pesquisa, o objetivo \u00e9 verificar se em pacientes com esquizofrenia e em pessoas sem doen\u00e7a mental as prote\u00ednas que se associam para essa fun\u00e7\u00e3o s\u00e3o diferentes.<\/p>\n<p>\u201cO passo seguinte ser\u00e1 tentar modular em laborat\u00f3rio a express\u00e3o dessas mol\u00e9culas e observar como o spliceossoma passa a funcionar quando algumas delas s\u00e3o inibidas. O objetivo \u00e9 tentar encontrar a causa dessa desregula\u00e7\u00e3o do spliceossoma. Dependendo dos resultados, \u00e9 poss\u00edvel que algumas dessas prote\u00ednas possam ser testadas como alvos terap\u00eauticos\u201d, disse o pesquisador.<\/p>\n<p>Segundo os pesquisadores, a esquizofrenia acomete cerca de 1% da popula\u00e7\u00e3o mundial e \u00e9 a principal causa de incapacita\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica. Apesar da alta preval\u00eancia e da severidade dos sintomas, ainda pouco se sabe sobre os mecanismos bioqu\u00edmicos envolvidos no desenvolvimento e na progress\u00e3o da doen\u00e7a. Esse tipo de conhecimento, afirmam, \u00e9 necess\u00e1rio para melhorar os m\u00e9todos de diagn\u00f3stico e de tratamento.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0The Nuclear Proteome of White and Gray Matter from Schizophrenia Postmortem Brains\u00a0pode ser lido em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo\u00a0|\u00a0Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 esquizofrenia &#8211; No organismo humano, um \u00fanico gene pode dar origem a diferentes prote\u00ednas de acordo com a necessidade do momento e os est\u00edmulos ambientais. 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