{"id":120754,"date":"2017-09-08T00:07:14","date_gmt":"2017-09-08T03:07:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=120754"},"modified":"2017-09-07T18:45:37","modified_gmt":"2017-09-07T21:45:37","slug":"poluente-emitido-pela-queima-de-biomassa-causa-dano-ao-dna-e-morte-de-celula-pulmonar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/poluente-emitido-pela-queima-de-biomassa-causa-dano-ao-dna-e-morte-de-celula-pulmonar\/120754","title":{"rendered":"Poluente emitido pela queima de biomassa causa dano ao DNA e morte de c\u00e9lula pulmonar"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Quando s\u00e3o expostas em laborat\u00f3rio a concentra\u00e7\u00f5es compar\u00e1veis de poluentes encontrada na atmosfera amaz\u00f4nica em \u00e9poca de <strong><em>queimadas<\/em><\/strong>, c\u00e9lulas do pulm\u00e3o humano sofrem severos danos em seu DNA e param de se dividir. Ap\u00f3s 72 horas de exposi\u00e7\u00e3o, mais de 30% das c\u00e9lulas em cultura j\u00e1 est\u00e3o mortas.<\/p>\n<p>O principal respons\u00e1vel pelo estrago? Ao que tudo indica \u00e9 o reteno, um composto qu\u00edmico pertencente \u00e0 classe dos hidrocarbonetos polic\u00edclicos arom\u00e1ticos (HPAs).<\/p>\n<p>As conclus\u00f5es s\u00e3o de um estudo publicado no dia 7 de setembro na revista\u00a0\u00a0por um grupo de pesquisadores brasileiros.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o encontramos na literatura cient\u00edfica informa\u00e7\u00f5es sobre a toxicidade do reteno. Espero que nossos achados sirvam como incentivo para que esse composto seja melhor estudado e para que suas concentra\u00e7\u00f5es ambientais passem a ser reguladas pelas organiza\u00e7\u00f5es de sa\u00fade\u201d, disse Nilmara de Oliveira Alves Brito, primeira autora do artigo e\u00a0\u00a0de p\u00f3s-doutorado da FAPESP.<\/p>\n<p>A pesquisa foi conduzida sob a supervis\u00e3o do professor\u00a0, do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas (ICB-USP), e Silvia Regina Batistuzzo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Contou com a participa\u00e7\u00e3o de\u00a0, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (FMUSP), e de\u00a0, do Instituto de F\u00edsica (IF-USP), al\u00e9m de pesquisadores \u00a0da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Washington University em Saint Louis, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u201cAinda durante meu mestrado, na UFRN, observei que a exposi\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas do pulm\u00e3o a esse material particulado emitido pela queima de biomassa induzia muta\u00e7\u00e3o no DNA de c\u00e9lulas de pulm\u00e3o. O objetivo neste estudo mais recente foi investigar os mecanismos pelos quais isso acontece\u201d, disse Alves Brito.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora, o primeiro passo foi determinar a concentra\u00e7\u00e3o de poluentes a ser usada nos testes\u00a0in vitro\u00a0para mimetizar a exposi\u00e7\u00e3o sofrida por pessoas que moram no chamado \u201carco do desmatamento\u201d \u2013 500 mil km\u00b2 de terras que v\u00e3o do leste e sul do Par\u00e1 em dire\u00e7\u00e3o oeste, passando por Mato Grosso, Rond\u00f4nia e Acre.<\/p>\n<p>Por meio de modelos matem\u00e1ticos, os pesquisadores calcularam a capacidade de inala\u00e7\u00e3o de material particulado pelo pulm\u00e3o humano no auge do per\u00edodo de queimadas, bem como a porcentagem de poluentes que de fato se deposita no \u00f3rg\u00e3o. \u201cA partir dessa massa te\u00f3rica, determinamos as concentra\u00e7\u00f5es que seriam testadas nas culturas celulares\u201d, disse Alves Brito.<\/p>\n<p>Os poluentes usados\u00a0in vitro\u00a0foram coletados em uma \u00e1rea natural pr\u00f3xima a Porto Velho (RO) durante a esta\u00e7\u00e3o de queimadas, cujo pico ocorre entre os meses de setembro e outubro.<\/p>\n<p>\u201cFizemos a coleta com equipamentos que aspiram o ar e depositam o material particulado fino \u2013 com di\u00e2metro menor que 10 micr\u00f4metros \u2013 em um filtro. Nosso interesse era estudar as part\u00edculas pequenas, pois s\u00e3o as que conseguem chegar nos alv\u00e9olos pulmonares\u201d, disse Alves Brito.<\/p>\n<p>Como explicou Artaxo, os filtros foram congelados logo ap\u00f3s a coleta do material particulado, uma vez que os compostos org\u00e2nicos encontrados na pluma de polui\u00e7\u00e3o s\u00e3o extremamente vol\u00e1teis.<\/p>\n<p>\u201cEsse material foi levado para S\u00e3o Paulo e dilu\u00eddo em uma solu\u00e7\u00e3o nutritiva, que depois foi aplicada nas culturas. Foi usada a mesma propor\u00e7\u00e3o de poluentes presente no ar respirado pela popula\u00e7\u00e3o em Porto Velho\u201d, disse Artaxo.<\/p>\n<p>As culturas tratadas com a solu\u00e7\u00e3o foram comparadas com um grupo de c\u00e9lulas-controle, que recebeu apenas o solvente usado para extrair os poluentes do filtro. O objetivo era confirmar que os eventuais efeitos adversos observados eram causados pelo material particulado e n\u00e3o pelo solvente.<\/p>\n<p>Efeito imediato<\/p>\n<p>Logo nos primeiros momentos de exposi\u00e7\u00e3o, as c\u00e9lulas pulmonares passavam a produzir grandes quantidade de mol\u00e9culas pr\u00f3-inflamat\u00f3rias. A inflama\u00e7\u00e3o era seguida pelo aumento na libera\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies reativas de oxig\u00eanio (ROS) \u2013 subst\u00e2ncias que provocam o chamado estresse oxidativo e que, em grandes quantidades, danificam as estruturas celulares.<\/p>\n<p>\u201cPara entender os caminhos que estavam levando a essa condi\u00e7\u00e3o de estresse, analisamos o ciclo celular e notamos que ele estava prejudicado pelo aumento na express\u00e3o de prote\u00ednas como a P53 e P21. As c\u00e9lulas tinham parado de se replicar, o que sugeria que danos no DNA estavam ocorrendo\u201d, disse Alves Brito.<\/p>\n<p>Por meio de testes espec\u00edficos, os pesquisadores confirmaram os danos gen\u00e9ticos. Gra\u00e7as ao aumento na express\u00e3o da prote\u00edna LC3 e de outros marcadores espec\u00edficos, notaram tamb\u00e9m que as c\u00e9lulas estavam entrando em um processo de autofagia, ou seja, estavam autodegradando suas estruturas internas.<\/p>\n<p>\u201cTodos esses danos foram observados em apenas 24 horas de exposi\u00e7\u00e3o. \u00c0 medida que o tempo passava, o dano gen\u00e9tico aumentava e as c\u00e9lulas entravam em processo de apoptose [uma esp\u00e9cie de morte celular n\u00e3o inflamat\u00f3ria] e de necrose [tipo de morte em que a c\u00e9lula libera seu conte\u00fado interno, induzindo inflama\u00e7\u00e3o no local]\u201d, disse Alves Brito.<\/p>\n<p>Enquanto na cultura controle apenas 2% das c\u00e9lulas haviam morrido por necrose ap\u00f3s 72 horas, na cultura tratada com os poluentes o \u00edndice chegou a 33%.<\/p>\n<p>\u201cNem todas as c\u00e9lulas morrem. Por\u00e9m, as que sobrevivem continuam sofrendo danos em seu DNA, o que pode predispor ao desenvolvimento de c\u00e2ncer no futuro\u201d, comentou a pesquisadora.<\/p>\n<p>Antes mesmo de iniciar o experimento com as culturas celulares, Alves Brito e colaboradores conclu\u00edram uma an\u00e1lise das subst\u00e2ncias presentes no material particulado coletado na Amaz\u00f4nia. A presen\u00e7a de diversos compostos da classe dos HPAs foi identificada \u2013 muitos deles j\u00e1 s\u00e3o reconhecidos como carcinog\u00eanicos. Os resultados dessa an\u00e1lise foram divulgados em 2015 na revista\u00a0.<\/p>\n<p>\u201cObservamos que o composto em maior quantidade era o reteno. Decidimos, ent\u00e3o, repetir o experimento com as c\u00e9lulas usando essa subst\u00e2ncia de forma isolada, mas na mesma concentra\u00e7\u00e3o encontrada no material particulado. Observamos que o reteno sozinho tamb\u00e9m induzia danos no DNA e morte celular\u201d, disse Alves Brito.<\/p>\n<p>Segundo Artaxo, caso o n\u00famero de c\u00e9lulas pulmonares mortas seja grande\u00a0in vivo, podem surgir dificuldades respirat\u00f3rias e at\u00e9 mesmo doen\u00e7as graves como enfisema pulmonar.<\/p>\n<p>\u201cEm um estudo anterior, mostramos que a queda no desmatamento \u2013 que era de 27 mil km2 em 2004 e passou para 4 mil km2 em 2012 \u2013 evitou a morte de pelo menos 1.700 pessoas por doen\u00e7as associadas \u00e0 polui\u00e7\u00e3o. O curioso \u00e9 que a maioria dessas mortes n\u00e3o teria ocorrido na Amaz\u00f4nia, mas no Sul do Brasil, por causa do transporte a longa dist\u00e2ncia dos poluentes e tamb\u00e9m porque aqui a densidade populacional \u00e9 muito maior\u201d, disse.<\/p>\n<p>Alcance mundial<\/p>\n<p>Embora o reteno n\u00e3o seja emitido pela queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis \u2013 principal fonte de polui\u00e7\u00e3o em regi\u00f5es urbanas no Brasil \u2013, os pesquisadores destacam que esse composto pode ser encontrado na atmosfera de cidades como S\u00e3o Paulo, em decorr\u00eancia provavelmente da queima de cana e de outros tipos de biomassa nas proximidades.<\/p>\n<p>No artigo, os pesquisadores ressaltam que a maioria das pesquisas realizadas teve como foco o papel dos combust\u00edveis f\u00f3sseis na polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica. No entanto, aproximadamente 3 bilh\u00f5es de pessoas em todo o mundo est\u00e3o expostas a poluentes oriundos da queima de biomassa \u2013 decorrente de pr\u00e1ticas agr\u00edcolas, desmatamento, queima de madeira ou carv\u00e3o para uso como combust\u00edvel, em fog\u00f5es ou aquecimento residencial.<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) divulgado em 2012 apontou que aproximadamente 7 milh\u00f5es de mortes \u2013 uma em cada oito ocorridas no mundo \u2013 era resultado de exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica.<\/p>\n<p>\u201cA combina\u00e7\u00e3o de inc\u00eandio florestal e ocupa\u00e7\u00e3o humana transformou a queima de biomassa em uma s\u00e9ria amea\u00e7a \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica. A maioria dos inc\u00eandios florestais ocorre no arco do desmatamento, impactando diretamente mais de 10 milh\u00f5es de pessoas na regi\u00e3o. Muitos estudos identificaram severos efeitos na sa\u00fade humana, como aumento na incid\u00eancia de asma e eleva\u00e7\u00e3o na morbidade e mortalidade principalmente na popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel, composta por crian\u00e7as e idosos\u201d, apontam os autores.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Biomass burning in the Amazon region causes DNA damage and cell death in human lung cells\u00a0(DOI:\u00a0https:\/\/doi.org\/10.1016\/j.atmosenv.2015.08.059), de Nilmara de Oliveira Alves, Joel Brito, Sofia Caumo, Andrea Arana, Sandra de Souza Hacon, Paulo Artaxo, Risto Hillamo, Kimmo Teinil\u00e4, Silvia Regina Batistuzzo de Medeiros e P\u00e9rola de Castro Vasconcellos,\u00a0pode ser lido em:\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Quando s\u00e3o expostas em laborat\u00f3rio a concentra\u00e7\u00f5es compar\u00e1veis de poluentes encontrada na atmosfera amaz\u00f4nica em \u00e9poca de queimadas, c\u00e9lulas do pulm\u00e3o humano sofrem severos danos em seu DNA e param de se dividir. 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