{"id":122976,"date":"2017-10-09T00:06:37","date_gmt":"2017-10-09T03:06:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=122976"},"modified":"2017-10-08T18:49:10","modified_gmt":"2017-10-08T21:49:10","slug":"menos-gordura-mais-cabelo-e-pele-jovem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/menos-gordura-mais-cabelo-e-pele-jovem\/122976","title":{"rendered":"Menos gordura, mais cabelo e pele jovem"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo e Peter Moon\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 <strong><em>Dietas de restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica<\/em><\/strong> t\u00eam sido associadas a v\u00e1rios benef\u00edcios para a sa\u00fade, mas seus efeitos sobre a pele ainda n\u00e3o haviam sido demonstrados. Uma pesquisa feita na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) verificou que, em camundongos, o controle de calorias ajuda os animais a viver mais, por\u00e9m, reduz as reservas de gordura (tecido adiposo) que mant\u00eam o corpo aquecido.<\/p>\n<p>Para compensar esse efeito da dieta, observaram os pesquisadores, o tecido cut\u00e2neo dos roedores estimulou o crescimento de pelos e aumentou o fluxo sangu\u00edneo para aquecer a pele.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, foram observadas altera\u00e7\u00f5es no metabolismo celular. Os animais revelaram uma resposta adaptativa para permanecer aquecidos \u2013 e vivos \u2013 em condi\u00e7\u00f5es alimentares limitadas.<\/p>\n<p>O trabalho foi conduzido durante o p\u00f3s-doutoramento de Maria Fernanda Forni no Instituto de Qu\u00edmica da USP \u2013 com\u00a0\u00a0e orienta\u00e7\u00e3o de Alicia Kowaltowski. Foi realizado no \u00e2mbito do Projeto Tem\u00e1tico &#8220;&#8221;, coordenado por Kowaltowski.<\/p>\n<p>Resultados do estudo foram publicados em setembro na revista\u00a0. \u201cAs mudan\u00e7as na pelagem e na pele foram bastante percept\u00edveis. S\u00e3o interessantes porque se mostraram ap\u00f3s apenas alguns meses, quando os animais ainda n\u00e3o s\u00e3o velhos\u201d, disse Kowaltowski.<\/p>\n<p>A pesquisa foi feita com dois grupos de camundongos ao longo de seis meses. Em um dos grupos, os animais puderam se alimentar como, quando e quanto queriam. Ficaram obesos. O segundo grupo foi submetido a uma dieta na qual se podia comer apenas 60% das calorias consumidas em m\u00e9dia pelo outro grupo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s seis meses, os animais submetidos \u00e0 restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica apresentavam massa corporal 40% menor que a dos demais (n\u00e3o perderam peso, apenas n\u00e3o engordaram como os que comeram livremente). Como diminuiu a gordura que ajuda a deixar os corpos aquecidos, a resposta adaptativa da pele dos roedores foi estimular o crescimento de pelos. Ap\u00f3s seis meses, os animais passaram a exibir pelagens mais uniformes, mais espessas e com pelos mais longos.<\/p>\n<p>\u201cO pelo tem propriedades que isolam melhor o calor. Achamos que essa \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o presente nos mam\u00edferos. Aqueles que comem menos t\u00eam menos gordura e, portanto, precisam de mais pelos para isolar o calor\u201d, disse Kowaltowski.<\/p>\n<p>A vasculariza\u00e7\u00e3o da pele tamb\u00e9m se alterou. Comparado com os animais obesos, os camundongos com restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica apresentaram tr\u00eas vezes mais vasos sangu\u00edneos na pele.<\/p>\n<p>Essa altera\u00e7\u00e3o aumentou a irriga\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea das c\u00e9lulas cut\u00e2neas. Ao mesmo tempo, essas c\u00e9lulas exibiram diferen\u00e7as no metabolismo.<\/p>\n<p>Por outro lado, nos roedores obesos, o que se constatou foi o aparecimento de sinais de envelhecimento precoce da pele. \u201cA mudan\u00e7a na vasoconstri\u00e7\u00e3o auxilia os camundongos magros a conservar calor. Ao mesmo tempo, a pele se manteve jovem\u201d, disse Kowaltowski.<\/p>\n<p>Uma segunda etapa da pesquisa consistiu na raspagem de trechos na pelagem dos dois grupos, de modo a confirmar se o pelo extra estaria ajudando a aquecer os animais com restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica. \u201cRaspamos o pelo dos camundongos e verificamos a evolu\u00e7\u00e3o deles ao longo de um m\u00eas\u201d, disse Kowaltowski.<\/p>\n<p>Com base em aferi\u00e7\u00f5es de perda de calor corp\u00f3reo, foi poss\u00edvel atestar que as pelagens mais espessas ajudaram a isolar o calor.<\/p>\n<p>\u201cOs camundongos em restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica perderam massa muscular e se tornaram mais let\u00e1rgicos. Trata-se de uma mudan\u00e7a no metabolismo que foi resultado direto da perda de calor corporal para o meio ambiente. Eles n\u00e3o conseguem viver bem sem pelos\u201d, disse.<\/p>\n<p>Por fim, tingiu-se o pelo dos animais com um corante azul para verificar se haveria diferen\u00e7a na quantidade de perda de pelos entre os camundongos em dieta e os obesos. O que se constatou foi que, nos animais em dieta, a perda de pelagem foi menor e o pelo se manteve espesso. \u201cEles perderam menos pelos e o pelo permaneceu por mais tempo, o que pode ser uma adapta\u00e7\u00e3o para evitar gasto de energia com o crescimento de pelos\u201d, disse Kowaltowski.<\/p>\n<p>\u201cEssas descobertas s\u00e3o especialmente significativas, uma vez que revelam n\u00e3o apenas um efeito marcante da restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica sobre a pele, mas tamb\u00e9m um mecanismo adaptativo para lidar com o isolamento reduzido derivado de altera\u00e7\u00f5es na pele sob condi\u00e7\u00f5es de redu\u00e7\u00e3o da ingest\u00e3o cal\u00f3rica\u201d, disse.<\/p>\n<p>Prote\u00e7\u00e3o para o f\u00edgado<\/p>\n<p>Em um outro trabalho, publicado na revista\u00a0, o grupo de Kowaltowski mostrou que a ado\u00e7\u00e3o de uma dieta restrita em calorias protegeu o f\u00edgado de camundongos de danos causados pela interrup\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria do fluxo sangu\u00edneo para o \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cQuando comparamos os animais que comiam \u00e0 vontade com os submetidos a uma dieta com restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica, a diferen\u00e7a foi enorme. Enquanto no primeiro grupo cerca de 25% do f\u00edgado ficou comprometido, no segundo, o \u00edndice foi de apenas 1%\u201d, disse a pesquisadora.<\/p>\n<p>O modelo adotado no experimento \u2013 conhecido como isquemia e reperfus\u00e3o \u2013 consiste em interromper cerca de 70% do fluxo sangu\u00edneo para o f\u00edgado durante 40 minutos, simulando um infarto. Dados da literatura cient\u00edfica indicam que esse tipo de procedimento induz um aumento patol\u00f3gico de c\u00e1lcio no tecido, o que causa uma pane no funcionamento das mitoc\u00f4ndrias (organelas respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o da energia celular) e leva parte das c\u00e9lulas hep\u00e1ticas \u00e0 morte.<\/p>\n<p>\u201cO c\u00e1lcio \u00e9 importante para regular o metabolismo da mitoc\u00f4ndria e aumentar a produ\u00e7\u00e3o de ATP [adenosina trifosfato, mol\u00e9cula que armazena energia]. Por\u00e9m, em excesso, faz com que a organela pare de trabalhar adequadamente. Nossa hip\u00f3tese, portanto, era de que o benef\u00edcio observado com a dieta estaria relacionado com um aumento na capacidade das mitoc\u00f4ndrias de captar c\u00e1lcio do meio intracelular sem deixar de produzir energia\u201d, explicou Sergio Menezes-Filho, pesquisador do IQ-USP e primeiro autor do artigo.<\/p>\n<p>Ensaios\u00a0in vitro\u00a0foram feitos para confirmar a teoria e compreender melhor os mecanismos envolvidos. Para isso, os pesquisadores isolaram mitoc\u00f4ndrias dos dois grupos de animais inclu\u00eddos no estudo: um liberado para comer \u00e0 vontade (controle) e outro submetido \u00e0 restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica (60% das calorias do controle).<\/p>\n<p>As mitoc\u00f4ndrias foram colocadas em um meio de incuba\u00e7\u00e3o com uma sonda fluorescente que brilhava \u00e0 medida que a concentra\u00e7\u00e3o de c\u00e1lcio aumentava.<\/p>\n<p>\u201cAcrescent\u00e1vamos uma pequena quantidade do mineral no meio e a fluoresc\u00eancia aumentava. \u00c0 medida que a mitoc\u00f4ndria captava o c\u00e1lcio, o brilho diminu\u00eda. Ent\u00e3o acrescent\u00e1vamos mais um pouco. Quando a organela atingia sua capacidade m\u00e1xima de capta\u00e7\u00e3o, o mineral come\u00e7ava a voltar para o meio de incuba\u00e7\u00e3o e a fluoresc\u00eancia aumentava mesmo sem novas adi\u00e7\u00f5es\u201d, explicou Menezes-Filho.<\/p>\n<p>Por meio desse experimento, o grupo observou que as mitoc\u00f4ndrias dos animais submetidos \u00e0 restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica conseguiam captar cerca de 70% mais c\u00e1lcio que as do grupo controle \u2013 sem que seu funcionamento ficasse comprometido.<\/p>\n<p>Com aux\u00edlio de uma t\u00e9cnica conhecida como espectrometria de massas, o grupo observou que no interior das organelas extra\u00eddas de animais submetidos \u00e0 dieta havia mais mol\u00e9culas de ATP do que nas do grupo controle. Essa parte do estudo contou com a colabora\u00e7\u00e3o da professora do IQ-USP Marisa Medeiros.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o sabemos ainda o que faz a mitoc\u00f4ndria do animal que comeu \u00e0 vontade ter menos ATP, mas certamente essa diferen\u00e7a est\u00e1 relacionada \u00e0 capacidade de capta\u00e7\u00e3o de c\u00e1lcio. Quando igual\u00e1vamos artificialmente o n\u00edvel de ATP nos dois grupos \u2013 seja adicionando a mol\u00e9cula na mitoc\u00f4ndria controle ou reduzindo na do grupo dieta \u2013 a capacidade de capta\u00e7\u00e3o de c\u00e1lcio tamb\u00e9m se igualava\u201d, contou Kowaltowski.<\/p>\n<p>Benef\u00edcios m\u00faltiplos<\/p>\n<p>Os dois artigos recentemente publicados integram uma s\u00e9rie de estudos coordenados por Kowaltowski no \u00e2mbito do Centro de Pesquisa em Processos Redox em Biomedicina (), um Centro de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o (CEPID) apoiado pela FAPESP. O objetivo \u00e9 investigar o efeito da restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica sobre diferentes tecidos.<\/p>\n<p>Dizer para as pessoas simplesmente comerem menos n\u00e3o est\u00e1 funcionando. A obesidade se tornou uma epidemia mundial. Temos tentado entender como a restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica age no organismo e quais s\u00e3o as mol\u00e9culas envolvidas, para encontrar alvos que permitam prevenir ou tratar doen\u00e7as relacionadas ao ganho de peso e \u00e0 idade\u201d, disse Kowaltowski.<\/p>\n<p>Os experimentos realizados at\u00e9 o momento mostraram que a dieta em animais de laborat\u00f3rio causa efeitos muito espec\u00edficos nos diferentes \u00f3rg\u00e3os. No p\u00e2ncreas, por exemplo, torna as c\u00e9lulas produtoras de insulina capazes de responder melhor ao aumento na taxa de glicose do sangue (leia mais em\u00a0<\/p>\n<p>J\u00e1 no c\u00e9rebro, foi observado um benef\u00edcio tamb\u00e9m relacionado \u00e0 capacidade das mitoc\u00f4ndrias em captar c\u00e1lcio \u2013 o que poderia evitar a morte de neur\u00f4nios associada a doen\u00e7as como Alzheimer, Parkinson, epilepsia e acidente vascular cerebral (AVC), entre outras (leia mais em\u00a0<\/p>\n<p>Participaram desses estudos\u00a0, do IQ-USP, e\u00a0, atualmente na Ben-Gurion University of the Negev, em Israel.<\/p>\n<p>Nos trabalhos feitos at\u00e9 o momento, avaliamos o efeito da restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica em situa\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas agudas. Mas acreditamos que a dieta tamb\u00e9m tenha um efeito ben\u00e9fico, por\u00e9m mais sutil, em condi\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas. Ajudando a regular o metabolismo do dia a dia. \u00c9 isso que pretendemos compreender melhor agora\u201d, disse Kowaltowski.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Caloric Restriction Promotes Structural and Metabolic Changes in the Skin\u00a0(doi: http:\/\/dx.doi.org\/10.1016\/j.celrep.2017.08.052), de Maria Fernanda Forni, Julia Peloggia, T\u00e1rcio T. Braga, Jes\u00fas Eduardo Ortega Chinchilla, Jorge Shinohara, Carlos Arturo Navas, Niels Olsen Saraiva Camara e Alicia J. Kowaltowski, pode ser lido em\u00a0<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Caloric restriction protects livers from ischemia\/reperfusion damage by preventing Ca2+-induced mitochondrial permeability transition\u00a0(doi: doi.org\/10.1016\/j.freeradbiomed.2017.06.013), de Sergio L. Menezes-Filho, Ignacio Amigo, Fernanda M. Prado, Natalie C. Ferreira, Marcia K. Koike, Isabella F. D. Pinto, Sayuri Miyamoto, Edna F. S. Montero, Marisa H. G. Medeiros, Alicia J. Kowaltowski, pode ser lido em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo e Peter Moon\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Dietas de restri\u00e7\u00e3o cal\u00f3rica t\u00eam sido associadas a v\u00e1rios benef\u00edcios para a sa\u00fade, mas seus efeitos sobre a pele ainda n\u00e3o haviam sido demonstrados. 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