{"id":125052,"date":"2017-11-07T00:27:42","date_gmt":"2017-11-07T02:27:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=125052"},"modified":"2017-11-06T14:53:18","modified_gmt":"2017-11-06T16:53:18","slug":"hpv-infecta-humanos-ha-mais-de-500-mil-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/hpv-infecta-humanos-ha-mais-de-500-mil-anos\/125052","title":{"rendered":"HPV infecta humanos h\u00e1 mais de 500 mil anos"},"content":{"rendered":"<p> Peter Moon\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 A humanidade convive h\u00e1 mais tempo do que se imaginava com o v\u00edrus do papiloma humano (<em><strong>HPV<\/strong><\/em>), o causador do c\u00e2ncer cervical, ou c\u00e2ncer de colo de \u00fatero. Um novo estudo acaba de sugerir que as primeiras infec\u00e7\u00f5es pela variante de n\u00famero 16 do v\u00edrus HPV (ou HPV16) ocorreram h\u00e1 mais de 500 mil anos. As infec\u00e7\u00f5es atingiram indiv\u00edduos do g\u00eanero humano pertencentes \u00e0 esp\u00e9cie ancestral comum do homem moderno (Homo sapiens), dos neandertais da Europa e dos denisovanos da \u00c1sia.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a conclus\u00e3o do estudo gen\u00e9tico desenvolvido no Instituto Catal\u00e3o de Oncologia (ICO), em Barcelona, Espanha. O trabalho foi publicado na\u00a0\u00a0e \u00e9 assinado pelos pesquisadores Ville Pimenoff e Ignacio Bravo, do ICO, e pela bioqu\u00edmica brasileira Cristina Mendes de Oliveira, do Hospital do C\u00e2ncer de Barretos.<\/p>\n<p>Entre 2013 e 2014, Oliveira estagiou no ICO dentro do seu projeto de p\u00f3s-doutoramento no Instituto de Medicina Tropical de S\u00e3o Paulo, que contou com\u00a0.<\/p>\n<p>A fam\u00edlia de papilomav\u00edrus compreende mais de 200 tipos de v\u00edrus, que se encontram espalhados pelo mundo. Todo ser humano sofre, em algum momento da vida, pelo menos uma infec\u00e7\u00e3o causada por algum tipo de v\u00edrus HPV. Em sua imensa maioria, os casos s\u00e3o assintom\u00e1ticos.<\/p>\n<p>O HPV infecta preferencialmente a regi\u00e3o anogenital e a pele. Mais de 40 tipos de HPV s\u00e3o transmitidos por contato sexual. Boa parte deles \u00e9 inofensiva. Alguns tipos podem ou n\u00e3o formar verrugas benignas. Uns poucos s\u00e3o malignos e podem provocar o surgimento de les\u00f5es cancer\u00edgenas.<\/p>\n<p>Dois v\u00edrus HPV, os tipos 16 e 18, s\u00e3o respons\u00e1veis pela quase totalidade dos casos de c\u00e2ncer cervical ou c\u00e2ncer de colo de \u00fatero. De acordo com o World Cancer Report 2014, o c\u00e2ncer cervical \u00e9 o quarto tipo mais comum de c\u00e2ncer entre as mulheres (mais de 500 mil casos no mundo em 2012) e tamb\u00e9m a quarta causa mais comum de morte por c\u00e2ncer entre mulheres (270 mil no mesmo ano).<\/p>\n<p>O v\u00edrus HPV16 \u00e9 o tipo mais oncog\u00eanico, respondendo por 50% de todos os casos de c\u00e2ncer cervical. S\u00e3o conhecidas quatro variantes do HPV16: A, B, C e D. A variante A, por sua vez, subdivide-se em quatro sublinhagens, de n\u00fameros 1, 2, 3, 4.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que estudos epidemiol\u00f3gicos do c\u00e2ncer cervical avan\u00e7aram nas \u00faltimas d\u00e9cadas, um padr\u00e3o curioso come\u00e7ou a emergir. Percebeu-se que a incid\u00eancia das variantes e sublinhagens de HPV16 variava de acordo com a regi\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Descobriu-se que as infec\u00e7\u00f5es pela variante A (de sublinhagens 1, 2 e 3) e pela variante D s\u00e3o predominantes nas Am\u00e9ricas, na Europa, no Oriente M\u00e9dio e no subcontinente indiano. No norte da \u00c1frica, por outro lado, prevalecem as sublinhagens A1, A 2 e A3. J\u00e1 na \u00c1frica subsaariana preponderam as variantes A e C. E no leste da \u00c1sia e no Sudeste Asi\u00e1tico sobressai a sublinhagem A4.<\/p>\n<p>Mais al\u00e9m, sabe-se que o potencial oncog\u00eanico n\u00e3o \u00e9 o mesmo para todas as variantes de HPV16 e varia em associa\u00e7\u00e3o com diferentes popula\u00e7\u00f5es humanas. Como explicar a filogeografia do v\u00edrus e entender a variabilidade oncog\u00eanica de suas variantes?<\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, a distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica das variantes de HPV16 sugeria uma poss\u00edvel conex\u00e3o com a distribui\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica das principais etnias humanas: caucasianos, negroides e mongoloides.<\/p>\n<p>\u201cA predomin\u00e2ncia geogr\u00e1fica das diversas variantes de HPV16 parecia, a princ\u00edpio, estar ligada \u00e0 etnia do paciente\u201d, disse Oliveira. Pautando-se nas evid\u00eancias do mapa epidemiol\u00f3gico de incid\u00eancia mundial de c\u00e2ncer cervical, os pesquisadores especularam que as sublinhagens A1, A2 e A3 seriam predominantes nos povos caucasianos, enquanto as variantes A (1, 2, 3), B, C e D se distribuiriam entre os povos \u00e1rabes, as variantes B e C entre os negros africanos e a sublinhagem A4 entre os asi\u00e1ticos.<\/p>\n<p>\u201cPara testar tal hip\u00f3tese, precis\u00e1vamos mapear as variantes do HPV16 em cada lugar do mundo\u201d, disse Oliveira. A an\u00e1lise filogeogr\u00e1fica do HPV16 foi realizada a partir do mapeamento de um total de 1.719 casos isolados de c\u00e2ncer cervical em todo o mundo, via PCR, e complementado pelos 118 genomas completos de HPV16 dispon\u00edveis no GenBank.<\/p>\n<p>Da\u00ed foram obtidas 1.601 sequ\u00eancias parciais isoladas, nas quais estava compreendido um gene do HPV16 comprovadamente ligado ao aparecimento de tumores, o oncogene E6. Por fim, chegou-se a um total de 1.680 sequ\u00eancias isoladas de HPV16 cuja origem geogr\u00e1fica podia ser identificada com precis\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAnalisamos a diversidade das variantes de HPV16 e comparamos o resultado com os padr\u00f5es filogeogr\u00e1ficos e evolutivos da popula\u00e7\u00e3o humana. Descobrimos que a codiverg\u00eancia dos humanos modernos responde por, no m\u00e1ximo, 30% da distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica viral atual\u201d, disse Oliveira.<\/p>\n<p>\u201cA segunda hip\u00f3tese por n\u00f3s levantada considerou que a infec\u00e7\u00e3o do HPV16 em humanos poderia ser muito mais antiga do que se pensa. Imaginamos que o HPV16 poderia ter coevolu\u00eddo n\u00e3o s\u00f3 com a esp\u00e9cie\u00a0Homo sapiens, mas tamb\u00e9m com o g\u00eanero\u00a0Homo\u201d, disse.<\/p>\n<p>Diverg\u00eancias e linhagens<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o mais parcimoniosa dos resultados requeria que um v\u00edrus ancestral HPV16 estivesse infectando humanos h\u00e1 mais de meio milh\u00e3o de anos.<\/p>\n<p>Seguindo a mesma linha interpretativa dos dados, a diverg\u00eancia entre os ancestrais de humanos modernos (H. sapiens), que permaneceram na \u00c1frica, e as linhagens dos neandertais e dos denisovanos, que evolu\u00edram e se estabeleceram fora da \u00c1frica, corresponderia ao surgimento da variante A entre neandertais e denisovanos, e das variantes B, C e D em sapiens.<\/p>\n<p>Entre 120 mil e 60 mil anos atr\u00e1s, quando os primeiros humanos modernos come\u00e7aram a sair da \u00c1frica para povoar os quatro cantos da Terra, levaram consigo a variante B, que surgiu h\u00e1 cerca de 200 mil anos.<\/p>\n<p>Quando os descendentes dessas levas migrat\u00f3rias entraram em contato com as outras esp\u00e9cies humanas preestabelecidas fora da \u00c1frica, os neandertais na Europa e os denisovanos na \u00c1sia, a variante A de neandertais e denisovanos infectou os humanos modernos n\u00e3o africanos, praticamente tomando o lugar que era da antiga variante B.<\/p>\n<p>Enquanto isso, no estoque humano que permaneceu na \u00c1frica, novas diverg\u00eancias nos \u00faltimos 100 mil anos fizeram surgir as variantes C e D. Da mesma forma, atrav\u00e9s da Eur\u00e1sia, a expans\u00e3o de humanos modernos carregando a variante A fez com que esta divergisse em sublinhagens. A primeira sublinhagem a se destacar entre 90 mil e 70 mil anos na \u00c1sia foi a A4. J\u00e1 as sublinhagens A1, A2 e A3 s\u00e3o fruto de diverg\u00eancia mais recente, nos \u00faltimos 60 mil anos.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 a primeira vez que se obt\u00eam estes resultados. Com base nessas informa\u00e7\u00f5es, talvez no futuro seja poss\u00edvel avan\u00e7ar no diagn\u00f3stico dos casos de c\u00e2ncer cervical. A ideia \u00e9 um dia poder avaliar o potencial carcinog\u00eanico do HPV16 em fun\u00e7\u00e3o das diversas etnias\u201d, disse Oliveira.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Transmission between Archaic and Modern Human Ancestors during the Evolution of the Oncogenic Human Papillomavirus(https:\/\/doi.org\/10.1093\/molbev\/msw214), de Ville N. Pimenoff, Cristina Mendes de Oliveira e Ignacio G. Bravo, pode ser lido em:\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peter Moon\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 A humanidade convive h\u00e1 mais tempo do que se imaginava com o v\u00edrus do papiloma humano (HPV), o causador do c\u00e2ncer cervical, ou c\u00e2ncer de colo de \u00fatero. Um novo estudo acaba de sugerir que as primeiras infec\u00e7\u00f5es pela variante de n\u00famero 16 do v\u00edrus HPV (ou HPV16) ocorreram h\u00e1 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":37376,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"tdm_status":"","tdm_grid_status":"","footnotes":""},"categories":[22,5],"tags":[],"class_list":{"0":"post-125052","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil","8":"category-saude-e-vida"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/125052","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=125052"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/125052\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/37376"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=125052"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=125052"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=125052"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}