{"id":125301,"date":"2017-11-09T00:06:04","date_gmt":"2017-11-09T02:06:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=125301"},"modified":"2017-11-08T16:25:55","modified_gmt":"2017-11-08T18:25:55","slug":"atencao-dos-pais-pode-reduzir-risco-de-abuso-de-drogas-na-adolescencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/atencao-dos-pais-pode-reduzir-risco-de-abuso-de-drogas-na-adolescencia\/125301","title":{"rendered":"Aten\u00e7\u00e3o dos pais pode reduzir risco de abuso de drogas na adolesc\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Pais que exigem o cumprimento de regras e que monitoram constantemente as atividades dos filhos \u2013 buscando saber onde est\u00e3o, com quem e o que fazem \u2013 correm menor risco de enfrentar problemas relacionados ao <strong><em>abuso de \u00e1lcool e de outras drogas<\/em><\/strong> quando as crian\u00e7as entram na adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>A probabilidade torna-se ainda menor quando, al\u00e9m de monitorar e cobrar, os pais tamb\u00e9m abrem espa\u00e7o para o di\u00e1logo, explicam o motivo das regras e se mostram presentes no dia a dia dos filhos, dispostos a acolher suas dificuldades \u2013 caracter\u00edstica parental que especialistas chamam de \u201cresponsividade\u201d.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 de uma pesquisa realizada na Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) com 6.381 jovens de seis cidades brasileiras. Os resultados acabam de ser publicados na revista\u00a0.<\/p>\n<p>\u201cA principal conclus\u00e3o do estudo \u00e9 que o estilo parental, ou seja, o modo como os pais educam seus filhos, pode ser um fator de prote\u00e7\u00e3o ou de risco para o consumo de \u00e1lcool e outras drogas na adolesc\u00eancia. Isso significa que os programas escolares de preven\u00e7\u00e3o devem, al\u00e9m de conscientizar as crian\u00e7as, tamb\u00e9m se preocupar em treinar habilidades parentais\u201d, disse Zila Sanchez, professora da Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp) e coordenadora da pesquisa\u00a0.<\/p>\n<p>Os dados foram coletados em 62 escolas p\u00fablicas das cidades de Tubar\u00e3o (SC), Florian\u00f3polis (SC), S\u00e3o Paulo (SP), S\u00e3o Bernardo do Campo (SP), Fortaleza (CE) e Bras\u00edlia (DF). Participaram do levantamento estudantes de 7\u00ba e 8\u00ba anos do ensino fundamental. A idade m\u00e9dia dos entrevistados foi de 12,5 anos.<\/p>\n<p>\u201cOptamos por trabalhar com jovens que haviam acabado de entrar na adolesc\u00eancia para avaliar se, nessa fase, o estilo parental j\u00e1 estava influenciando o consumo de subst\u00e2ncias. Entretanto, como ainda s\u00e3o muito jovens, a preval\u00eancia de consumo ainda \u00e9 baixa. Por esse motivo, consideramos no question\u00e1rio quem havia feito uso ao menos uma vez no \u00faltimo ano\u201d, explicou Sanchez.<\/p>\n<p>Os question\u00e1rios foram preenchidos pelos pr\u00f3prios adolescentes, sem a presen\u00e7a do professor, e depositados anonimamente em envelopes pardos \u2013 de modo a evitar inibi\u00e7\u00e3o e constrangimento. Al\u00e9m de perguntas sobre o uso de drogas, tamb\u00e9m foram inclu\u00eddas quest\u00f5es sobre o estilo parental (como os jovens percebiam os pais), condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas, comportamento sexual e viol\u00eancia escolar, entre outras.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise das respostas foi feita durante o doutorado de Juliana Valente, com\u00a0\u00a0e orienta\u00e7\u00e3o de Sanchez.<\/p>\n<p>Por meio de um modelo estat\u00edstico conhecido como an\u00e1lise de classes latentes, foi poss\u00edvel dividir os entrevistados em tr\u00eas grupos de uso de drogas. A mais prevalente, com 81,54%, foi a classe dos \u201cabstinentes\/usu\u00e1rios leves\u201d. Em seguida, com 16,65%, vieram aqueles considerados \u201cusu\u00e1rios de \u00e1lcool\/bebedores pesados\u201d. Por \u00faltimo, com 1,8%, os \u201cpoliusu\u00e1rios\u201d, ou seja, aqueles que, al\u00e9m de \u00e1lcool, usaram no \u00faltimo ano subst\u00e2ncias como tabaco, maconha, coca\u00edna, crack ou inalantes (benzina e cola de sapateiro, por exemplo).<\/p>\n<p>\u201cO passo seguinte foi avaliar se os estilos parentais estavam associados a algum desses tr\u00eas perfis de consumo. Para isso, os pais tamb\u00e9m foram classificados em quatro tipos diferentes \u2013 segundo a avalia\u00e7\u00e3o dos adolescentes e crit\u00e9rios estabelecidos na literatura cient\u00edfica\u201d, explicou Sanchez.<\/p>\n<p>Com base em uma escala de avalia\u00e7\u00e3o consagrada em estudos internacionais e validada no Brasil, os perfis parentais foram classificados de acordo com dois dom\u00ednios principais: \u201cexig\u00eancia\u201d \u2013 o quanto os pais monitoram as atividades dos filhos e demandam o cumprimento de regras \u2013 e \u201cresponsividade\u201d \u2013 o quanto s\u00e3o sens\u00edveis \u00e0s demandas dos filhos e abertos ao di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Pais com escore alto nos dois dom\u00ednios foram classificados como \u201cautoritativos\u201d. Aqueles com escore alto apenas no dom\u00ednio da exig\u00eancia foram classificados como \u201cautorit\u00e1rios\u201d. Pais responsivos, mas que n\u00e3o monitoram as atividades dos filhos ou n\u00e3o se apegam a regras foram considerados \u201cindulgentes\u201d. Por \u00faltimo, aqueles com escore baixo nos dois dom\u00ednios foram classificados como \u201cnegligentes\u201d.<\/p>\n<p>De modo semelhante ao observado em estudos internacionais, o estilo \u201cautoritativo\u201d foi o mais protetor, seguido pelo \u201cautorit\u00e1rio\u201d e, na sequ\u00eancia, pelo \u201cindulgente\u201d. Como ressaltaram os pesquisadores no artigo, os pais \u201cnegligentes\u201d s\u00e3o os que colocam os adolescentes em maior risco de pertencer \u00e0s duas classes de usu\u00e1rios de drogas encontradas no estudo: usu\u00e1rios de \u00e1lcool\/bebedores pesados e poliusu\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u201cO fato de o \u2018autoritativo\u2019 ser o mais protetor e o \u2018negligente\u2019 o de maior risco j\u00e1 era esperado. Por\u00e9m, ainda havia na literatura cient\u00edfica uma discuss\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos estilos \u2018autorit\u00e1rio\u2019 e \u2018indulgente\u2019. N\u00e3o estava claro qual deles seria melhor. Os achados deste estudo refor\u00e7am a fun\u00e7\u00e3o protetora que a dimens\u00e3o da exig\u00eancia, composta por monitoramento parental e est\u00edmulo ao cumprimento de regra, desempenha na preven\u00e7\u00e3o do consumo de drogas na adolesc\u00eancia\u201d, disse Valente.<\/p>\n<p>Ricos bebem mais<\/p>\n<p>Um dado que chamou a aten\u00e7\u00e3o do grupo da Unifesp foi que, quanto mais alta era a classe social do entrevistado, maior era a probabilidade de pertencer aos grupos de bebedores pesados ou poliusu\u00e1rios. De acordo com Sanchez, o achado contraria dados de estudos norte-americanos e europeus, onde a pobreza \u00e9 considerada um fator de risco para o uso de \u00e1lcool e drogas na adolesc\u00eancia. Por\u00e9m, vai ao encontro de dados brasileiros anteriores para a mesma faixa et\u00e1ria.<\/p>\n<p>\u201cEsse dado \u00e9 bem curioso e mostra que n\u00e3o podemos simplesmente importar dados relacionados a fatores de risco e prote\u00e7\u00e3o para programas de preven\u00e7\u00e3o de uso de drogas, sem considerar diferen\u00e7as culturais\u201d, disse Sanchez.<\/p>\n<p>Segundo Valente, as an\u00e1lises estat\u00edsticas n\u00e3o permitiram associar os diferentes modelos de educa\u00e7\u00e3o a uma classe social espec\u00edfica, ou seja, houve uma distribui\u00e7\u00e3o homog\u00eanea dos estilos parentais entre as diferentes faixas de renda.<\/p>\n<p>A coleta dos dados ocorreu no fim de 2014, no \u00e2mbito de um projeto financiado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. A equipe da Unifesp foi escalada pelo \u00f3rg\u00e3o governamental para avaliar nas 62 escolas selecionadas a efetividade de um programa de preven\u00e7\u00e3o ao uso de drogas intitulado #Tamojunto.<\/p>\n<p>\u201cEsse programa foi trazido da Europa, onde apresentou bons resultados, e adaptado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Al\u00e9m de passar conhecimentos sobre as drogas para os jovens, buscava trabalhar o desenvolvimento de habilidades pessoais e interpessoais. Por\u00e9m, aqui no Brasil, n\u00e3o observamos efetividade para as mesmas medidas europeias\u201d, contou Valente.<\/p>\n<p>Como explicou Sanchez, os dados analisados durante o doutorado de Valente, que embasam o artigo agora publicado, foram coletados antes da aplica\u00e7\u00e3o do programa #Tamojunto e n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o com seus resultados.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Gradient of association between parenting styles and patterns of drug use in adolescence: A latent class analysis, de Juliana Y.Valente, Hugo Cogo-Moreira e Zila M. Sanchez, pode ser lido em.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Pais que exigem o cumprimento de regras e que monitoram constantemente as atividades dos filhos \u2013 buscando saber onde est\u00e3o, com quem e o que fazem \u2013 correm menor risco de enfrentar problemas relacionados ao abuso de \u00e1lcool e de outras drogas quando as crian\u00e7as entram na adolesc\u00eancia. 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