{"id":125659,"date":"2017-11-14T00:29:24","date_gmt":"2017-11-14T02:29:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=125659"},"modified":"2017-11-13T16:22:24","modified_gmt":"2017-11-13T18:22:24","slug":"sepse-e-a-doenca-que-mais-mata-em-utis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2017\/sepse-e-a-doenca-que-mais-mata-em-utis\/125659","title":{"rendered":"Sepse \u00e9 a doen\u00e7a que mais mata em UTIs"},"content":{"rendered":"<p> Maria Fernanda Ziegler\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 O Brasil tem uma taxa extremamente alta de morte por <strong><em>sepse<\/em><\/strong> em UTIs, superando at\u00e9 mortes por acidente vascular cerebral e infarto nessas unidades. Segundo levantamento organizado por pesquisadores da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp) e do Instituto Latino Americano de Sepse (Ilas), a cada ano morrem mais de 230 mil pacientes adultos nas UTIs em decorr\u00eancia da doen\u00e7a. A estimativa \u00e9 sombria, 55,7% dos pacientes internados com sepse v\u00e3o a \u00f3bito.<\/p>\n<p>Os dados s\u00e3o do primeiro estudo nacional de pacientes com sepse atendidos em UTIs, que teve os resultados publicados na revista\u00a0. O trabalho \u00e9 resultado de um\u00a0\u00a0apoiado pela FAPESP.<\/p>\n<p>A sepse \u00e9 desencadeada por uma resposta desregulada do organismo na presen\u00e7a de um agente infeccioso. O sistema de defesa passa a combater n\u00e3o s\u00f3 esse agente, mas tamb\u00e9m o pr\u00f3prio organismo, gerando disfun\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os. Tanto as infec\u00e7\u00f5es de origem comunit\u00e1ria (40% dos casos) como aquelas associadas \u00e0 assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade (60%) podem evoluir para sepse.<\/p>\n<p>\u201cA preval\u00eancia de 30% de sepse n\u00e3o \u00e9 considerada t\u00e3o alta. Ela j\u00e1 havia sido identificada em estudos anteriores. J\u00e1 a mortalidade por sepse no Brasil \u00e9 alt\u00edssima, principalmente pelo fato de ser uma doen\u00e7a pass\u00edvel de preven\u00e7\u00e3o em grande parte dos casos\u201d, disse Fl\u00e1via Machado, professora do Departamento de Anestesiologia, Dor e Medicina Intensiva da Unifesp e coordenadora da pesquisa.<\/p>\n<p>\u201cA vacina\u00e7\u00e3o pode prevenir sepse comunit\u00e1ria. As estrat\u00e9gias de controle de infec\u00e7\u00e3o hospitalar podem prevenir parte da sepse hospitalar. S\u00e3o medidas simples e a falta delas mostra que o sistema de atendimento \u00e0 sa\u00fade n\u00e3o est\u00e1 bom\u201d, disse.<\/p>\n<p>O levantamento identificou que, embora a qualidade de atendimento varie muito de uma institui\u00e7\u00e3o a outra, n\u00e3o foi encontrada diferen\u00e7a significativa entre a taxa de mortalidade no sistema p\u00fablico (56%) e privado (55%). No geral, dos 420 mil casos tratados por ano, 230 mil terminam em morte.<\/p>\n<p>Para chegar a esses dados, os pesquisadores dividiram as UTIs do pa\u00eds em 40 estratos, de acordo com fatores como regi\u00e3o geoecon\u00f4mica, tamanho das cidades e se as institui\u00e7\u00f5es eram p\u00fablicas ou privadas. O resultado foi a coleta de dados de 227 institui\u00e7\u00f5es, ou 15% de todas as UTIs brasileiras.<\/p>\n<p>\u201cFizemos uma mostra rand\u00f4mica das UTIs brasileiras. Isso foi v\u00e1lido, pois toda vez que se fazia pesquisa em sepse no Brasil \u2013 e n\u00e3o conhe\u00e7o nenhum outro estudo brasileiro que tenha feito a amostragem dessa forma \u2013 perguntava-se se a institui\u00e7\u00e3o queria participar da pesquisa, o que gerava uma amostra enviesada, provavelmente com as melhores institui\u00e7\u00f5es apenas. A taxa de letalidade resultava em 40% e n\u00e3o de os 55,7% que encontramos\u201d, disse Machado.<\/p>\n<p>Uma s\u00e9rie de fatores leva ao resultado sombrio do tratamento da sepse nas UTIs brasileiras, como falta de acesso \u00e0s UTIs, diagn\u00f3stico tardio, demora do paciente na busca por servi\u00e7o de sa\u00fade, tratamento inadequado, problemas de processo e falta de recursos.<\/p>\n<p>Vale ressaltar que a doen\u00e7a, quando detectada precocemente, \u00e9 relativamente simples de ser tratada, necessitando basicamente da administra\u00e7\u00e3o de antibi\u00f3ticos, fluidos e do monitoramento do paciente na UTI e da an\u00e1lise de cultura bacteriana.<\/p>\n<p>\u201cO acesso \u00e0 UTI \u00e9 um definidor de letalidade\u201d, disse Machado. Ela explica que estudos baseados apenas em pacientes internados em UTIs apresentam taxas de letalidade que podem variar bastante de um pa\u00eds para outro conforme o n\u00famero de leitos dispon\u00edveis em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cQuando a disponibilidade de leitos \u00e9 alta, isso implica um maior n\u00famero de pacientes menos graves admitidos nas UTIs, consequentemente com menor letalidade. J\u00e1 em pa\u00edses como o nosso, onde a disponibilidade \u00e9 baixa, sobretudo no sistema p\u00fablico, somente pacientes mais graves tendem a ser admitidos nas UTIs, com consequente aumento da letalidade\u201d, disse.<\/p>\n<p>Infec\u00e7\u00e3o hospitalar<\/p>\n<p>Para evitar que uma parcela de pacientes seja exclu\u00edda do tratamento intensivo, os pesquisadores defendem a necessidade de unidades intermedi\u00e1rias. Para eles, a aus\u00eancia de unidades de cuidados interm\u00e9dios na maioria dos hospitais brasileiros pode ter contribu\u00eddo para uma maior perman\u00eancia na UTI e, consequentemente, para uma maior preval\u00eancia de sepse.<\/p>\n<p>Machado destaca ainda uma rea\u00e7\u00e3o em cadeia desses fatores. \u201cCuidamos mal dos nossos pacientes. O diagn\u00f3stico tamb\u00e9m \u00e9 tardio, pois as pessoas procuram o hospital tarde, a detec\u00e7\u00e3o da sepse \u00e9 tardia e o tratamento \u00e9 inadequado. Com isso, a mortalidade \u00e9 muito alta. Existe ainda um grave problema de processo tamb\u00e9m\u201d, disse Machado.<\/p>\n<p>Outro fator que contribui para os quadros de sepse s\u00e3o as altas taxas de infec\u00e7\u00e3o hospitalar devido \u00e0 baixa ades\u00e3o \u00e0s medidas preventivas. De acordo com o estudo, a maioria dos pacientes que desenvolveu sepse apresentou infec\u00e7\u00e3o hospitalar.<\/p>\n<p>De acordo com o estudo, a baixa qualidade dos cuidados nas unidades de interna\u00e7\u00e3o regular limitaria as pol\u00edticas de alta, bem como a provis\u00e3o de suporte b\u00e1sico e monitoramento a pacientes de severidade leve a moderada. Outra causa poss\u00edvel da alta preval\u00eancia de sepse s\u00e3o as diferen\u00e7as nos cuidados de fim de vida, como a quase aus\u00eancia de tratamentos paliativos.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil, decis\u00f5es de fim de vida s\u00e3o incomuns e existem lacunas na comunica\u00e7\u00e3o, escassez de regula\u00e7\u00e3o legal, aus\u00eancia de diretrizes avan\u00e7adas e cren\u00e7as culturais e religiosas que podem resultar em esfor\u00e7os desnecess\u00e1rios para sustentar a vida\u201d, escreveram os pesquisadores no artigo.<\/p>\n<p>Os pesquisadores desenvolveram um escore contendo oito itens necess\u00e1rios para tratar a sepse. Institui\u00e7\u00f5es que n\u00e3o contemplaram seis desses oito itens mostraram um aumento no risco de morte por sepse. Os itens eram: colher lactato e oxigena\u00e7\u00e3o do sangue (exames de laborat\u00f3rio), ter culturas para a detec\u00e7\u00e3o da bact\u00e9ria, dispor de antibi\u00f3ticos, soro e cateter, monitorar press\u00e3o venosa (central) e ter noradrenalina.<\/p>\n<p>\u201cNote que s\u00e3o itens simples como antibi\u00f3tico, colher culturas, dosar alguns exames que s\u00e3o simples, dar soro. N\u00e3o precisa ter recursos elaborados. Isso diz muito das condi\u00e7\u00f5es que temos no Brasil\u201d, disse.<\/p>\n<p>A incid\u00eancia de sepse \u00e9 um problema mundial, tanto que em maio deste ano a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), bra\u00e7o da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), aprovou uma resolu\u00e7\u00e3o para sepse.<\/p>\n<p>\u201cHoje, a ONU reconhece a sepse como um problema de sa\u00fade mundial. Em breve, teremos que ter um plano nacional de a\u00e7\u00e3o como temos para infec\u00e7\u00e3o hospitalar, por exemplo. Acredito que as coisas come\u00e7ar\u00e3o a mudar, pois os pa\u00edses-membros da OMS, incluindo o Brasil, v\u00e3o ter que tomar provid\u00eancias nesse sentido\u201d, disse.<\/p>\n<p>Machado aponta que os dados do estudo poder\u00e3o ajudar na elabora\u00e7\u00e3o de um plano nacional para a sepse. \u201cTer esses dados ser\u00e1 importante para elaborar o plano. Queremos fazer novos levantamentos, no modelo do que fizemos, incluindo novos segmentos como pesquisa em pronto-socorro, UTIs pedi\u00e1tricas, neonatais e sobre infec\u00e7\u00e3o hospitalar\u201d, disse.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0The epidemiology of sepsis in Brazilian intensive care units (the Sepsis PREvalence Assessment Database, SPREAD): an observational study\u00a0(doi: 10.1016\/S1473-3099(17)30322-5), de Flavia R Machado, Alexandre Biasi Cavalcanti, Fernando Augusto Bozza, Elaine M Ferreira, Fernanda Sousa Angotti Carrara, Juliana Lubarino Sousa, Noemi Caixeta, Reinaldo Salomao, Derek C Angus, Luciano Cesar Pontes Azevedo, pode ser lido no\u00a0Lancet Infectious Diseases\u00a0em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Fernanda Ziegler\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 O Brasil tem uma taxa extremamente alta de morte por sepse em UTIs, superando at\u00e9 mortes por acidente vascular cerebral e infarto nessas unidades. 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