{"id":130968,"date":"2018-01-09T00:06:25","date_gmt":"2018-01-09T02:06:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=130968"},"modified":"2018-01-08T20:42:33","modified_gmt":"2018-01-08T22:42:33","slug":"compostos-do-veneno-de-cascavel-tem-acao-contra-virus-da-hepatite-c","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/compostos-do-veneno-de-cascavel-tem-acao-contra-virus-da-hepatite-c\/130968","title":{"rendered":"Compostos do veneno de cascavel t\u00eam a\u00e7\u00e3o contra v\u00edrus da hepatite C"},"content":{"rendered":"<p> Peter Moon\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 No Brasil, a <strong><em>hepatite C<\/em><\/strong> \u00e9 a maior respons\u00e1vel por casos de cirrose hep\u00e1tica e, por consequ\u00eancia, pelos transplantes de f\u00edgado, de acordo com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Em S\u00e3o Paulo, segundo a Secretaria de Estado da Sa\u00fade, cerca de 50% dos transplantes de f\u00edgado ocorrem em pacientes portadores de v\u00edrus da hepatite B ou C, sendo que o segundo responde sozinho por 40% de todos os transplantes de f\u00edgado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as terapias dispon\u00edveis para o tratamento dos doentes com hepatite C s\u00e3o dispendiosas, apresentam efeitos colaterais e resist\u00eancia viral. Por todas essas quest\u00f5es, estudos para o desenvolvimento de terapias antivirais mais eficientes s\u00e3o necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>Compostos isolados do veneno de animais t\u00eam mostrado atividade contra alguns v\u00edrus, como da dengue, da febre amarela e do sarampo. Foi a partir dessa linha de investiga\u00e7\u00e3o que pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Universidade Federal de Uberl\u00e2ndia (UFU) e da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) acabam de publicar dois artigos nos quais apresentam resultados promissores de compostos capazes de combater o v\u00edrus da hepatite C.<\/p>\n<p>O primeiro experimento, cujos resultados sa\u00edram na\u00a0, visou testar propriedades contra o v\u00edrus da hepatite C de tr\u00eas compostos isolados do veneno de uma esp\u00e9cie de cascavel, a\u00a0Crotalus durissus terrificus, conhecida como cascavel-de-quatro-ventas, boi\u00e7ununga ou maracamboia.<\/p>\n<p>O trabalho foi realizado no Instituto de Bioci\u00eancias, Letras e Ci\u00eancias Exatas (Ibilce) da Unesp, em S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto, pelo grupo de Virologia do Laborat\u00f3rio de Estudos Gen\u00f4micos, coordenado pela professora\u00a0, e no Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas (ICBIM) da UFU, no Laborat\u00f3rio de Virologia, coordenado pela professora\u00a0. O trabalho contou com diversos apoios da FAPESP, al\u00e9m de CNPq, Fapemig e Royal Society (Newton Fund).<\/p>\n<p>Os compostos retirados do veneno de cascavel foram isolados no Laborat\u00f3rio de Toxinologia da Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas de Ribeir\u00e3o Preto, chefiado pela professora\u00a0.<\/p>\n<p>Trata-se de duas prote\u00ednas: a fosfolipase A2 (PLA2-CB) e a crotapotina (CP). No veneno da serpente, esses compostos se encontram associados como subunidades de um complexo proteico, a crotoxina (CX), tamb\u00e9m testada.<\/p>\n<p>Em uma s\u00e9rie de experimentos\u00a0in vitro\u00a0com culturas de c\u00e9lulas humanas, foi testada a a\u00e7\u00e3o antiviral dos dois compostos, tanto em separado como em conjunto no complexo proteico. Foram observados os efeitos dos compostos em c\u00e9lulas humanas (para ajudar a prevenir a infec\u00e7\u00e3o pelo v\u00edrus) e diretamente no v\u00edrus da hepatite C.<\/p>\n<p>O genoma do v\u00edrus da hepatite C \u00e9 constitu\u00eddo de uma \u00fanica fita de RNA, o \u00e1cido ribonucleico, que \u00e9 uma cadeia simples de nucleot\u00eddeos que codifica as prote\u00ednas do v\u00edrus.<\/p>\n<p>\u201cEsse v\u00edrus invade a c\u00e9lula humana hospedeira para se replicar, produzindo novas part\u00edculas virais. Dentro da c\u00e9lula hospedeira, o v\u00edrus produz uma fita complementar de RNA, a partir da qual ser\u00e3o produzidas mol\u00e9culas de genoma viral que constituir\u00e3o as novas part\u00edculas\u201d, disse Gomes Jardim.<\/p>\n<p>\u201cNosso trabalho demonstrou que a fosfolipase tem a capacidade de se intercalar com o RNA dupla fita, intermedi\u00e1rio de replica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, inibindo a produ\u00e7\u00e3o de novas part\u00edculas virais. A intercala\u00e7\u00e3o reduziu em 86% a produ\u00e7\u00e3o de novos genomas virais, quando comparada ao que ocorre na aus\u00eancia da fosfolipase\u201d, disse.<\/p>\n<p>Quando o mesmo experimento foi feito usando-se a crotoxina, a redu\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de part\u00edculas virais foi de 58%.<\/p>\n<p>A segunda etapa do trabalho consistiu em verificar se os compostos conseguiriam bloquear a entrada do v\u00edrus nas c\u00e9lulas humanas em cultura. Nesse caso, os resultados foram ainda mais satisfat\u00f3rios, pois a fosfolipase inibiu em 97% a entrada do v\u00edrus nas c\u00e9lulas. J\u00e1 o uso da crotoxina reduziu a infec\u00e7\u00e3o viral em 85%.<\/p>\n<p>Por fim, foi testado um segundo composto isolado do veneno de cascavel, a crotapotina. Muito embora n\u00e3o se tenha verificado efeitos para impedir a entrada do v\u00edrus nas c\u00e9lulas humanas nem a sua replica\u00e7\u00e3o, a crotapotina agiu em outro est\u00e1gio do ciclo viral, reduzindo em at\u00e9 78% a sa\u00edda das novas part\u00edculas virais das c\u00e9lulas. No caso da crotoxina, a sa\u00edda das part\u00edculas foi inibida em 50%.<\/p>\n<p>Segundo os pesquisadores, os resultados dos experimentos demonstram que a fosfolipase e a crotapotina agindo isoladamente tiveram melhor resultado do que em associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Flora brasileira<\/p>\n<p>O segundo artigo sobre a a\u00e7\u00e3o de compostos qu\u00edmicos contra o v\u00edrus da hepatite C n\u00e3o partiu do veneno de nenhum animal, mas de compostos naturais da flora brasileira. O estudo, tamb\u00e9m com apoio da FAPESP, CNPq, Fapemig e Royal Society (Newton Fund), teve resultados publicados na\u00a0.<\/p>\n<p>Os autores testaram o potencial antiviral dos flavonoides de uma planta conhecida como amendoim-bravo (Pterogyne nitens). Flavonoides s\u00e3o compostos encontrados em frutas, flores, vegetais em geral, mel e tamb\u00e9m no vinho.<\/p>\n<p>Foram isolados dois flavonoides presentes nas folhas do amendoim-bravo: a sorbifolina e a pedalitina. O trabalho foi conduzido pelo professor\u00a0\u00a0no Laborat\u00f3rio de Qu\u00edmica Verde e Medicinal na Unesp de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto.<\/p>\n<p>Os flavonoides foram investigados de forma id\u00eantica aos compostos do veneno de cascavel. Foi testada a a\u00e7\u00e3o antiviral dos dois compostos, em c\u00e9lulas humanas infectadas com o v\u00edrus da hepatite C e em c\u00e9lulas n\u00e3o infectadas.<\/p>\n<p>\u201cA sorbifolina bloqueou a entrada do v\u00edrus nas c\u00e9lulas humanas em 45% dos casos. J\u00e1 a pedalitina obteve um resultado mais promissor, bloqueando em 79%. O experimento foi feito com dois gen\u00f3tipos do v\u00edrus da hepatite C, o gen\u00f3tipo 2A, que \u00e9 o padr\u00e3o para todos os estudos, e o gen\u00f3tipo 3, que \u00e9 o segundo mais prevalente no Brasil. Nos dois casos, a a\u00e7\u00e3o antiviral dos flavonoides foi equivalente\u201d, disse Gomes Jardim.<\/p>\n<p>Na outra ponta do ciclo viral, os flavonoides n\u00e3o apresentaram nenhum tipo de a\u00e7\u00e3o antiviral no processo de replica\u00e7\u00e3o das part\u00edculas virais, nem os impediram de sair da c\u00e9lula infectada.<\/p>\n<p>\u201cOs flavonoides de amendoim-bravo est\u00e3o entre os cerca de 200 compostos testados, que foram isolados de plantas brasileiras ou sintetizados com base em estruturas naturais pelo professor Regasini\u201d, explicou Rahal.<\/p>\n<p>\u201cOs dois flavonoides foram testados contra o v\u00edrus da hepatite C porque j\u00e1 haviam demonstrado possuir efeitos antivirais em experimentos com o v\u00edrus da dengue\u201d, disse. Os v\u00edrus da dengue e da hepatite pertencem \u00e0 mesma fam\u00edlia de v\u00edrus, chamada Flaviviridae.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Multiple effects of toxins isolated from Crotalus durissus terrificus on the hepatitis C virus life cycle\u00a0(doi: https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pone.0187857), de Jacqueline Farinha Shimizu, Carina Machado Pereira, Cintia Bittar, Mariana Nogueira Batista, Guilherme Rodrigues Fernandes Campos, Suely da Silva, Ad\u00e9lia Cristina Oliveira Cintra, Carsten Zothner, Mark Harris, Suely Vilela Sampaio, Victor Hugo Aquino, Paula Rahal e Ana Carolina Gomes Jardim, pode ser lido em\u00a0.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Flavonoids from Pterogyne nitens Inhibit Hepatitis C Virus Entry\u00a0(doi:10.1038\/s41598-017-16336-y), de Jacqueline Farinha Shimizu, Caroline Sprengel Lima, Carina Machado Pereira, Cintia Bittar, Mariana Nogueira Batista, Ana Carolina Nazar\u00e9, Carlos Roberto Polaquini, Carsten Zothner, Mark Harris, Paula Rahal, Luis Oct\u00e1vio Regasini e Ana Carolina Gomes Jardim, pode ser lido em\u00a0.<\/p>\n<p>Os pesquisadores publicaram anteriormente em 2017 artigo no\u00a0\u00a0em que descreveram a a\u00e7\u00e3o de outro alcaloide, o Fac4 (sint\u00e9tico da dibenzoxazepina). O composto tamb\u00e9m apresentou potencial contra o v\u00edrus da hepatite C. Em testes\u00a0in vitro, o alcaloide inibiu em at\u00e9 92% a replica\u00e7\u00e3o do v\u00edrus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peter Moon\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 No Brasil, a hepatite C \u00e9 a maior respons\u00e1vel por casos de cirrose hep\u00e1tica e, por consequ\u00eancia, pelos transplantes de f\u00edgado, de acordo com o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. 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