{"id":132410,"date":"2018-01-24T00:07:07","date_gmt":"2018-01-24T02:07:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=132410"},"modified":"2018-01-23T18:53:52","modified_gmt":"2018-01-23T20:53:52","slug":"vacinas-para-virus-emergentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/vacinas-para-virus-emergentes\/132410","title":{"rendered":"Vacinas para v\u00edrus emergentes"},"content":{"rendered":"<p> Peter Moon\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Dengue, Zika e chikungunya s\u00e3o nomes que passaram a fazer parte do dia a dia dos brasileiros. A busca por vacinas, tratamentos e m\u00e9todos de preven\u00e7\u00e3o contra a infe\u00e7\u00e3o dos chamados <strong><em>v\u00edrus emergentes<\/em><\/strong> est\u00e1 entre os grandes desafios da epidemiologia mundial. E novos agentes patol\u00f3gicos continuam a surgir. \u00c9 o caso do arbov\u00edrus que causa a febre do Nilo Ocidental.<\/p>\n<p>A doen\u00e7a afeta milhares de pessoas todos os anos e \u00e9 assintom\u00e1tica em 80% dos casos. Cerca de um em cada cinco infectados desenvolve febre e outros sintomas. Em menos de 1% dos casos, especialmente entre idosos e crian\u00e7as, a doen\u00e7a provoca consequ\u00eancias neurol\u00f3gicas importantes, afetando o sistema nervoso central, causando meningite, encefalite e, em casos extremos, paralisia aguda, levando \u00e0 morte.<\/p>\n<p>O v\u00edrus do Nilo Ocidental foi identificado pela primeira vez em Uganda, em 1937, e em seguida, nos anos 1950, no Egito (da\u00ed seu nome). A doen\u00e7a n\u00e3o tinha grande import\u00e2ncia epidemiol\u00f3gica. Nos anos 1990, isso mudou. Levado por aves migrat\u00f3rias da \u00c1frica \u00e0 Europa, o v\u00edrus se espalhou da Fran\u00e7a \u00e0 R\u00fassia. Em 1999, chegou aos Estados Unidos. Diversos surtos ocorreram desde ent\u00e3o. A partir de 1999, foram contabilizados mais de 20 mil casos na Am\u00e9rica do Norte, com quase 1,8 mil \u00f3bitos. Ainda n\u00e3o existe vacina contra o v\u00edrus.<\/p>\n<p>\u201cO v\u00edrus do Nilo Ocidental ainda n\u00e3o chegou ao Brasil, mas \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de tempo at\u00e9 que isso venha a ocorrer\u201d, alerta o virologista\u00a0, chefe do Laborat\u00f3rio de Evolu\u00e7\u00e3o Molecular e Bioinform\u00e1tica do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da Universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Da\u00ed a import\u00e2ncia de uma nova pesquisa que tem Zanotto como um dos autores e cujos resultados acabam de ser publicados. O trabalho sinaliza o desenvolvimento de uma vacina nos pr\u00f3ximos anos. Isso se deve \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de que a linhagem 8 do v\u00edrus, descoberta em 1992, \u00e9 pouco virulenta e seus efeitos s\u00e3o especialmente brandos.<\/p>\n<p>O artigo foi publicado na revista\u00a0\u00a0e \u00e9 resultado de uma colabora\u00e7\u00e3o entre virologistas do Instituto Pasteur de Dakar, no Senegal, da Universidade de S\u00e3o Paulo e da Universidade Federal de S\u00e3o Carlos. Contou com\u00a0, do CNPq e de \u00f3rg\u00e3os de financiamento da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>S\u00e3o conhecidas nove linhagens do v\u00edrus do Nilo Ocidental. O desenvolvimento de uma vacina feita com os v\u00edrus brandos da linhagem 8 poderia, em tese, \u201censinar\u201d o sistema imunol\u00f3gico a se defender de todas as outras linhagens \u2013 em especial as linhagens 1 e 2, que s\u00e3o as mais disseminadas, e a de n\u00famero 7, a pior de todas.<\/p>\n<p>Trata-se de um estrat\u00e9gia de defesa imunol\u00f3gica semelhante \u00e0 empregada na vacina da gripe, que mistura as linhagens mais recentes do v\u00edrus influenza para combater a gripe do ano, sempre causada por uma cepa rec\u00e9m-evolu\u00edda e, portanto, nova, contra a qual n\u00e3o se tem imunidade.<\/p>\n<p>O v\u00edrus do Nilo Ocidental j\u00e1 provocou surtos no Canad\u00e1 (1999-2007), nos Estados Unidos (1999 a 2012) e no M\u00e9xico (2003). Ele \u00e9 transmitido por picadas de mosquitos, que infectam, al\u00e9m de humanos, as aves migrat\u00f3rias.<\/p>\n<p>\u201cQuanto tempo vai levar para que aves migrat\u00f3rias que passam o ver\u00e3o na Am\u00e9rica do Norte tragam o v\u00edrus para os seus ref\u00fagios de inverno na Am\u00e9rica Central? O v\u00edrus do Nilo Ocidental est\u00e1 chegando\u201d, disse Zanotto.<\/p>\n<p>O professor e seu aluno de doutoramento Nicholas Di Paola () est\u00e3o entre os autores do trabalho que faz um levantamento das caracter\u00edsticas biol\u00f3gicas e filogen\u00e9ticas das linhagens do v\u00edrus do Nilo Ocidental presentes no Oeste da \u00c1frica.<\/p>\n<p>Os investigadores principais s\u00e3o Di Paola e sua colega senegalesa Gamou Fall. Zanotto divide a responsabilidade cient\u00edfica pelo trabalho com o colega Amadou Alpha Sall, diretor do Instituto de Dakar.<\/p>\n<p>A pesquisa faz parte do trabalho de doutoramento de Di Paola, um nova-iorquino filho de brasileira e norte-americano que, nos \u00faltimos quatro anos, divide seu tempo entre S\u00e3o Paulo e o Senegal, onde coletou as amostras do v\u00edrus. \u201cLevei um ano e meio para aprender as t\u00e9cnicas necess\u00e1rias para a coleta e an\u00e1lise do material\u201d, disse Di Paola.<\/p>\n<p>O v\u00edrus do Nilo Ocidental pertence \u00e0 fam\u00edlia flaviv\u00edrus, a mesma dos v\u00edrus da hepatite e do Zika. O v\u00edrus do Nilo Ocidental infecta um grande espectro de animais. Ele j\u00e1 foi isolado em 65 esp\u00e9cies de mosquitos e carrapatos, assim como em 225 esp\u00e9cies de aves e outras 29 esp\u00e9cies de vertebrados, como cavalos e primatas, entre eles humanos.<\/p>\n<p>\u201cUma novidade do trabalho foi que pela primeira vez isolamos o v\u00edrus da linhagem 7 a partir de carrapatos\u201d, disse Di Paola.<\/p>\n<p>Imunidade contra linhagens perigosas<\/p>\n<p>O estudo consistiu no sequenciamento de tr\u00eas genes isolados em amostras do v\u00edrus coletadas na \u00c1frica Ocidental por Di Paola e Fall. Os genes sequenciados s\u00e3o representantes das linhagens mais disseminadas globalmente (linhagem 1), da mais virulenta (7) e da menos virulenta (8).<\/p>\n<p>Uma vez sequenciados, os genes foram comparados com as 862 sequ\u00eancias gen\u00e9ticas do v\u00edrus do Nilo Ocidental armazenadas no GenBank \u2013 sendo que 770 delas s\u00e3o provenientes da Am\u00e9rica do Norte, todas da linhagem 1A.<\/p>\n<p>Para reduzir o tempo de processamento computacional, optou-se por excluir as sequ\u00eancias da linhagem 1A, diminuindo o universo de an\u00e1lise a 95 sequ\u00eancias, a partir das quais foi poss\u00edvel estabelecer a an\u00e1lise filogen\u00e9tica do v\u00edrus. Entre os resultados descobriu-se duas caracter\u00edsticas importantes das linhagens 7 e 8.<\/p>\n<p>No caso da linhagem 8, a menos virulenta, detectou-se a substitui\u00e7\u00e3o do gene P122S, o que induz muta\u00e7\u00f5es que podem estar relacionadas \u00e0s baixas taxas de replica\u00e7\u00e3o desta linhagem, o que explicaria a sua baixa virul\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 por isso que a linhagem 8 \u00e9 ideal para a eventual produ\u00e7\u00e3o de uma vacina\u201d, disse Zanotto. Segundo o professor, o desenvolvimento de uma vacina a partir de um v\u00edrus com baix\u00edssima virul\u00eancia teria a capacidade de conferir imunidade contra as linhagens mais perigosas, 1, 2 e 7, sem o risco do desenvolvimento de sintomas da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>No caso da linhagem 7, os virologistas brasileiros e senegaleses foram capazes de identificar uma muta\u00e7\u00e3o (no gene S653F NS5) que est\u00e1 associada com a resist\u00eancia aumentada desta linhagem ao interferon, a prote\u00edna produzida pelas c\u00e9lulas brancas do sistema imune e que s\u00e3o respons\u00e1veis por interferir na replica\u00e7\u00e3o dos pat\u00f3genos invasores. Tal muta\u00e7\u00e3o pode ajudar a explicar a alta virul\u00eancia da linhagem 7.<\/p>\n<p>\u201cCom exce\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica poss\u00edvel infesta\u00e7\u00e3o acidental, que ocorreu no laborat\u00f3rio na \u00c1frica, a linhagem 7 nunca foi isolada em humanos. Mas nos testes\u00a0in vivo\u00a0no laborat\u00f3rio ela foi devastadora entre as cobaias\u201d, disse Zanotto.<\/p>\n<p>A baixa virul\u00eancia da linhagem 8 e a alta virul\u00eancia da linhagem 7 foram testadas, comprovadas e aferidas em experimentos tanto\u00a0in vitro\u00a0em c\u00e9lulas infectadas, quanto\u00a0in vivo, inoculando camundongos no laborat\u00f3rio de Dakar. No caso da linhagem 8, ela mostrou pouca capacidade de replica\u00e7\u00e3o\u00a0in vitro\u00a0e praticamente nenhuma virul\u00eancia entre as cobaias.<\/p>\n<p>As equipes de virologistas da USP e do Senegal t\u00eam uma hist\u00f3ria de mais de 20 anos de colabora\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, estabelecida a partir de estudos em conjunto sobre os v\u00edrus da dengue, do famigerado ebola e, mais recentemente, do v\u00edrus Zika.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de surtos desses v\u00edrus emergentes no Brasil e no Senegal possibilitou ao Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da USP e ao Instituto Pasteur de Dakar formarem quadros e aprenderem t\u00e9cnicas a ponto de se tornarem duas institui\u00e7\u00f5es de ponta no que concerne \u00e0s pesquisas com arbov\u00edrus, os v\u00edrus transmitidos por insetos.<\/p>\n<p>Prova disso foi a quantidade e a qualidade dos trabalhos desenvolvidos nos dois institutos durante o auge do surto de Zika em 2015. \u201cEm 2015, o Instituto Pasteur de Dakar e a equipe da USP publicaram uma quantidade de pesquisas relevantes superior \u00e0quela feita at\u00e9 mesmo pelos pesquisadores do Centro de Controle de Doen\u00e7as (CDC) dos Estados Unidos\u201d, disse Zanotto.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Biological and phylogenetic characteristics of West African lineages of West Nile v\u00edrus\u00a0(doi: https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pntd.0006078), de Gamou Fall, Nicholas Di Paola, Martin Faye, Moussa Dia, Caio C\u00e9sar de Melo Freire, Cheikh Loucoubar, Paolo Marinho de Andrade Zanotto, Ousmane Faye e Amadou Alpha Sall, pode ser lido em:\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peter Moon\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Dengue, Zika e chikungunya s\u00e3o nomes que passaram a fazer parte do dia a dia dos brasileiros. 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