{"id":134068,"date":"2018-02-09T00:37:47","date_gmt":"2018-02-09T02:37:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=134068"},"modified":"2018-02-08T19:24:59","modified_gmt":"2018-02-08T21:24:59","slug":"virus-da-febre-amarela-e-detectado-em-urina-e-semen-quase-um-mes-apos-a-infeccao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/virus-da-febre-amarela-e-detectado-em-urina-e-semen-quase-um-mes-apos-a-infeccao\/134068","title":{"rendered":"V\u00edrus da febre amarela \u00e9 detectado em urina e s\u00eamen quase um m\u00eas ap\u00f3s a infec\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p> Elton Alisson\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 A presen\u00e7a do <strong><em>v\u00edrus da febre amarela<\/em><\/strong> em amostras de urina e de s\u00eamen de um paciente que sobreviveu \u00e0 doen\u00e7a foi detectada quase um m\u00eas ap\u00f3s ele ter sido infectado. A descoberta foi feita por pesquisadores do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (ICB-USP), em colabora\u00e7\u00e3o com colegas dos institutos Butantan, de Infectologia Em\u00edlio Ribas e da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP).<\/p>\n<p>A constata\u00e7\u00e3o, feita no \u00e2mbito de projetos coordenados por Paolo Zanotto, professor do ICB-USP, com\u00a0, foi descrita em um artigo publicado na revista\u00a0, do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), ag\u00eancia de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade do governo dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>\u201cEssa detec\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante preocupante porque sugere, primeiramente, que o per\u00edodo de transmissibilidade [cont\u00e1gio] do v\u00edrus da febre amarela pode ser mais extenso do que o esperado em uma infec\u00e7\u00e3o aguda [com dura\u00e7\u00e3o de, no m\u00e1ximo, 10 dias]\u201d, disse Zanotto \u00e0\u00a0Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Segundo o conceito atual, o per\u00edodo de transmissibilidade da febre amarela inicia-se entre 24 e 48 horas antes do aparecimento dos primeiros sintomas e vai at\u00e9 tr\u00eas a sete dias ap\u00f3s o in\u00edcio da manifesta\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a. Na maioria dos casos, os sintomas desaparecem ap\u00f3s tr\u00eas ou quatro dias.<\/p>\n<p>Um baixo percentual de pessoas infectadas entra em uma segunda fase mais t\u00f3xica no espa\u00e7o de 24 horas ap\u00f3s a recupera\u00e7\u00e3o dos sintomas iniciais, e metade delas morre em um per\u00edodo de sete a 10 dias.<\/p>\n<p>Os pesquisadores acompanharam um paciente de 65 anos natural de S\u00e3o Paulo e que n\u00e3o entrou na fase t\u00f3xica da doen\u00e7a. Detectaram a presen\u00e7a de RNA (material gen\u00e9tico) do v\u00edrus em quantidade significativa em amostras de urina e do s\u00eamen 15 e 25 dias ap\u00f3s o surgimento dos sintomas iniciais de febre amarela.<\/p>\n<p>O genoma do v\u00edrus isolado da amostra de urina do paciente foi sequenciado. A an\u00e1lise do sequenciamento apontou que o v\u00edrus se agrupou a gen\u00f3tipos isolados na Am\u00e9rica do Sul, incluindo dois isolados em 2017 no Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>\u201cEm um trabalho feito em colabora\u00e7\u00e3o com o grupo do professor Edison Durigon [do ICB-USP], j\u00e1 t\u00ednhamos identificado a presen\u00e7a dos v\u00edrus da dengue e de Zika na urina de pacientes infectados e, no caso do Zika, tamb\u00e9m no s\u00eamen. Por isso, decidiu-se verificar se isso tamb\u00e9m ocorria com o v\u00edrus da febre amarela\u201d, disse Zanotto.<\/p>\n<p>\u201cEssa descoberta, agora, sugere que o v\u00edrus da febre amarela tamb\u00e9m \u00e9 um arbov\u00edrus [v\u00edrus transmitidos por vetores artr\u00f3podes hemat\u00f3fagos, que t\u00eam como hospedeiros animais vertebrados, como macacos e o homem] com capacidade de ser excretado pelo sistema urin\u00e1rio\u201d, disse.<\/p>\n<p>Os pesquisadores ainda n\u00e3o sabem quais podem ser as implica\u00e7\u00f5es da presen\u00e7a do v\u00edrus da febre amarela em amostras de urina e s\u00eamen, al\u00e9m de com que frequ\u00eancia e por quanto tempo ele persiste nesses materiais biol\u00f3gicos, uma vez que analisaram um \u00fanico paciente.<\/p>\n<p>No caso do Zika, estudos anteriores, conduzidos em colabora\u00e7\u00e3o pelos grupos de Durigon e de Zanotto, mostraram que o v\u00edrus permanece no s\u00eamen de pacientes durante meses e, depois, come\u00e7a a decair lentamente. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m se confirmou que o v\u00edrus pode ser transmitido sexualmente.<\/p>\n<p>\u201cAinda n\u00e3o temos uma boa amostragem para determinar por quanto tempo o v\u00edrus da febre amarela pode ser detectado na urina e no s\u00eamen. Mas nossa estimativa, feita com base no acompanhamento do paciente que avaliamos durante um per\u00edodo de 21 dias ap\u00f3s a observa\u00e7\u00e3o dos sintomas iniciais da doen\u00e7a, \u00e9 de que o v\u00edrus pode ser detectado nesses materiais biol\u00f3gicos pelo menos quase um m\u00eas ap\u00f3s a infec\u00e7\u00e3o\u201d, disse Zanotto.<\/p>\n<p>Melhoria do diagn\u00f3stico<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o dos pesquisadores, os testes da presen\u00e7a do v\u00edrus da febre amarela, principalmente em amostras de urina de pacientes com suspeita de terem sido infectados, podem facilitar e melhorar o diagn\u00f3stico da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Hoje, a confirma\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da infec\u00e7\u00e3o por febre amarela na fase precoce \u00e9 baseada na detec\u00e7\u00e3o de RNA do v\u00edrus no sangue por sorologia, pela t\u00e9cnica de PCR de transcri\u00e7\u00e3o reversa (RT-PCR) ou pelo ensaio de imunoabsor\u00e7\u00e3o enzim\u00e1tica (ELISA, na sigla em ingl\u00eas) \u2013 um teste que permite a detec\u00e7\u00e3o no plasma sangu\u00edneo de anticorpos espec\u00edficos, como a imunoglobulina M (IgM), que o organismo produz quando entra em contato com algum tipo de microrganismo invasor.<\/p>\n<p>Esses testes s\u00e3o realizados geralmente quando pacientes com suspeita de terem sido infectados chegam aos hospitais. Mais de 50% dos infectados pelo v\u00edrus da febre amarela, por\u00e9m, n\u00e3o apresentam sintomas da doen\u00e7a, como febre alta, calafrios, cansa\u00e7o, dor de cabe\u00e7a e muscular, al\u00e9m de n\u00e1useas e v\u00f4mitos.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas que t\u00eam sido hospitalizadas s\u00e3o as que apresentam os sintomas da doen\u00e7a. Esses casos graves representam apenas a ponta do iceberg do problema da infec\u00e7\u00e3o por febre amarela no pa\u00eds, uma vez que grande parte dos infectados \u00e9 assintom\u00e1tica\u201d, disse Zanotto.<\/p>\n<p>Eventualmente, a detec\u00e7\u00e3o do v\u00edrus por amostras de urina pode facilitar e agilizar o diagn\u00f3stico desses pacientes assintom\u00e1ticos, principalmente em locais onde foram registradas mortes por febre amarela, indicaram os pesquisadores.<\/p>\n<p>Os testes de diagn\u00f3stico de febre amarela em urina e s\u00eamen tamb\u00e9m podem contribuir para reduzir os resultados falso-negativos e fortalecer a confiabilidade dos dados epidemiol\u00f3gicos durante surtos da doen\u00e7a, como o que ocorre atualmente em S\u00e3o Paulo e Minas Gerais, apontaram os pesquisadores.<\/p>\n<p>\u201cA detec\u00e7\u00e3o de v\u00edrus em amostras de urina j\u00e1 tem sido utilizada para confirmar infec\u00e7\u00f5es por outros flaviv\u00edrus, como o v\u00edrus do Nilo Ocidental, o v\u00edrus Zika e o da dengue. No caso do v\u00edrus da dengue, esse m\u00e9todo ainda n\u00e3o deve se tornar padr\u00e3o, porque at\u00e9 agora n\u00e3o sabemos certamente quantas pessoas infectadas, de fato, apresentam o v\u00edrus na urina. Mas isso precisa ser estudado\u201d, apontou.<\/p>\n<p>Por n\u00e3o ser invasiva, como o diagn\u00f3stico sangu\u00edneo, a detec\u00e7\u00e3o do v\u00edrus da febre amarela na urina tem se mostrado \u00fatil e j\u00e1 est\u00e1 sendo integrada na rotina de v\u00e1rios grupos de pesquisadores envolvidos no estudo do surto atual da doen\u00e7a em S\u00e3o Paulo, segundo Zanotto.<\/p>\n<p>Transmiss\u00e3o urbana<\/p>\n<p>Os pesquisadores do ICB-USP, em colabora\u00e7\u00e3o com o professor Amaro Nunes Duarte Neto e v\u00e1rios outros pesquisadores do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP \u2013 liderados pelo professor Paulo Saldiva \u2013 est\u00e3o verificando a presen\u00e7a do v\u00edrus da febre amarela em material de necr\u00f3psias, como diversos tecidos celulares, de pacientes diagnosticados com febre amarela que entraram na fase t\u00f3xica da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>As an\u00e1lises preliminares desses materiais indicam a presen\u00e7a do v\u00edrus em quantidades significativas em diferentes \u00f3rg\u00e3os, inclusive no c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>\u201cEstamos encontrando o v\u00edrus praticamente em todas as amostras geradas pelo professor Duarte Neto de \u00f3rg\u00e3os desses pacientes infectados que n\u00e3o resistiram \u00e0 doen\u00e7a. V\u00e1rios testes de identifica\u00e7\u00e3o viral em \u00f3rg\u00e3os est\u00e3o sendo replicados no Instituto Adolfo Lutz, no Departamento de Gastroentrologia da Faculdade de Medicina da USP e no ICB para que se tenha maior confian\u00e7a nos resultados\u201d contou Zanotto.<\/p>\n<p>Com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq), os pesquisadores do ICB-USP est\u00e3o sequenciando e tentando isolar o v\u00edrus para estudar\u00a0in vitro\u00a0a variabilidade viral nos diferentes tecidos e analisar o que eventuais diferen\u00e7as possam significar em termos de comportamento e capacidade de infec\u00e7\u00e3o em c\u00e9lulas humanas e vetores.<\/p>\n<p>\u201cEm colabora\u00e7\u00e3o com o grupo do professor Jo\u00e3o Renato Rebello Pinho, do Departamento de Gastroenterologia da Faculdade de Medicina da USP, estamos comparando a diversidade viral entre pacientes que vieram a \u00f3bito e os que se recuperaram\u201d, disse Zanotto.<\/p>\n<p>\u201cDevido, inclusive, a observa\u00e7\u00f5es feitas pelos pesquisadores do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da USP, precisamos verificar se o v\u00edrus que circula em S\u00e3o Paulo \u00e9 o mesmo ou \u00e9 uma variante do que identificamos na urina e no s\u00eamen do paciente que estudamos e que sobreviveu \u00e0 doen\u00e7a, que \u00e9 um v\u00edrus que causou um surto em Minas Gerais, veio para S\u00e3o Paulo e que agora est\u00e1 em volta da cidade\u201d, disse Zanotto.<\/p>\n<p>Esta semana os pesquisadores tamb\u00e9m devem iniciar pesquisas de campo, junto com equipes de outras unidades da USP, os grupos do pesquisador Renato de Souza, da Unidade de Arbovirologia do Instituto Lutz, e da pesquisadora Margareth Capurro, do Departamento de Parasitologia do ICB-USP, com o objetivo de verificar se tem ocorrido a transmiss\u00e3o urbana do v\u00edrus da febre amarela \u2013 por meio do mosquito\u00a0Aedes aegypti\u00a0\u2013 em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>\u201cApesar da situa\u00e7\u00e3o que temos vivido, com um grande n\u00famero de casos de infec\u00e7\u00e3o na capital, ainda n\u00e3o temos evid\u00eancia concreta e inequ\u00edvoca de que tem ocorrido transmiss\u00e3o urbana da doen\u00e7a\u201d, disse Zanotto. \u201cEssa \u00e9 uma informa\u00e7\u00e3o crucial para poder avaliar poss\u00edveis estrat\u00e9gias de resposta ao v\u00edrus, inclusive estrat\u00e9gias de vacina\u00e7\u00e3o. Tentaremos obter essas respostas nas pr\u00f3ximas semanas.\u201d<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Yellow fever v\u00edrus DNA in urine and semen of convalescent patient, Brazil\u00a0(doi: 10.3201\/eid2401.171310), de Carla M. Barbosa, Nicholas Di Paola, Marielton P. Cunha, M\u00f4nica J. Rodrigues-Jesus, Danielle B. Araujo, Vanessa B. Silveira, Fabyano B. Leal, Fl\u00e1vio S. Mesquita, Viviane F. Botosso, Paolo M.A. Zanotto, Edison L. Durigon, Marcos V. Silva e Danielle B.L. Oliveira, pode ser lido em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Elton Alisson\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 A presen\u00e7a do v\u00edrus da febre amarela em amostras de urina e de s\u00eamen de um paciente que sobreviveu \u00e0 doen\u00e7a foi detectada quase um m\u00eas ap\u00f3s ele ter sido infectado. 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