{"id":135872,"date":"2018-02-26T00:37:20","date_gmt":"2018-02-26T03:37:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=135872"},"modified":"2018-02-25T20:28:28","modified_gmt":"2018-02-25T23:28:28","slug":"mudancas-climaticas-aumentam-o-risco-de-surtos-de-doencas-transmitidas-por-mosquitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/mudancas-climaticas-aumentam-o-risco-de-surtos-de-doencas-transmitidas-por-mosquitos\/135872","title":{"rendered":"Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas aumentam o risco de surtos de doen\u00e7as transmitidas por mosquitos"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 O aumento da temperatura m\u00e9dia do planeta, induzido principalmente pela emiss\u00e3o de gases de efeito estufa, deve contribuir para ampliar, no Brasil, a \u00e1rea de distribui\u00e7\u00e3o de quatro <strong><em>v\u00edrus transmitidos por mosquitos<\/em><\/strong>: o Oropouche (OROV), o Mayaro (MAYV), o Rocio (ROCV) e o v\u00edrus da encefalite de Saint Louis (SLEV).<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 de um estudo publicado na revista\u00a0. O trabalho foi realizado no Instituto Butantan durante o doutorado de Camila Lorenz, com\u00a0\u00a0e orienta\u00e7\u00e3o de\u00a0, do Departamento de Parasitologia. Tamb\u00e9m participaram os pesquisadores Fl\u00e1via Virginio, Thiago Salom\u00e3o, Breno Aguiar e Francisco Chiaravalloti-Neto, da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de S\u00e3o Paulo (FSP-USP).<\/p>\n<p>\u201cLevantamos todos os surtos dessas arboviroses ocorridos no pa\u00eds desde a d\u00e9cada de 1960 e avaliamos como eles se relacionavam com diferentes fatores ambientais. Com base nos resultados, modelamos a distribui\u00e7\u00e3o das doen\u00e7as at\u00e9 2100. Os dados mostram que a \u00e1rea de distribui\u00e7\u00e3o dos quatro arbov\u00edrus deve aumentar nos pr\u00f3ximos anos em fun\u00e7\u00e3o, principalmente, da temperatura\u201d, disse Lorenz \u00e0\u00a0Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Ao todo, sete fatores ambientais foram considerados na an\u00e1lise multivariada: precipita\u00e7\u00e3o anual (o quanto chove ao longo do ano na regi\u00e3o em que ocorreu o surto), m\u00e9dia de temperatura anual, eleva\u00e7\u00e3o (altitude), sazonalidade da temperatura (varia\u00e7\u00e3o entre os meses mais quentes e mais frios do ano), sazonalidade da precipita\u00e7\u00e3o (varia\u00e7\u00e3o entre os meses mais chuvosos e os mais secos), amplitude t\u00e9rmica (varia\u00e7\u00e3o da temperatura ao longo do m\u00eas) e varia\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da temperatura.<\/p>\n<p>De acordo com Lorenz, os resultados sugerem que cada v\u00edrus \u00e9 afetado de forma diferente pelas vari\u00e1veis ambientais. No caso do Oropouche e do Mayaro, por exemplo, os fatores que se mostraram mais associados \u00e0 ocorr\u00eancia de surtos foram a m\u00e9dia anual da temperatura e a amplitude t\u00e9rmica. Ambos os v\u00edrus mostraram caracter\u00edsticas semelhantes e se distribuem principalmente na regi\u00e3o Norte do pa\u00eds. J\u00e1 para Saint Louis e Rocio a precipita\u00e7\u00e3o anual teve mais peso \u2013 quanto mais alta a m\u00e9dia anual de chuva, maior o n\u00famero de surtos.<\/p>\n<p>\u201cEmbora fracionada em diferentes vari\u00e1veis, a temperatura esteve de algum modo presente em todos os casos. A precipita\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m apresentou alguma contribui\u00e7\u00e3o para a ocorr\u00eancia dos surtos, j\u00e1 que a presen\u00e7a de \u00e1gua \u00e9 necess\u00e1ria para a reprodu\u00e7\u00e3o dos mosquitos\u201d, disse a pesquisadora.<\/p>\n<p>A vari\u00e1vel altitude, segundo Lorenz, teve mais influ\u00eancia apenas sobre a distribui\u00e7\u00e3o do v\u00edrus Rocio. Um grande surto causado pelo pat\u00f3geno foi registrado no Vale do Ribeira, regi\u00e3o de baixa altitude no sul do Estado de S\u00e3o Paulo, por volta de 1975.<\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 existe a no\u00e7\u00e3o de que a temperatura \u00e9 um fator importante para as doen\u00e7as tropicais, mas, por mais que o senso comum aponte para uma dire\u00e7\u00e3o, s\u00f3 temos seguran\u00e7a cient\u00edfica por meio de experimentos ou valida\u00e7\u00e3o estat\u00edstica. E observamos que, como os v\u00edrus t\u00eam caracter\u00edsticas diferentes, ciclos de vida diferentes dentro e fora do hospedeiro, n\u00e3o s\u00e3o influenciados da mesma maneira pelos fatores ambientais. Este estudo d\u00e1 diretrizes para o refinamento das estrat\u00e9gias de detec\u00e7\u00e3o e de controle dessas doen\u00e7as\u201d, disse Suesdek.<\/p>\n<p>Clima futuro<\/p>\n<p>Al\u00e9m de mapear as caracter\u00edsticas f\u00edsicas de todos os locais em que ocorreram surtos dessas quatro arboviroses nos \u00faltimos 55 anos, os pesquisadores tamb\u00e9m analisaram os registros clim\u00e1ticos existentes desde a d\u00e9cada de 1960 e observaram que a temperatura m\u00e9dia no pa\u00eds vem aumentando nos \u00faltimos anos, principalmente na regi\u00e3o Norte.<\/p>\n<p>Em seguida, por meio de modelos matem\u00e1ticos, o grupo estimou como seria a distribui\u00e7\u00e3o dos quatro v\u00edrus at\u00e9 o fim deste s\u00e9culo. Foram considerados dois cen\u00e1rios clim\u00e1ticos projetados por especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (IPCC).<\/p>\n<p>No primeiro, de baixa emiss\u00e3o de gases-estufa, ocorreria um aumento m\u00e9dio de 1\u00ba C na temperatura do planeta at\u00e9 2100. J\u00e1 no cen\u00e1rio de alta emiss\u00e3o, o aumento ultrapassaria os 2\u00ba C considerados seguros pelos especialistas em clima.<\/p>\n<p>O trabalho de modelagem foi realizado por\u00a0, do Departamento de Geografia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro. Considerando os diferentes cen\u00e1rios, ele calculou a amplia\u00e7\u00e3o da \u00e1rea de risco para cada capital brasileira.<\/p>\n<p>No caso da cidade de S\u00e3o Paulo, por exemplo, a regi\u00e3o suscet\u00edvel ao v\u00edrus Mayaro saltaria dos 4% atuais para 12% em 2050 e quase 20% em 2100 em um cen\u00e1rio de alta emiss\u00e3o. Em rela\u00e7\u00e3o ao Rocio, o n\u00famero passaria de aproximadamente 1% da \u00e1rea do munic\u00edpio para 2,5% em 2050 e quase 4% em 2100, tamb\u00e9m no pior cen\u00e1rio clim\u00e1tico.<\/p>\n<p>Em Campo Grande (MS), a \u00e1rea de risco para Mayaro passaria de 23,8% para 83,6% no pior cen\u00e1rio. Em Bras\u00edlia (DF), o n\u00famero passaria de 10% para mais de 57%. Em Belo Horizonte (MG), saltaria de 14,8% para 65% e, no Rio de Janeiro (RJ), de 21,4% para quase 55%.<\/p>\n<p>O maior aumento na \u00e1rea de distribui\u00e7\u00e3o do Rocio foi previsto para Porto Alegre (RS). Atualmente, menos de 9% do munic\u00edpio \u00e9 considerado \u00e1rea de risco. Em 2100, no cen\u00e1rio de alta emiss\u00e3o, o \u00edndice chegaria a 57,3%.<\/p>\n<p>\u201cNo caso do Mayaro e do Oropouche, vemos dois cen\u00e1rios futuros bem diferentes do atual \u2013 seja com baixa ou com alta emiss\u00e3o de gases. J\u00e1 para Saint Louis e Rocio a diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o gritante. Mas mesmo um aumento pequeno \u00e9 importante, pois s\u00e3o doen\u00e7as pouco conhecidas e contra as quais n\u00e3o temos vacinas\u201d, avaliou Suesdek.<\/p>\n<p>Para o pesquisador, as quatro doen\u00e7as estudadas apresentam significativo potencial de causar danos \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica e podem ser consideradas negligenciadas. Todas t\u00eam como principal sintoma febre aguda e intensa. Por serem facilmente confundidas com dengue ou mal\u00e1ria, especialistas acreditam que a subnotifica\u00e7\u00e3o seja grande. N\u00e3o existem testes sorol\u00f3gicos para diagn\u00f3stico (aqueles que detectam os anticorpos contra o v\u00edrus no sangue de pacientes) e os exames moleculares s\u00e3o caros e pouco acess\u00edveis.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Impact of environmental factors on neglected emerging arboviral diseases\u00a0(doi: https:\/\/doi.org\/10.1371\/journal.pntd.0005959), de Camila Lorenz , Thiago S. Azevedo, Fl\u00e1via Virginio, Breno S. Aguiar, Francisco Chiaravalloti-Neto e Lincoln Suesdek, est\u00e1 publicado em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 O aumento da temperatura m\u00e9dia do planeta, induzido principalmente pela emiss\u00e3o de gases de efeito estufa, deve contribuir para ampliar, no Brasil, a \u00e1rea de distribui\u00e7\u00e3o de quatro v\u00edrus transmitidos por mosquitos: o Oropouche (OROV), o Mayaro (MAYV), o Rocio (ROCV) e o v\u00edrus da encefalite de Saint Louis (SLEV). 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