{"id":136517,"date":"2018-03-06T00:08:42","date_gmt":"2018-03-06T03:08:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=136517"},"modified":"2018-03-05T21:43:21","modified_gmt":"2018-03-06T00:43:21","slug":"tecnica-de-neuroimagem-ajuda-a-entender-efeitos-da-epilepsia-no-cerebro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/tecnica-de-neuroimagem-ajuda-a-entender-efeitos-da-epilepsia-no-cerebro\/136517","title":{"rendered":"T\u00e9cnica de neuroimagem ajuda a entender efeitos da epilepsia no c\u00e9rebro"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Um cons\u00f3rcio internacional de pesquisa analisou, com t\u00e9cnicas de neuroimagem, o c\u00e9rebro de mais de 3,8 mil volunt\u00e1rios de diferentes pa\u00edses. \u00c9 o maior estudo do tipo j\u00e1 feito. O objetivo foi investigar semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as anat\u00f4micas presentes no c\u00e9rebro de indiv\u00edduos com diferentes tipos de <strong><em>epilepsia<\/em><\/strong> e, assim, buscar marcadores que auxiliem no progn\u00f3stico e no tratamento.<\/p>\n<p>A pesquisa multic\u00eantrica contou com a participa\u00e7\u00e3o do Instituto de Pesquisa sobre Neuroci\u00eancias e Neurotecnologia (), um Centro de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o (CEPID) da FAPESP sediado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os resultados foram\u00a0\u00a0no peri\u00f3dico internacional\u00a0Brain.<\/p>\n<p>\u201cO avan\u00e7o nas t\u00e9cnicas de neuroimagem tem permitido detectar altera\u00e7\u00f5es estruturais no c\u00e9rebro de pessoas com epilepsia que antes passavam despercebidas\u201d, contou Fernando Cendes, professor da Unicamp e coordenador do BRAINN.<\/p>\n<p>\u201cPor\u00e9m, existiam muitas discrep\u00e2ncias nos estudos anteriores, que inclu\u00edram algumas dezenas ou centenas de volunt\u00e1rios. Nosso objetivo era fazer esse tipo de an\u00e1lise em uma s\u00e9rie realmente grande de pacientes para obter dados mais robustos\u201d, disse.<\/p>\n<p>O termo epilepsia abrange um conjunto de desordens neurol\u00f3gicas cujo tra\u00e7o comum \u00e9 a altera\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria do funcionamento cerebral sem uma causa aparente, como febre alta ou uso de psicoativos.<\/p>\n<p>Por alguns momentos, parte do c\u00e9rebro passa a emitir sinais incorretos, que podem ficar restritos a um local ou espalhar-se por todo o \u00f3rg\u00e3o. Essas falhas no processamento causam as crises epil\u00e9pticas, que podem ir de distor\u00e7\u00f5es na percep\u00e7\u00e3o e movimentos descontrolados at\u00e9 mesmo a convuls\u00f5es e perda de consci\u00eancia.<\/p>\n<p>A frequ\u00eancia e a gravidade das crises \u2013 bem como a resposta \u00e0 terapia medicamentosa \u2013 variam de acordo com a parte do c\u00e9rebro afetada e outros fatores ainda n\u00e3o completamente conhecidos. Dados da literatura cient\u00edfica indicam que aproximadamente um ter\u00e7o dos pacientes n\u00e3o responde bem \u00e0s drogas antiepil\u00e9pticas. Estudos mostram que esses indiv\u00edduos s\u00e3o mais propensos a desenvolver altera\u00e7\u00f5es cognitivas e comportamentais com o passar dos anos.<\/p>\n<p>A nova pesquisa foi conduzida no \u00e2mbito de um cons\u00f3rcio internacional chamado ENIGMA (acr\u00f4nimo em ingl\u00eas para Melhorando a Neuroimagem Gen\u00e9tica por Metan\u00e1lise), dedicado a estudar diversas doen\u00e7as neurol\u00f3gicas e psiqui\u00e1tricas. Participaram deste estudo 24 centros, de diversos pa\u00edses, ligados ao subgrupo do cons\u00f3rcio que trata de epilepsia.<\/p>\n<p>\u201cCada centro ficou respons\u00e1vel por coletar e analisar os dados de seus pacientes. Em seguida, todo o material foi enviado para o Imaging Genetics Center, da University of Southern California, nos Estados Unidos, centro respons\u00e1vel por consolidar os resultados em uma metan\u00e1lise\u201d, contou Cendes.<\/p>\n<p>Ao todo, foram inclu\u00eddos dados de 2.149 pessoas com epilepsia e 1.727 indiv\u00edduos controle (sem doen\u00e7a neurol\u00f3gica ou psiqui\u00e1trica). A Unicamp foi o centro com a maior amostragem: 291 pacientes e 398 controles.<\/p>\n<p>Todos os participantes foram submetidos a exames de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica. Como explicou Cendes, foi usado um protocolo espec\u00edfico para aquisi\u00e7\u00e3o da imagem em tr\u00eas dimens\u00f5es. \u201cIsso permite que, com o aux\u00edlio de programas de computador, seja feito um p\u00f3s-processamento das imagens. Elas s\u00e3o segmentadas em milhares de pontos anat\u00f4micos, que s\u00e3o avaliados e comparados um a um\u201d, explicou.<\/p>\n<p>O objetivo da an\u00e1lise quantitativa, segundo o pesquisador, foi identificar regi\u00f5es do c\u00e9rebro que est\u00e3o atrofiadas, ou seja, \u00e1reas em que a espessura cortical est\u00e1 reduzida em rela\u00e7\u00e3o ao grupo controle.<\/p>\n<p>Os pacientes inclu\u00eddos no estudo foram divididos em quatro subgrupos: epilepsia do lobo temporal mesial com esclerose hipocampal \u00e0 esquerda; epilepsia do lobo temporal mesial com esclerose hipocampal \u00e0 direita; epilepsia generalizada gen\u00e9tica; e um quarto grupo que abrangeu v\u00e1rios subtipos menos comuns da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cA epilepsia de lobo temporal \u00e9 uma forma focal da doen\u00e7a, ou seja, atinge uma regi\u00e3o espec\u00edfica do c\u00e9rebro. \u00c9 tamb\u00e9m o subtipo de epilepsia refrat\u00e1ria ao tratamento mais comum no adulto. Sabemos que quando acomete o hemisf\u00e9rio esquerdo produz um quadro diferente e mais grave do que quando atinge o hemisf\u00e9rio direito. S\u00e3o doen\u00e7as distintas\u201d, explicou Cendes.<\/p>\n<p>J\u00e1 a forma generalizada gen\u00e9tica, embora atinja o \u00f3rg\u00e3o de maneira difusa, costuma ser mais facilmente control\u00e1vel por meio de f\u00e1rmacos e ter uma evolu\u00e7\u00e3o menos delet\u00e9ria para o paciente, disse Cendes.<\/p>\n<p>\u201cOs exames de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica comuns n\u00e3o revelam altera\u00e7\u00f5es anat\u00f4micas nos casos de epilepsia generalizada gen\u00e9tica. Um dos objetivos deste estudo era confirmar se tamb\u00e9m nestes pacientes existiam \u00e1reas de atrofia e vimos que sim\u201d, contou.<\/p>\n<p>Primeira an\u00e1lise<\/p>\n<p>Inicialmente, os pesquisadores avaliaram dados dos quatro subgrupos de pacientes em conjunto e compararam com o controle. O objetivo era investigar se existiam altera\u00e7\u00f5es anat\u00f4micas comuns a todas as formas de epilepsia. A an\u00e1lise incluiu tanto pacientes que j\u00e1 convivem com a doen\u00e7a h\u00e1 muitos anos como tamb\u00e9m aqueles recentemente diagnosticados.<\/p>\n<p>\u201cFoi poss\u00edvel notar que os quatro subgrupos apresentam atrofias em regi\u00f5es do c\u00f3rtex sensitivo motor e tamb\u00e9m em algumas \u00e1reas do lobo frontal\u201d, disse Cendes.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, esse dado mostra que, no caso da epilepsia de lobo temporal mesial, existem altera\u00e7\u00f5es que v\u00e3o al\u00e9m da \u00e1rea onde as crises epil\u00e9pticas s\u00e3o geradas (hipocampo, para-hipocampo e am\u00edgdala). O acometimento do c\u00e9rebro, portanto, \u00e9 ainda maior do que se imaginava.<\/p>\n<p>\u201cPacientes com mais tempo de doen\u00e7a apresentaram maior \u00e1rea do c\u00e9rebro comprometida. Isso refor\u00e7a a hip\u00f3tese de que, \u00e0 medida que a doen\u00e7a progride, mais regi\u00f5es cerebrais v\u00e3o ficando atrofiadas e mais preju\u00edzos cognitivos aparecem\u201d, comentou Cendes.<\/p>\n<p>O passo seguinte foi analisar os subgrupos de pacientes separadamente, em busca de altera\u00e7\u00f5es caracter\u00edsticas de cada forma da doen\u00e7a. Os resultados confirmaram, por exemplo, que a epilepsia do lobo temporal mesial com esclerose hipocampal \u00e0 esquerda apresenta altera\u00e7\u00f5es em circuitos neuronais distintos dos afetados pela epilepsia do lobo temporal mesial com esclerose hipocampal \u00e0 direita.<\/p>\n<p>\u201cUma doen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 simplesmente o espelho da outra. Quando o hemisf\u00e9rio esquerdo \u00e9 atingido o acometimento \u00e9 mais intenso e mais difuso. Antigamente se acreditava que isso acontecia porque o hemisf\u00e9rio esquerdo \u00e9 dominante para a linguagem, mas parece ser algo al\u00e9m disso. Ele \u00e9 de alguma forma mais vulner\u00e1vel que o direito\u201d, disse Cendes.<\/p>\n<p>No subgrupo de epilepsia generalizada gen\u00e9tica foi poss\u00edvel notar atrofias em regi\u00f5es do t\u00e1lamo, localizado na regi\u00e3o central profunda do c\u00e9rebro humano, acima do hipot\u00e1lamo, bem como do c\u00f3rtex motor. \u201c\u00c9 uma altera\u00e7\u00e3o sutil, mas presente em compara\u00e7\u00e3o aos indiv\u00edduos controle\u201d, afirmou Cendes.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do coordenador do BRAINN, os achados publicados no artigo dever\u00e3o beneficiar as pesquisas na \u00e1rea e, no futuro, ter\u00e3o implica\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m no diagn\u00f3stico da doen\u00e7a. Em paralelo \u00e0 an\u00e1lise de altera\u00e7\u00f5es anat\u00f4micas, o grupo est\u00e1 avaliando altera\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que possivelmente poder\u00e3o explicar determinados padr\u00f5es heredit\u00e1rios no contexto das atrofias cerebrais. Os resultados das an\u00e1lises gen\u00e9ticas dever\u00e3o ser publicados em breve.<\/p>\n<p>\u201cSabendo que existe uma assinatura mais ou menos espec\u00edfica de cada subtipo da doen\u00e7a, em vez de procurar altera\u00e7\u00f5es em todo o c\u00e9rebro podemos nos concentrar nas \u00e1reas suspeitas, reduzindo o custo, o tempo e ampliando o poder estat\u00edstico das an\u00e1lises. Em seguida, ser\u00e1 poss\u00edvel correlacionar essas altera\u00e7\u00f5es com disfun\u00e7\u00f5es cognitivas ou altera\u00e7\u00f5es comportamentais\u201d, disse Cendes.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Structural brain abnormalities in the common epilepsies assessed in a worldwide ENIGMA study\u00a0(https:\/\/doi.org\/10.1093\/brain\/awx341), de Christopher D Whelan e colaboradores, pode ser lido em:.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Um cons\u00f3rcio internacional de pesquisa analisou, com t\u00e9cnicas de neuroimagem, o c\u00e9rebro de mais de 3,8 mil volunt\u00e1rios de diferentes pa\u00edses. \u00c9 o maior estudo do tipo j\u00e1 feito. 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