{"id":142360,"date":"2018-05-24T06:50:46","date_gmt":"2018-05-24T09:50:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=142360"},"modified":"2018-05-24T06:50:46","modified_gmt":"2018-05-24T09:50:46","slug":"estudo-da-usp-mostra-como-o-alcool-em-dose-moderada-protege-o-coracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/estudo-da-usp-mostra-como-o-alcool-em-dose-moderada-protege-o-coracao\/142360","title":{"rendered":"Estudo da USP mostra como o \u00e1lcool em dose moderada protege o cora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 H\u00e1 pelo menos 20 anos estudos t\u00eam mostrado que o <strong><em>consumo moderado de \u00e1lcool pode ter efeito cardioprotetor<\/em><\/strong> em grande parte das pessoas, mas ainda n\u00e3o se sabia ao certo por qu\u00ea. Dados de uma pesquisa conduzida no Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas da Universidade de S\u00e3o Paulo (ICB-USP) indicam que essa prote\u00e7\u00e3o pode estar relacionada com a ativa\u00e7\u00e3o de uma enzima mitocondrial chamada ALDH2 (alde\u00eddo desidrogenase-2), que ajuda a eliminar do organismo tanto os subprodutos t\u00f3xicos gerados pelo metabolismo do \u00e1lcool como tamb\u00e9m um tipo de mol\u00e9cula reativa produzido nas c\u00e9lulas card\u00edacas quando estas sofrem um dano importante \u2013 como o causado pelo infarto, por exemplo.<\/p>\n<p>\u201cNossos dados sugerem que a exposi\u00e7\u00e3o moderada ao etanol causa um pequeno estresse nas c\u00e9lulas do cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o suficiente para mat\u00e1-las. Como consequ\u00eancia, ocorre uma reorganiza\u00e7\u00e3o no sinal intracelular e a c\u00e9lula card\u00edaca acaba criando uma mem\u00f3ria bioqu\u00edmica contra estresse, tamb\u00e9m chamada de precondicionamento. Quando a c\u00e9lula \u00e9 submetida a um estresse maior, j\u00e1 sabe como lidar\u201d, disse Julio Cesar Batista Ferreira, professor do Departamento de Anatomia do ICB-USP e coordenador da pesquisa\u00a0.<\/p>\n<p>O trabalho vem sendo feito em parceria com cientistas da Stanford University, nos Estados Unidos. Resultados recentes, obtidos durante o p\u00f3s-doutorado de Cintia Bagne Ueta, foram publicados na revista\u00a0.<\/p>\n<p>Para estudar os efeitos cardioprotetores do \u00e1lcool em n\u00edvel celular, os pesquisadores simularam uma condi\u00e7\u00e3o semelhante ao infarto em cora\u00e7\u00f5es de camundongo mantidos vivos em um sistema artificial. Nesse modelo, chamado\u00a0ex vivo, o \u00f3rg\u00e3o permanece batendo fora do corpo durante v\u00e1rias horas, sendo alimentado por uma solu\u00e7\u00e3o rica em nutrientes e oxig\u00eanio.<\/p>\n<p>Os cientistas ent\u00e3o simulam uma condi\u00e7\u00e3o cl\u00ednica conhecida como isquemia e reperfus\u00e3o interrompendo o fluxo nutritivo para o cora\u00e7\u00e3o durante 30 minutos. Quando a solu\u00e7\u00e3o nutritiva volta a correr, o \u00f3rg\u00e3o recome\u00e7a a bater lentamente e, ap\u00f3s uma hora, os pesquisadores conseguem avaliar o tamanho do dano. Em m\u00e9dia, nesse modelo, cerca de 50% das c\u00e9lulas card\u00edacas morrem caso n\u00e3o seja feito nenhum tipo de interven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAcreditava-se, antigamente, que o dano principal era consequ\u00eancia do per\u00edodo sem oxig\u00eanio. Mas estudos mostraram que, durante a isquemia, as c\u00e9lulas mudam seu metabolismo e entram em uma esp\u00e9cie de estado dormente. Quando a art\u00e9ria \u00e9 desobstru\u00edda [reperfus\u00e3o], o tecido recebe uma enxurrada de sangue com nutrientes e oxig\u00eanio e acaba ocorrendo um colapso metab\u00f3lico nas c\u00e9lulas\u201d, explicou Ferreira.<\/p>\n<p>Em resposta ao estresse, as c\u00e9lulas card\u00edacas come\u00e7am a produzir grandes quantidades de uma mol\u00e9cula reativa conhecida como 4-HNE (4-hydroxy-2-nonenal), pertencente \u00e0 classe qu\u00edmica dos alde\u00eddos. Em excesso, essa subst\u00e2ncia t\u00f3xica come\u00e7a a destruir estruturas celulares essenciais.<\/p>\n<p>A enzima mitocondrial ALDH2 \u00e9 a principal respons\u00e1vel por livrar o organismo dos alde\u00eddos acumulados \u2013 tanto o 4-HNE das c\u00e9lulas card\u00edacas em estresse quanto o acetalde\u00eddo resultante da quebra da mol\u00e9cula de etanol no f\u00edgado ap\u00f3s uma noite de bebedeira.<\/p>\n<p>No entanto, em trabalhos anteriores, o grupo de Ferreira em parceria com pesquisadores de Stanford coordenados por Daria Mochly-Rosen mostraram que, durante o processo de isquemia e reperfus\u00e3o, a atividade da enzima ALDH2 era significativamente reduzida. Esses achados foram divulgados na revista\u00a0\u00a0e no\u00a0.<\/p>\n<p>\u201cA quantidade de 4-HNE se torna t\u00e3o grande dentro da c\u00e9lula card\u00edaca que a mol\u00e9cula acaba atacando a pr\u00f3pria enzima respons\u00e1vel pelo seu metabolismo\u201d, contou Ferreira.<\/p>\n<p>\u201cEm nosso novo estudo, observamos que no cora\u00e7\u00e3o exposto ao etanol antes do processo de isquemia e reperfus\u00e3o a atividade da ALDH2 se manteve igual \u00e0 de um \u00f3rg\u00e3o que n\u00e3o sofreu inj\u00faria. Acreditamos que o estresse causado pelo etanol em dose moderada deixa uma mem\u00f3ria e, assim, a c\u00e9lula aprende a manter a enzima ALDH2 mais ativa\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Grupos de estudo<\/p>\n<p>Cinco grupos de estudos foram montados com o objetivo de esmiu\u00e7ar os mecanismos por tr\u00e1s do efeito protetor observado. No primeiro, considerado como grupo-controle, os cora\u00e7\u00f5es n\u00e3o sofreram nenhum tipo de dano e n\u00e3o receberam nenhum tratamento ou interven\u00e7\u00e3o. No segundo grupo, os cora\u00e7\u00f5es foram apenas submetidos \u00e0 isquemia e reperfus\u00e3o e, como consequ\u00eancia, perderam em torno de 50% das c\u00e9lulas.<\/p>\n<p>No terceiro grupo, antes de induzir o dano, os pesquisadores expuseram durante 10 minutos os \u00f3rg\u00e3os extra\u00eddos de camundongos machos a uma dose de etanol equivalente a duas latas de cerveja ou duas ta\u00e7as de vinho para um humano m\u00e9dio do sexo masculino. A dose foi ajustada de acordo com a massa dos animais.<\/p>\n<p>\u201cProcuramos seguir a recomenda\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), que \u00e9 de at\u00e9 uma dose por dia para mulheres [18 gramas de \u00e1lcool] e at\u00e9 duas doses para homens. No caso de camundongos, foi algo em torno de 50 milimolar\u201d, explicou Ferreira.<\/p>\n<p>Os \u00f3rg\u00e3os foram depois lavados por outros 10 minutos para retirar o excesso de \u00e1lcool e, em seguida, tiveram o fluxo nutritivo interrompido, como ocorreu com o grupo dois. Na an\u00e1lise feita cerca de uma hora ap\u00f3s a reperfus\u00e3o, apenas 30% das c\u00e9lulas haviam morrido, ou seja, o dano foi reduzido em quase 60% na compara\u00e7\u00e3o com o grupo dois. Al\u00e9m disso, os cientistas observaram que a atividade de ALDH2 estava duas vezes maior que no grupo n\u00e3o tratado \u2013 e em n\u00edvel equivalente ao do grupo-controle, que n\u00e3o sofreu dano.<\/p>\n<p>No quarto grupo de estudo, al\u00e9m do tratamento com etanol, os cora\u00e7\u00f5es foram expostos a uma droga capaz de inibir a atividade de ALDH2. Nesse caso, o \u00edndice de morte celular subiu de 50% para 80%, confirmando que a prote\u00e7\u00e3o promovida pelo etanol de fato \u00e9 dependente da a\u00e7\u00e3o da enzima.<\/p>\n<p>J\u00e1 no \u00faltimo grupo experimental foram usados cora\u00e7\u00f5es de camundongos que apresentam uma muta\u00e7\u00e3o no gene codificador da ALDH2, que reduz a atividade da enzima em quase 80%. Como explicou Ferreira, os animais s\u00e3o modificados geneticamente para simular essa muta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 muito comum na popula\u00e7\u00e3o oriental e afeta quase 600 milh\u00f5es de pessoas no mundo.<\/p>\n<p>\u201cNesse grupo, quando expusemos os cora\u00e7\u00f5es ao etanol, o dano causado pela isquemia e reperfus\u00e3o foi aumentado. O \u00edndice de morte celular passou de 50% para 70%. Por\u00e9m, quando tratamos os \u00f3rg\u00e3os desse grupo com uma droga experimental capaz de ativar a ALDH2 \u2013 conhecida como Alda-1 \u2013 o \u00edndice de morte celular caiu para 35%\u201d, contou Ferreira.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, n\u00e3o foi observado benef\u00edcio ao tratar com a Alda-1 os cora\u00e7\u00f5es de animais sem a muta\u00e7\u00e3o na enzima ALDH2 expostos ao etanol. \u201cIsso sugere que tanto a droga experimental quanto o \u00e1lcool est\u00e3o atuando no mesmo mecanismo molecular para ativar ALDH2\u201d, disse.<\/p>\n<p>A mol\u00e9cula Alda-1 j\u00e1 passou pela primeira fase de ensaios cl\u00ednicos nos Estados Unidos, nos quais se mostrou segura para uso em humanos saud\u00e1veis. Deve ter in\u00edcio em breve uma nova fase de testes onde a subst\u00e2ncia ser\u00e1 oferecida a portadores de cardiopatias (leia mais em\u00a0).<\/p>\n<p>Depende do DNA<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Ferreira, \u00e9 poss\u00edvel fazer um paralelo entre o consumo regular de pequenas quantidades de \u00e1lcool por seres humanos e os resultados observados nos cora\u00e7\u00f5es de camundongos tratados em laborat\u00f3rio com etanol.<\/p>\n<p>\u201cMas tudo depende do que a pessoa carrega no DNA\u201d, ressaltou. \u201cO acetalde\u00eddo resultante do metabolismo do etanol pode ser protetor em pequenas quantidades para a maioria da popula\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pode maximizar o dano do infarto em um indiv\u00edduo com a muta\u00e7\u00e3o no gene da ALDH2. Essas pessoas s\u00e3o f\u00e1ceis de serem identificadas, pois com apenas um copo de cerveja ficam com o rosto vermelho, dor de cabe\u00e7a e n\u00e3o ganham resist\u00eancia ao \u00e1lcool com o tempo\u201d, disse.<\/p>\n<p>O dano ao cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser agravado caso o \u00e1lcool seja ingerido em quantidades elevadas, alertou Ferreira, pois isso resulta na produ\u00e7\u00e3o excessiva de acetalde\u00eddo e torna o trabalho de limpeza promovido pela ALDH2 ainda mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>\u201cO grupo tratado com a droga inibidora da ALDH2 [no qual o \u00edndice de morte celular chegou a 80%] mimetiza o que aconteceria em um caso de consumo excessivo de \u00e1lcool. O dif\u00edcil \u00e9 estabelecer a dose segura para cada indiv\u00edduo, pois h\u00e1 muitas vari\u00e1veis que afetam o metabolismo\u201d, disse o pesquisador.<\/p>\n<p>O grupo do ICB-USP tenta agora entender como a presen\u00e7a do acetalde\u00eddo resultante do metabolismo do \u00e1lcool na c\u00e9lula card\u00edaca cria a mem\u00f3ria que mant\u00e9m a ALDH2 mais ativa. A ideia seria desenvolver uma droga capaz de mimetizar o efeito ben\u00e9fico do etanol sem expor os indiv\u00edduos a riscos \u2013 entre eles o desenvolvimento de depend\u00eancia qu\u00edmica.<\/p>\n<p>\u201cA mol\u00e9cula Alda-1 \u00e9 um poss\u00edvel candidato. Entretanto, \u00e9 necess\u00e1rio dar continuidade aos estudos de seguran\u00e7a e efic\u00e1cia em humanos\u201d, comentou Ferreira.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Cardioprotection induced by a brief exposure to acetaldehyde: role of aldehyde dehydrogenase 2, de Cintia Bagne Ueta, Juliane Cruz Campos, Rud\u00e1 Prestes e Albuquerque, Vanessa Morais Lima, Marie-H\u00e9l\u00e8ne Disatnik, Ang\u00e9lica Bianchini Sanchez, Che-Hong Chen, Marisa Helena Gennari de Medeiros, Wenjin Yang, Daria Mochly-Rosen e Julio Cesar Batista Ferreira, est\u00e1 publicado em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 H\u00e1 pelo menos 20 anos estudos t\u00eam mostrado que o consumo moderado de \u00e1lcool pode ter efeito cardioprotetor em grande parte das pessoas, mas ainda n\u00e3o se sabia ao certo por qu\u00ea. 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