{"id":144426,"date":"2018-06-20T01:36:24","date_gmt":"2018-06-20T04:36:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=144426"},"modified":"2018-06-20T01:36:24","modified_gmt":"2018-06-20T04:36:24","slug":"frentes-frias-podem-aumentar-mortalidade-por-avc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/frentes-frias-podem-aumentar-mortalidade-por-avc\/144426","title":{"rendered":"Frentes frias podem aumentar mortalidade por AVC"},"content":{"rendered":"<p> Peter Moon\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Com a chegada do frio nas regi\u00f5es Sul e Sudeste do Brasil, as quedas de temperatura podem ser acompanhadas pelo aumento no n\u00famero de mortes por acidente vascular cerebral (AVC), principalmente entre a popula\u00e7\u00e3o com mais de 65 anos. Essa associa\u00e7\u00e3o entre a <strong><em>queda de temperatura e o aumento na incid\u00eancia de AVC<\/em><\/strong> foi demonstrada em um estudo que envolveu dados de mortalidade e dados de esta\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas de 2002 a 2011 na cidade de S\u00e3o Paulo. Os autores verificaram tamb\u00e9m que entre os idosos a incid\u00eancia de AVC associado a quedas na temperatura m\u00e9dia \u00e9 maior entre as mulheres.<\/p>\n<p>Resultados do trabalho est\u00e3o em artigo que acaba de ser\u00a0\u00a0no\u00a0International Journal of Biometeorology\u00a0por pesquisadores da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e da Universidade Cat\u00f3lica de Santos (Unisantos). A pesquisa tem\u00a0.<\/p>\n<p>No Brasil, as doen\u00e7as cr\u00f4nicas \u2013 como doen\u00e7as cardiovasculares, diabetes e c\u00e2ncer \u2013 s\u00e3o respons\u00e1veis pela maior parte das mortes em homens e mulheres. Entre as doen\u00e7as cardiovasculares, o AVC \u00e9 a principal causa de morte, sendo respons\u00e1vel por 10% de todas elas.<\/p>\n<p>\u201cNos Estados Unidos, pa\u00eds de clima temperado onde os invernos s\u00e3o gelados, foi estabelecida uma rela\u00e7\u00e3o entre o aumento na mortalidade por AVC e as m\u00e1ximas e m\u00ednimas de temperatura. No caso do Brasil, mesmo entre as popula\u00e7\u00f5es das regi\u00f5es Sul e Sudeste, de clima subtropical, ainda n\u00e3o havia sido realizado um estudo semelhante\u201d, disse o m\u00e9dico\u00a0, professor da Unisantos e coautor da pesquisa.<\/p>\n<p>Para averiguar a exist\u00eancia de uma poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o entre varia\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica e AVC na cidade de S\u00e3o Paulo, a ge\u00f3grafa\u00a0\u00a0utilizou dados coletados pelo Programa de Aprimoramento das Informa\u00e7\u00f5es de Mortalidade no Munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo (PRO-AIM). A pesquisa foi coordenada por\u00a0, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da USP.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise das s\u00e9ries temporais dos dados revelou a ocorr\u00eancia de 55.633 casos de mortalidade por AVC na cidade de S\u00e3o Paulo entre 2002 e 2011. As temperaturas m\u00e9dias di\u00e1rias do ar e a umidade relativa do ar foram obtidas a partir de dados coletados pela Esta\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica do Instituto de Astronomia, Geof\u00edsica e Ci\u00eancias Atmosf\u00e9ricas da USP.<\/p>\n<p>O estudo utilizou a temperatura m\u00e9dia, em vez de m\u00ednima e m\u00e1xima, por ser uma m\u00e9dia de v\u00e1rias observa\u00e7\u00f5es no mesmo dia e servir como boa estimativa de exposi\u00e7\u00e3o ao calor ou ao frio, segundo os pesquisadores. A temperatura m\u00e9dia mensal do ar na cidade de S\u00e3o Paulo entre 2002 e 2011 foi de 21 \u00baC, variando de 15 \u00baC a 25 \u00baC, dependendo da esta\u00e7\u00e3o do ano.<\/p>\n<p>A fim de ajustar os efeitos da polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica na mortalidade, foram coletadas as m\u00e9dias di\u00e1rias de mat\u00e9ria particulada, oz\u00f4nio, di\u00f3xido de enxofre e di\u00f3xido de nitrog\u00eanio nas 14 esta\u00e7\u00f5es de medi\u00e7\u00e3o de poluentes da Companhia Ambiental do Estado de S\u00e3o Paulo (Cetesb) espalhadas pela cidade.<\/p>\n<p>Com as informa\u00e7\u00f5es em m\u00e3os, Ikefuti partiu para a modelagem estat\u00edstica dos dados. Foram constru\u00eddos modelos de regress\u00e3o de dados (com base no chamado modelo Quasi-Poisson) para estimar os efeitos da temperatura m\u00e9dia na mortalidade por AVC e seus subtipos na popula\u00e7\u00e3o total e tamb\u00e9m entre as pessoas acima de 65 anos.<\/p>\n<p>O estudo mostrou que a temperatura m\u00e9dia di\u00e1ria estava associada \u00e0 mortalidade por AVC e que o risco relativo variou de acordo com a idade e o sexo. Temperaturas mais baixas (abaixo de 15 \u00baC) foram consideradas estatisticamente mais significativas para mortalidade por AVC do que temperaturas mais altas (acima de 22 \u00baC).<\/p>\n<p>Partindo-se do universo total de mortes por AVC na capital paulista entre 2002 e 2011, Ikefuti constatou uma m\u00e9dia di\u00e1ria de 15,24 mortes no per\u00edodo, sendo ligeiramente superior entre as mulheres (7,99 casos por dia) do que entre os homens (7,25 casos por dia). Durante o per\u00edodo de estudo, essa pequena diferen\u00e7a se tornou expressiva, com cerca de 2 mil mortes a mais de mortes por AVC em mulheres do que em homens.<\/p>\n<p>Entre as pessoas com mais de 65 anos, foram registrados mais casos de AVC hemorr\u00e1gico em mulheres (5.236 mortes, uma m\u00e9dia di\u00e1ria de 5,81 casos) do que em homens (4.071 mortes, m\u00e9dia di\u00e1ria de 4,6 casos).<\/p>\n<p>Quando se observam os dados de cada subtipo de AVC, foi identificado no per\u00edodo um total de 29.433 mortes, sendo 12.183 mortes por AVC isqu\u00eamico e 17.250 mortes por AVC hemorr\u00e1gico.<\/p>\n<p>Isqu\u00eamico e hemorr\u00e1gico<\/p>\n<p>O acidente vascular cerebral \u00e9 uma s\u00e9ria condi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica que ocorre quando o suprimento de sangue que vai para o c\u00e9rebro \u00e9 rompido. H\u00e1 dois subtipos de AVC, o isqu\u00eamico e o hemorr\u00e1gico.<\/p>\n<p>O AVC isqu\u00eamico, tamb\u00e9m conhecido como isquemia cerebral, \u00e9 o tipo mais comum (mais de 80% dos casos). Ocorre por causa da obstru\u00e7\u00e3o de um vaso sangu\u00edneo no c\u00e9rebro, que interrompe o fluxo de sangue no local, fazendo com que a \u00e1rea cerebral irrigada por aquele vaso deixe de receber sangue e morra.<\/p>\n<p>Os fatores de risco para a ocorr\u00eancia do AVC isqu\u00eamico s\u00e3o idade (mais frequente quanto maior a idade), tabagismo, hipertens\u00e3o arterial, obesidade, alto n\u00edvel de colesterol, hist\u00f3rico familiar de doen\u00e7as card\u00edacas ou diabetes\u00a0 e alcoolismo.<\/p>\n<p>A forma mais grave de AVC \u00e9 o hemorr\u00e1gico (10% a 15% dos casos), tamb\u00e9m conhecido como derrame. Ocorre quando um vaso sangu\u00edneo rompe dentro do c\u00e9rebro, causando hemorragia e o incha\u00e7o na regi\u00e3o cerebral onde houve o sangramento, o que prejudica e degenera o tecido nervoso, causando nos casos leves sequelas irrevers\u00edveis, e nos casos mais graves o \u00f3bito.<\/p>\n<p>Diminui\u00e7\u00e3o do metabolismo e menopausa<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a entre o total dos casos de AVC (55,6 mil) e a soma dos casos de AVC hemorr\u00e1gico e isqu\u00eamico (29,4 mil) corresponde aos casos (26,2 mil) que n\u00e3o foram classificados como doen\u00e7as hemorr\u00e1gicas ou isqu\u00eamicas ou outras doen\u00e7as cerebrovasculares. Isso n\u00e3o quer dizer que entre aqueles 26,2 mil casos sem especifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o existam casos de AVC hemorr\u00e1gico ou isqu\u00eamico, mas apenas que n\u00e3o foram assim notificados.<\/p>\n<p>Observando-se as estat\u00edsticas para cada subtipo de AVC, verificou-se no caso do AVC hemorr\u00e1gico uma m\u00e9dia de mortalidade di\u00e1ria de 4,72 casos, e de 3,34 casos para o AVC isqu\u00eamico, para todas as idades. Nos dois casos, a incid\u00eancia foi maior entre as mulheres.<\/p>\n<p>Quando todos os dados foram confrontados com as temperaturas m\u00e9dias na cidade de S\u00e3o Paulo no per\u00edodo analisado, descobriu-se que, para todos os tipos de AVC, o risco relativo era maior quando a temperatura m\u00e9dia era mais baixa (abaixo dos 15 \u00baC).<\/p>\n<p>Quando a temperatura m\u00e9dia registrada se manteve na faixa entre os 17 \u00baC e os 24 \u00baC, o risco relativo n\u00e3o se mostrou significativo. No entanto, quando a temperatura m\u00e9dia foi superior aos 26\u00b0C, o risco relativo de AVC isqu\u00eamico se revelou significativo para o sexo masculino acima de 65 anos.<\/p>\n<p>Especificamente em rela\u00e7\u00e3o ao AVC hemorr\u00e1gico, os resultados do risco relativo mostram que temperaturas mais baixas parecem ser um fator de risco para esse subtipo, especialmente abaixo de 10 \u00baC, tanto para homens quanto para mulheres. Acima dos 65 anos, no entanto, as temperaturas m\u00e9dias mais baixas representaram maior risco de AVC hemorr\u00e1gico para as mulheres, um resultado que n\u00e3o era esperado e que surpreendeu os pesquisadores.<\/p>\n<p>\u201cNo in\u00edcio do estudo, ach\u00e1vamos que quando houvesse uma variabilidade acentuada de temperaturas, tanto para o frio quanto para o calor, os resultados seriam semelhantes para os dois subtipos de AVC. Ou seja, nos dias de muito frio ou de muito calor haveria mais mortes de ambos os subtipos. N\u00e3o foi o que ocorreu. No caso do AVC hemorr\u00e1gico, o frio \u00e9 um fator muito mais importante, especialmente entre as mulheres\u201d, disse Ikefuti, que foi professora da Universidade Federal da Fronteira Sul e atualmente trabalha na Secretaria de Estado da Sa\u00fade de S\u00e3o Paulo, no Centro de Vigil\u00e2ncia Epidemiol\u00f3gica (CVE).<\/p>\n<p>Uma explica\u00e7\u00e3o para o AVC ser mais comum entre os idosos \u00e9 resultado da diminui\u00e7\u00e3o do metabolismo na terceira idade. Em resposta a mudan\u00e7as nas temperaturas, os idosos t\u00eam menor capacidade de manter a homeostase, ou seja, de regular o metabolismo de modo a manter constantes as condi\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas necess\u00e1rias \u00e0 vida.<\/p>\n<p>\u201cVerificamos tamb\u00e9m que, para todos os casos de AVC e para o AVC hemorr\u00e1gico em particular, o sexo mais vulner\u00e1vel \u00e9 o feminino. Os dados mostram que as mulheres t\u00eam, mesmo que ligeiramente, mais alta mortalidade m\u00e9dia por AVC. O risco relativo do acidente, calculado para as varia\u00e7\u00f5es da temperatura m\u00e9dia, tamb\u00e9m foi maior entre mulheres do que em homens. De forma similar, as temperaturas m\u00e9dias mais baixas causaram maior impacto em mulheres, em ambos os subtipos de AVC\u201d, disse Ikefuti.<\/p>\n<p>Ela explica que o estresse pelo frio resulta em eleva\u00e7\u00e3o da press\u00e3o arterial, bem como em aumento na viscosidade do sangue e na contagem de plaquetas, subindo a press\u00e3o arterial de modo a poder causar um AVC hemorr\u00e1gico.<\/p>\n<p>Os pesquisadores citam estudos recentes que destacam os principais fatores pelos quais as mulheres s\u00e3o mais suscet\u00edveis ao AVC. A influ\u00eancia de alguns fatores de risco \u00e9 mais forte em mulheres, como diabetes e hipertens\u00e3o, porque as mulheres diferem dos homens de v\u00e1rias maneiras, incluindo anatomia, biologia vascular, imunidade, fatores neuroprotetores, coagula\u00e7\u00e3o, perfis hormonais, fatores de risco vascular, fatores de estilo de vida e pap\u00e9is na sociedade.<\/p>\n<p>De acordo com Braga, uma quest\u00e3o importante para explicar o maior risco de AVC entre as mulheres est\u00e1 na menopausa, quando o organismo diminui a produ\u00e7\u00e3o do estrog\u00eanio, o horm\u00f4nio do desenvolvimento de caracter\u00edsticas femininas. A falta de estrog\u00eanio na menopausa sujeita a mulher ao maior risco de doen\u00e7as vasculares, entre diversos outros sintomas.<\/p>\n<p>\u201cNosso estudo contribui para a compreens\u00e3o do impacto da temperatura sobre a mortalidade por AVC em um pa\u00eds tropical, onde a temperatura n\u00e3o seria, supostamente, um fator de preocupa\u00e7\u00e3o para risco de AVC. O trabalho comprovou que, pelo menos na cidade de S\u00e3o Paulo, este n\u00e3o \u00e9 o caso\u201d, disse.<\/p>\n<p>\u201cApesar de a cidade estar em uma regi\u00e3o subtropical, portanto com temperaturas m\u00e9dias mais elevadas do que as dos pa\u00edses temperados, a ocorr\u00eancia de grandes varia\u00e7\u00f5es di\u00e1rias de temperatura, assim como a chegada de frentes frias ou de ondas de calor s\u00e3o, sim, fatores de risco para o AVC, especialmente entre os idosos, e principalmente entre as mulheres\u201d, disse Braga.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Mean air temperature as a risk factor for stroke mortality in S\u00e3o Paulo, Brazil\u00a0(doi: https:\/\/doi.org\/10.1007\/s00484-018-1554-y), de Priscilla V. Ikefuti, Ligia V. Barrozo e Alf\u00e9sio L. F. Braga, est\u00e1 publicado em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peter Moon\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Com a chegada do frio nas regi\u00f5es Sul e Sudeste do Brasil, as quedas de temperatura podem ser acompanhadas pelo aumento no n\u00famero de mortes por acidente vascular cerebral (AVC), principalmente entre a popula\u00e7\u00e3o com mais de 65 anos. 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