{"id":145373,"date":"2018-07-04T00:42:59","date_gmt":"2018-07-04T03:42:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=145373"},"modified":"2018-07-04T00:42:59","modified_gmt":"2018-07-04T03:42:59","slug":"pesquisa-traca-2-mil-anos-da-historia-das-chuvas-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/pesquisa-traca-2-mil-anos-da-historia-das-chuvas-no-brasil\/145373","title":{"rendered":"Pesquisa tra\u00e7a 2 mil anos da hist\u00f3ria das chuvas no Brasil"},"content":{"rendered":"<p> Peter Moon\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Entre 1500 e 1850, a Europa esteve imersa na chamada Pequena Era do Gelo, per\u00edodo no qual as temperaturas m\u00e9dias no hemisf\u00e9rio Norte eram consideravelmente inferiores \u00e0s atuais. At\u00e9 agora os efeitos daquela queda de temperatura sobre o clima da Am\u00e9rica do Sul eram pouco conhecidos, mas um novo estudo mostra que, nos s\u00e9culos 17 e 18, o <strong><em>clima<\/em><\/strong> do sudoeste do Brasil era mais \u00famido que o atual, por exemplo. Ao mesmo tempo, o clima do Brasil do Nordeste era mais seco. O estudo foi feito a partir da an\u00e1lise de rochas de cavernas em Mato Grosso do Sul e em Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>Os mesmos registros de cavernas brasileiras revelaram que, entre os anos 900 e 1100, durante a chamada Anomalia Clim\u00e1tica Medieval \u2013 per\u00edodo em que o clima no hemisf\u00e9rio Norte era mais quente do que o atual \u2013, o clima era mais seco no Brasil.<\/p>\n<p>Trata-se de uma das primeiras evid\u00eancias a constatar uma rela\u00e7\u00e3o entre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas observadas durante a Pequena Era do Gelo e a Anomalia Clim\u00e1tica Medieval no hemisf\u00e9rio Norte e altera\u00e7\u00f5es no padr\u00e3o de chuvas sobre a Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>Publicado em artigo no\u00a0Geophysical Research Journal, o trabalho tem como autores o f\u00edsico\u00a0\u00a0e o ge\u00f3logo e professor\u00a0, do Instituto de Geoci\u00eancias da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), ao lado de colaboradores brasileiros, norte-americanos e chineses, e integra o projeto PIRE-CREATE,\u00a0.<\/p>\n<p>\u201cTrabalhamos em diversas escalas de tempo. H\u00e1 estudos que investigam o paleoclima h\u00e1 dezenas ou centenas de milhares de anos. No novo estudo, investigamos altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas durante os \u00faltimos dois mil\u00eanios\u201d, disse Cruz.<\/p>\n<p>Novello, primeiro autor do artigo, destaca que \u201ch\u00e1 evid\u00eancias abundantes de que o clima no hemisf\u00e9rio Norte era mais frio durante a Pequena Era do Gelo\u201d. S\u00e3o evid\u00eancias hist\u00f3ricas e culturais, como relatos escritos ou pinturas de \u00e9poca exibindo o frio na Europa do s\u00e9culo 17, por exemplo.<\/p>\n<p>A essas evid\u00eancias se somam outras, como os registros de gases aprisionados h\u00e1 s\u00e9culos no gelo de geleiras na Groenl\u00e2ndia, o registro de is\u00f3topos preservados no lodo do fundo de lagos e lagoas ou ainda a an\u00e1lise dos an\u00e9is de crescimento das \u00e1rvores.<\/p>\n<p>\u201cUm problema que se enfrenta para investigar os paleoclimas do hemisf\u00e9rio Sul \u00e9 a aus\u00eancia de dados hist\u00f3ricos ou culturais. Na Idade M\u00e9dia, antes da era dos descobrimentos, nem os incas nem as diversas na\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas possu\u00edam escrita. O mesmo ocorria entre as tribos africanas e os abor\u00edgenes australianos\u201d, disse Novello.<\/p>\n<p>\u201cSome-se a isso o fato de que nos tr\u00f3picos quase n\u00e3o h\u00e1 geleiras, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o daquelas no alto dos Andes. Da\u00ed que precisamos encontrar outros m\u00e9todos de an\u00e1lise para descobrir como era o clima do passado na Am\u00e9rica do Sul. No grupo do professor Cruz, viajamos pelo Brasil coletando amostras de rochas no interior de cavernas. A composi\u00e7\u00e3o dos is\u00f3topos de oxig\u00eanio no carbonato de c\u00e1lcio depositado ao longo de s\u00e9culos e mil\u00eanios para formar espeleotemas [estalagmites e estalactites] indica se o clima era mais seco ou mais \u00famido no passado\u201d, disse.<\/p>\n<p>Is\u00f3topos da seca e da chuva<\/p>\n<p>Para entender como foi que Novello detectou os per\u00edodos de maior ou menor umidade no paleoclima brasileiro, antes \u00e9 necess\u00e1rio explicar como se chegou aos resultados. O trabalho \u00e9 baseado na an\u00e1lise isot\u00f3pica do oxig\u00eanio das mol\u00e9culas de carbonato de c\u00e1lcio dos espeleotemas das cavernas.<\/p>\n<p>Is\u00f3topos s\u00e3o variantes de um elemento qu\u00edmico. Enquanto todos os is\u00f3topos de um dado elemento compartilham o mesmo n\u00famero de pr\u00f3tons, cada is\u00f3topo difere dos outros em seu n\u00famero de n\u00eautrons. Assim, o elemento qu\u00edmico oxig\u00eanio tem em seu n\u00facleo 8 pr\u00f3tons e 8 n\u00eautrons, no caso do oxig\u00eanio 16 (16O). J\u00e1 no caso do oxig\u00eanio 18 (18O), s\u00e3o 8 pr\u00f3tons e 10 n\u00eautrons.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1, na natureza, aproximadamente um \u00e1tomo de oxig\u00eanio 18 para cada mil \u00e1tomos do oxig\u00eanio 16\u201d, explicou Novello. Como o oxig\u00eanio 18 \u00e9 mais pesado do que o 16, quando come\u00e7a a chover as mol\u00e9culas de \u00e1gua com o oxig\u00eanio 18 precipitam primeiro.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia, ocorre uma eleva\u00e7\u00e3o relativa da quantidade de oxig\u00eanio 16 na nuvem de chuva em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quantidade de oxig\u00eanio 18, agora necessariamente menor \u2013 dado que a maior parte do oxig\u00eanio 18 original precipitou como chuva. \u201cQuando chove muito, muda a isotopia da chuva\u201d, disse.<\/p>\n<p>Para saber como tal mudan\u00e7a no regime de chuvas pode ser aferida em climas passados, Novello e Cruz recorreram ao registro da rela\u00e7\u00e3o oxig\u00eanio 16\/18 preservado no carbonato de c\u00e1lcio dos espeleotemas das cavernas.<\/p>\n<p>Quando a chuva cai em regi\u00f5es de Carste, ou seja, aquelas formadas por rochas carbon\u00e1ticas (como o calc\u00e1rio), ocorre a forma\u00e7\u00e3o de cavernas. A \u00e1gua pluvial entra em contato com o g\u00e1s carb\u00f4nico (CO2) dissolvido no ar e no solo. O resultado dessa rea\u00e7\u00e3o qu\u00edmica \u00e9 uma \u00e1gua ligeiramente \u00e1cida, que vai penetrando no solo at\u00e9 chegar \u00e0s rochas calc\u00e1rias subterr\u00e2neas.<\/p>\n<p>A rocha calc\u00e1ria \u00e9 insol\u00favel em \u00e1gua de pH neutro, mas dissolve em presen\u00e7a de \u00e1gua \u00e1cida (pH ligeiramente negativo), o que leva \u00e0 forma\u00e7\u00e3o das cavidades subterr\u00e2neas naturais a que damos o nome de cavernas.<\/p>\n<p>Os pesquisadores explicam que a forma\u00e7\u00e3o de espeleotemas ocorre quando a \u00e1gua da chuva que penetrou no solo (carregando carbonato de c\u00e1lcio) atinge o teto da caverna. O gotejar lento e cont\u00ednuo ao longo de milhares de anos vai precipitando o carbonato de c\u00e1lcio dissolvido em cada gota na forma de espeleotemas, que acaba por se acumular no teto da caverna formando estalactites e no piso da caverna formando estalagmites.<\/p>\n<p>O carbonato de c\u00e1lcio que porventura n\u00e3o precipitou no teto da caverna \u00e9 depositado em seu piso em camadas que d\u00e3o forma \u00e0s chamadas estalagmites. Os espeleotemas preservam a assinatura isot\u00f3pica do oxig\u00eanio da chuva que caiu na \u00e9poca da deposi\u00e7\u00e3o de cada camada de carbonato de c\u00e1lcio.<\/p>\n<p>\u201cAo analisar os is\u00f3topos de oxig\u00eanio no carbonato de c\u00e1lcio dos espeleotemas, a partir da raz\u00e3o encontrada entre o oxig\u00eanio 16 e o 18 consegue-se inferir se o clima era mais seco (relativamente mais 18) ou mais \u00famido (relativamente menos oxig\u00eanio 18) quando do momento da deposi\u00e7\u00e3o de determinada camada de calc\u00e1rio\u201d, disse Novello.<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o, por exemplo, em uma regi\u00e3o onde chove muito, a tend\u00eancia \u00e9 achar nos espeleotemas uma sequ\u00eancia de camadas com quantidade relativamente menor de oxig\u00eanio 18. Inversamente, em regi\u00f5es de clima seco, a pouca chuva que cai tem relativamente mais oxig\u00eanio 18. Essa \u00e1gua, ao penetrar no solo e dissolver o carbonato de c\u00e1lcio, acaba por formar espeleotemas com uma quantidade relativamente maior de oxig\u00eanio 18\u201d, disse.<\/p>\n<p>Data\u00e7\u00e3o das rochas e an\u00e1lise isot\u00f3pica<\/p>\n<p>Valdir Novello coletou amostras de rocha de duas estalagmites da gruta Jaragu\u00e1, em Bonito (MS), e de estalagmites das grutas S\u00e3o Bernardo e S\u00e3o Mateus, localizadas no Parque Estadual de Terra Ronca, em Goi\u00e1s.<\/p>\n<p>Na gruta Jaragu\u00e1 foram coletadas duas amostras de duas estalagmites diferentes. Uma delas mede 13 cent\u00edmetros e, de acordo com o m\u00e9todo de data\u00e7\u00e3o ur\u00e2nio\/t\u00f3rio, cresceu continuamente por 800 anos, entre 1190 e 2000, o que abarca o per\u00edodo da Pequena Era do Gelo (entre 1500 e 1850). A segunda amostra, com 28 cent\u00edmetros, se formou continuamente entre os anos 442 e 1451, englobando a Anomalia Clim\u00e1tica Medieval (entre 900 e 1100).<\/p>\n<p>Em Goi\u00e1s, Novello coletou na gruta S\u00e3o Bernardo uma amostra de rocha com 37 cent\u00edmetros, cobrindo o per\u00edodo entre os anos 1123 e 2010, o que engloba a Pequena Era do Gelo. Da gruta S\u00e3o Mateus saiu uma amostra com 17 cent\u00edmetros, acumulada no intervalo de tempo entre 264 e 1201, o que compreende o per\u00edodo da Anomalia Clim\u00e1tica Medieval.<\/p>\n<p>O perfil de oxig\u00eanio 18 nas amostras da gruta Jaragu\u00e1 exibe uma leve tend\u00eancia em dire\u00e7\u00e3o a valores mais leves de oxig\u00eanio entre os anos 400 e 1400, o que sugere um clima levemente \u00famido no territ\u00f3rio do Brasil central daquele per\u00edodo (que abarca a Anomalia Clim\u00e1tica Medieval no hemisf\u00e9rio Norte).<\/p>\n<p>Depois de 1400, os valores do oxig\u00eanio 18 nas amostras da gruta Jaragu\u00e1 come\u00e7am a declinar at\u00e9 1770, sinalizando o aumento da umidade durante o per\u00edodo, que corresponde \u00e0 Pequena Idade do Gelo no hemisf\u00e9rio Norte. Posteriormente, a tend\u00eancia \u00e9 invertida e os valores aumentam novamente at\u00e9 1950, sinalizando a queda da umidade desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>O registro de oxig\u00eanio 18 do Brasil central baseado nas estalagmites das grutas S\u00e3o Bernardo e S\u00e3o Mateus, em Goi\u00e1s, n\u00e3o apresenta uma tend\u00eancia. O registro mostra alguns eventos \u00famidos abruptos, como os per\u00edodos \u00famidos prolongados entre 680 e 780 e entre 1290 e 1350, e eventos \u00famidos mais curtos ocorrendo por volta de 1050, 1175 e 1490.<\/p>\n<p>Por outro lado, o per\u00edodo \u00famido documentado no registro da gruta Jaragu\u00e1 durante a Pequena Era do Gelo, entre 1500 e 1850, \u00e9 consistente com as condi\u00e7\u00f5es \u00famidas favorecidas pela passagem da chamada Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul (ZCAS), que \u00e9 uma faixa de nebulosidade de orienta\u00e7\u00e3o noroeste\/sudeste que se estende desde o sul da regi\u00e3o amaz\u00f4nica at\u00e9 a regi\u00e3o central do Atl\u00e2ntico Sul.<\/p>\n<p>\u201cA Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul \u00e9 a massa de nebulosidade respons\u00e1vel pela ocorr\u00eancia de chuvas prolongadas na regi\u00e3o Sudeste. Os is\u00f3topos contam toda a hist\u00f3ria dessa massa \u00famida andando pelo continente\u201d, disse Novello.<\/p>\n<p>\u201cSabe aqueles dias em que chove bastante em S\u00e3o Paulo? Sempre que chove cinco dias seguidos \u00e9 porque a nebulosidade da Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul est\u00e1 estacionada sobre S\u00e3o Paulo. A grande seca de 2014 foi causada pela n\u00e3o forma\u00e7\u00e3o da Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul naquele ano\u201d, disse Cruz.<\/p>\n<p>Em um trabalho anterior, feito com registros isot\u00f3picos das grutas do munic\u00edpio de Iraquara, na Bahia, Novello havia inferido que, durante a Pequena Idade do Gelo, no Nordeste \u2013 portanto fora da Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul \u2013 prevalecia um clima mais seco.<\/p>\n<p>\u201cOs dados dos espeleotemas de Bonito, quando associados a dados paleoclim\u00e1ticos peruanos conhecidos, indicam que, durante a Pequena Era do Gelo, a Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul estacionava com maior frequ\u00eancia mais a sudoeste, sobre uma faixa de terra que vai do Peru at\u00e9 S\u00e3o Paulo, passando pelo Mato Grosso do Sul. Por outro lado, os dados das grutas de Goi\u00e1s e de Iraquara sugerem que, durante a Pequena Era do Gelo, a Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul n\u00e3o chegou a Goi\u00e1s, \u00e0 Bahia e ao Nordeste. A Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul estacionou toda na regi\u00e3o sudoeste. Com isso, o Nordeste ficou mais seco\u201d, disse Novello.<\/p>\n<p>Embora os registros das duas grutas de Goi\u00e1s (e outras tr\u00eas grutas) n\u00e3o exibam uma mudan\u00e7a significativa na propor\u00e7\u00e3o m\u00e9dia de oxig\u00eanio 18 durante o per\u00edodo da Anomalia Clim\u00e1tica Medieval e durante o intervalo de tempo da Pequena Era do Gelo, eles mostram uma forte variabilidade na escala de tempo decen\u00e1ria e centen\u00e1ria durante o per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o da Anomalia Clim\u00e1tica Medieval para a Pequena Era do Gelo (entre 1100 e 1500).<\/p>\n<p>Resumindo, os registros dos espeleotemas investigados por Novello e por Cruz indicam que, durante o per\u00edodo de clima mais quente no hemisf\u00e9rio Norte (a Anomalia Clim\u00e1tica Medieval), o clima por aqui era mais seco, e que durante a Pequena Era do Gelo do hemisf\u00e9rio Norte o clima no sudoeste do Brasil era mais \u00famido, enquanto no Brasil central e no Nordeste eram mais secos.<\/p>\n<p>\u201cQuando comparamos nossos dados com outros dados isot\u00f3picos da Am\u00e9rica do Sul, verificamos a exist\u00eancia de outros per\u00edodos mais secos no passado. A chuva n\u00e3o foi muito bem distribu\u00edda nos \u00faltimos 1600 anos\u201d, disse Cruz.<\/p>\n<p>Zonas de converg\u00eancia<\/p>\n<p>\u201cExiste uma coer\u00eancia entre as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas na Am\u00e9rica do Sul e os dados clim\u00e1ticos do hemisf\u00e9rio Norte. O clima da Terra est\u00e1 todo conectado. Se houver anomalias nas regi\u00f5es de alta latitude, isto ir\u00e1 refletir nos tr\u00f3picos\u201d, disse Cruz.<\/p>\n<p>De acordo com Novello, \u201cquando olhamos os dados do paleoclima durante a Pequena Era do Gelo vemos mais frio por aqui, mas os padr\u00f5es de chuva mudaram. Da\u00ed se constata que se o clima esfria no hemisf\u00e9rio Norte, chove mais no hemisf\u00e9rio Sul. A converg\u00eancia da umidade acaba vindo para o sul. Inversamente, quando o clima aquece no hemisf\u00e9rio Norte, chove menos no hemisf\u00e9rio Sul\u201d.<\/p>\n<p>\u201cNas regi\u00f5es equatoriais do planeta existe uma banda de nebulosidade chamada Zona de Converg\u00eancia Intertropical. Ela se localiza onde a superf\u00edcie do mar est\u00e1 mais quente. Tal regi\u00e3o mais quente cria uma zona de baixa press\u00e3o para onde converge toda a umidade, caindo assim mais chuva\u201d, disse Novello.<\/p>\n<p>Durante a Pequena Era do Gelo, quando era maior o diferencial entre o clima mais frio ao norte e o clima ameno ao sul, os ventos que convergiam desde o hemisf\u00e9rio Norte para a Zona de Converg\u00eancia Intertropical carregavam mais umidade do que fazem atualmente. Isso contribu\u00eda para o aumento de nebulosidade na Zona de Converg\u00eancia Intertropical, que por sua vez avan\u00e7ava sobre o equador no sentido leste-oeste, saindo do Atl\u00e2ntico e penetrando na Amaz\u00f4nia, onde come\u00e7ava a chover torrencialmente. Era quando todo o oxig\u00eanio 18 acumulado nas nuvens precipitava.<\/p>\n<p>\u201cO esfriamento do Atl\u00e2ntico Norte durante a Pequena Era do Gelo intensificou os ventos al\u00edsios de nordeste, o que favoreceu o transporte de umidade para a Amaz\u00f4nia. \u00c9 o contr\u00e1rio do que ocorre nos anos em que os al\u00edsios de nordeste s\u00e3o menos intensos, que tendem a ser anos mais secos\u201d, disse Cruz.<\/p>\n<p>Uma vez que a nebulosidade da Zona de Converg\u00eancia Intertropical atinge a Amaz\u00f4nia, ela contribui para alimentar a Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul com umidade mais rica em oxig\u00eanio 16. A\u00ed ent\u00e3o, a Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul avan\u00e7a na dire\u00e7\u00e3o noroeste-sudeste, atravessando o Brasil em dire\u00e7\u00e3o ao Atl\u00e2ntico Sul.<\/p>\n<p>Quando as nuvens permanecem saturadas de umidade, chove muito ao longo do trajeto da Zona de Converg\u00eancia do Atl\u00e2ntico Sul. Trata-se de uma chuva com maior rela\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio 16. A maior preval\u00eancia desse is\u00f3topo \u00e9 que acaba sendo registrada nos espeleotemas.<\/p>\n<p>Durante a Anomalia Clim\u00e1tica Medieval, o clima mais quente no hemisf\u00e9rio Norte formou uma zona de baixa press\u00e3o para onde convergiram ventos \u00famidos do Atl\u00e2ntico Sul. \u201cA Zona de Converg\u00eancia Intertropical se deslocou mais para o norte. A Am\u00e9rica do Sul ficou toda seca\u201d, disse Cruz.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Two millennia of South Atlantic Convergence Zone variability reconstructed from isotopic proxies(https:\/\/doi.org\/10.1029\/2017GL076838), de V. F. Novello, F. W. Cruz, J. S. Moquet, M. Vuille, M. S. de Paula, D. Nunes, R. L. Edwards, H. Cheng, I. Karmann, G. Utida, N. M. Str\u00edkis e J. L. P. S. Campos, est\u00e1 publicado em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peter Moon\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Entre 1500 e 1850, a Europa esteve imersa na chamada Pequena Era do Gelo, per\u00edodo no qual as temperaturas m\u00e9dias no hemisf\u00e9rio Norte eram consideravelmente inferiores \u00e0s atuais. 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