{"id":152685,"date":"2018-09-24T00:20:37","date_gmt":"2018-09-24T03:20:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=152685"},"modified":"2018-09-24T00:20:37","modified_gmt":"2018-09-24T03:20:37","slug":"biomarcador-que-detecta-dengue-hemorragica-e-descoberto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/biomarcador-que-detecta-dengue-hemorragica-e-descoberto\/152685","title":{"rendered":"Biomarcador que detecta dengue hemorr\u00e1gica \u00e9 descoberto"},"content":{"rendered":"<p> Maria Fernanda Ziegler\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Pacientes infectados pelo v\u00edrus da <strong><em>dengue<\/em><\/strong> poder\u00e3o contar, no futuro pr\u00f3ximo, com exames de sangue capazes de identificar se a doen\u00e7a pode evoluir para o tipo mais letal, a dengue hemorr\u00e1gica. Al\u00e9m dos sintomas cl\u00e1ssicos de febre e dores pelo corpo, o desfecho hemorr\u00e1gico da doen\u00e7a provoca o sangramento de pequenos vasos da pele e de outros \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p>Estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas e do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Faculdade de Medicina de S\u00e3o Jos\u00e9 do Rio Preto (Famerp) \u2013\u00a0\u00a0\u2013 identificou lip\u00eddios que funcionam como marcadores biol\u00f3gicos da dengue hemorr\u00e1gica. Para tanto, os autores verificaram a a\u00e7\u00e3o de mais de 4 mil mol\u00e9culas no plasma humano a partir de espectrometria de massas.<\/p>\n<p>Os pesquisadores elucidaram o papel determinante da fosfotidilcolina, o fosfolip\u00eddeo mais comum nos tecidos humanos, no desbalan\u00e7o da cascata de coagula\u00e7\u00e3o \u2013 processo cujo objetivo \u00e9 barrar hemorragias a partir de mol\u00e9culas como plaquetas e fibrinog\u00eanio e da forma\u00e7\u00e3o do co\u00e1gulo sangu\u00edneo \u2013, resultando na dengue hemorr\u00e1gica.<\/p>\n<p>Em artigo publicado na revista\u00a0, o grupo descreve a evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a no plasma de 20 pacientes que apresentaram dengue hemorr\u00e1gica e foram tratados no Hospital de Base, ligado \u00e0 Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp). O estudo contou tamb\u00e9m com um grupo controle composto pelo plasma sangu\u00edneo de 10 pacientes saud\u00e1veis e n\u00e3o infectados pelo v\u00edrus da dengue.<\/p>\n<p>\u201cConseguimos identificar, pela primeira vez, que o v\u00edrus da dengue ajuda na fosforila\u00e7\u00e3o [adi\u00e7\u00e3o de grupos fosfato nas prote\u00ednas], ocasionando o aumento das fosfotidilcolinas no sangue e gerando o desbalan\u00e7o natural na via de coagula\u00e7\u00e3o. Esses lip\u00eddios atuam contra a coagula\u00e7\u00e3o e, portanto, acabam ocasionando a febre hemorr\u00e1gica\u201d, disse\u00a0, professor na Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas da Unicamp e um dos autores do artigo.<\/p>\n<p>O estudo \u00e9 resultado do doutorado de\u00a0, que teve Bolsa da FAPESP e orienta\u00e7\u00e3o de Catharino.<\/p>\n<p>O desbalan\u00e7o da cascata de coagula\u00e7\u00e3o pode ocorrer por outros motivos, como hemofilia. \u201cMas n\u00e3o sabemos se as mol\u00e9culas intermedi\u00e1rias desses outros processos s\u00e3o as mesmas dos casos da dengue hemorr\u00e1gica. Podem ser mol\u00e9culas diferentes dos lip\u00eddios verificados no nosso estudo, marcadores espec\u00edficos produzidos pelo v\u00edrus da dengue\u201d, disse Catharino.<\/p>\n<p>Ao analisar o plasma de pacientes, o grupo conseguiu acompanhar a evolu\u00e7\u00e3o da dengue para a febre hemorr\u00e1gica, o que possibilitou a compreens\u00e3o do mecanismo da doen\u00e7a. De acordo com o estudo, as altera\u00e7\u00f5es lip\u00eddicas nas c\u00e9lulas infectadas pelo v\u00edrus da dengue se tornam evidentes quando o v\u00edrus assume o controle do metabolismo celular, modulando os mecanismos de autofagia [degrada\u00e7\u00e3o das estruturas do meio intracelular] para atender \u00e0s necessidades da replica\u00e7\u00e3o viral.<\/p>\n<p>Os cientistas tamb\u00e9m conseguiram observar a atua\u00e7\u00e3o de mol\u00e9culas intermedi\u00e1rias, como o diacidiglicerol (DAG) e o inositol trifosfato (IP3). De acordo com a hip\u00f3tese levantada, o principal impacto na evolu\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a para a febre hemorr\u00e1gica estaria na atua\u00e7\u00e3o do v\u00edrus na fosforila\u00e7\u00e3o, sobretudo nas quinases \u2013 prote\u00ednas cuja fun\u00e7\u00e3o \u00e9 formar um derivado fosfatado a partir de outras prote\u00ednas \u2013, o que provoca um desbalan\u00e7o da coagula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cConseguimos acompanhar o mecanismo de desenvolvimento da doen\u00e7a no plasma dos pacientes e identificar marcadores de evolu\u00e7\u00e3o justamente quando h\u00e1 queda de plaquetas no sangue. A alta da fosfotidilcolina \u00e9, portanto, um indicador de que vai ocorrer febre hemorr\u00e1gica. Existe um grande balan\u00e7o da cascata de coagula\u00e7\u00e3o que \u00e9 alterado pelo v\u00edrus a partir de sua atua\u00e7\u00e3o sobre v\u00e1rias mol\u00e9culas intermedi\u00e1rias (lip\u00eddios) para que a coagula\u00e7\u00e3o n\u00e3o aconte\u00e7a\u201d, disse Catharino.<\/p>\n<p>Processo da doen\u00e7a<\/p>\n<p>Al\u00e9m de identificar biomarcadores para a dengue hemorr\u00e1gica e possibilitar que, no futuro, a doen\u00e7a seja identificada a partir de exames de sangue, o estudo tamb\u00e9m permitiu a maior compreens\u00e3o do mecanismo de atua\u00e7\u00e3o do v\u00edrus da dengue na febre hemorr\u00e1gica.<\/p>\n<p>Embora a estrutura e a composi\u00e7\u00e3o do v\u00edrus da dengue (e seus quatro sorotipos) tenham sido amplamente estudadas, o fen\u00f3tipo de infec\u00e7\u00e3o e a atua\u00e7\u00e3o de pequenas mol\u00e9culas, como \u00e9 o caso dos lip\u00eddios, eram ainda pouco estabelecidos.<\/p>\n<p>A dengue \u00e9 uma doen\u00e7a aguda de evolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida que gera febre e dores pelo corpo. De acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) a doen\u00e7a afeta cerca de 390 milh\u00f5es de pessoas no mundo todos os anos. Uma parcela pequena dos casos de dengue pode evoluir para a febre hemorr\u00e1gica, muito mais letal. Geralmente, embora n\u00e3o se saiba o motivo, esses casos s\u00e3o de crian\u00e7as e pessoas infectadas mais de uma vez pelos sorotipos do v\u00edrus da dengue.<\/p>\n<p>\u201cSabe-se que quanto antes a febre hemorr\u00e1gica for identificada, maior a chance de sobrevida do paciente. Por\u00e9m, como ainda n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel saber quando a doen\u00e7a vai evoluir, \u00e9 muito comum que pacientes cujo quadro da doen\u00e7a evolui para a febre hemorr\u00e1gica sejam mandados para casa, antes de a situa\u00e7\u00e3o ser agravada\u201d, disse.<\/p>\n<p>De acordo com os pesquisadores, a descoberta do mecanismo que leva \u00e0 febre hemorr\u00e1gica pode ter impacto no desenvolvimento de novos tratamentos e vacinas.<\/p>\n<p>\u201cNosso objetivo principal \u00e9 desenvolver os testes que indicam a ocorr\u00eancia de dengue hemorr\u00e1gica e tamb\u00e9m identificar melhor o processo da doen\u00e7a. Ela demora tr\u00eas, quatro ou mais dias para se manifestar? Nem isso sabemos ao certo. Outra linha interessante \u00e9 correlacionar este mecanismo que descobrimos com vacinas. Atualmente uma das dificuldades de imuniza\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente a dengue hemorr\u00e1gica\u201d, disse Catharino.<\/p>\n<p>De acordo com o que se sabia na literatura cient\u00edfica, o desfecho da infec\u00e7\u00e3o pelo v\u00edrus da dengue depende de in\u00fameros fatores relacionados ao in\u00edcio da infec\u00e7\u00e3o viral, como a carga viral, presen\u00e7a de anticorpos n\u00e3o neutralizantes, recrutamento de c\u00e9lulas e produ\u00e7\u00e3o de mediadores imunes.<\/p>\n<p>\u201cEsses fatores determinam se o ambiente \u00e9 favor\u00e1vel ou desfavor\u00e1vel para a progress\u00e3o da doen\u00e7a, controlando a infec\u00e7\u00e3o viral ou prejudicando a rea\u00e7\u00e3o inflamat\u00f3ria, associada \u00e0 permeabilidade vascular. No entanto, a falta de marcadores imunol\u00f3gicos confi\u00e1veis e outros metab\u00f3licos para as respostas protetivas ou patol\u00f3gicas era uma lacuna importante que dificultava o desenvolvimento de novos testes diagn\u00f3sticos ou candidatos \u00e0 vacina\u201d, afirmam os pesquisadores no artigo.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0The role of lipids in the inception, maintenance and complications of dengue virus infection\u00a0(doi: 10.1038\/s41598-018-30385-x), de Carlos Fernando Odir Rodrigues Melo, Jeany Delafiori, Mohamad Ziad Dabaja, Diogo Noin de Oliveira, Tatiane Melina Guerreiro, Tatiana Elias Colombo, Maur\u00edcio Lacerda Nogueira, Jose Luiz Proenca-Modena &amp; Rodrigo Ramos Catharino, pode ser lido em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Fernanda Ziegler\u00a0 |\u00a0 Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Pacientes infectados pelo v\u00edrus da dengue poder\u00e3o contar, no futuro pr\u00f3ximo, com exames de sangue capazes de identificar se a doen\u00e7a pode evoluir para o tipo mais letal, a dengue hemorr\u00e1gica. 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