{"id":155256,"date":"2018-10-15T23:54:48","date_gmt":"2018-10-16T02:54:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=155256"},"modified":"2018-10-15T21:58:03","modified_gmt":"2018-10-16T00:58:03","slug":"estudo-destaca-estreita-relacao-entre-alcool-drogas-e-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2018\/estudo-destaca-estreita-relacao-entre-alcool-drogas-e-violencia\/155256","title":{"rendered":"Estudo destaca estreita rela\u00e7\u00e3o entre \u00e1lcool, drogas e viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p> Peter Moon | Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Um grupo da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) publicou os resultados de uma pesquisa a respeito da <strong><em>associa\u00e7\u00e3o entre o consumo de \u00e1lcool e drogas com a ocorr\u00eancia de mortes violentas<\/em><\/strong>. O trabalho coloca em n\u00fameros os dados dessa rela\u00e7\u00e3o, no caso, na cidade de S\u00e3o Paulo. A descoberta \u00e9 que o consumo de \u00e1lcool ou de pelo menos um tipo de droga guarda associa\u00e7\u00e3o com mais da metade (55%) das mortes violentas ocorridas na capital paulista entre 2014 e 2015.<\/p>\n<p>O trabalho \u00e9 resultado do p\u00f3s-doutorado do epidemiologista\u00a0, com a supervis\u00e3o do professor\u00a0, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, e em colabora\u00e7\u00e3o com o Departamento de Medicina Legal da mesma universidade, com a University of California, Berkeley, e apoio do Instituto M\u00e9dico Legal (IML) de S\u00e3o Paulo. O artigo foi\u00a0\u00a0no peri\u00f3dico\u00a0Injury\u00a0e contou com\u00a0\u00a0da FAPESP.<\/p>\n<p>Para obter dados para o levantamento, Andreuccetti empregou um m\u00e9todo de amostragem probabil\u00edstica usando a cidade de S\u00e3o Paulo como popula\u00e7\u00e3o-alvo.<\/p>\n<p>\u201cOs casos amostrados eram v\u00edtimas adultas, feridas fatalmente, que tiveram causa de morte s\u00fabita, inesperada, violenta ou de outra forma n\u00e3o natural, e que deram entrada nas principais instala\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas forenses que atendem toda a cidade e seus 96 distritos\u201d, disse \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Segundo a legisla\u00e7\u00e3o, as v\u00edtimas de morte s\u00fabita, inesperada ou violenta devem obrigatoriamente ser submetidas a um procedimento de aut\u00f3psia pelas equipes de per\u00edcias m\u00e9dico-legais (EPML). Anualmente, ocorrem em S\u00e3o Paulo cerca de 7 mil mortes que se enquadram nessa classifica\u00e7\u00e3o. A maioria \u00e9 composta por homic\u00eddios (26%), seguida pelos \u00f3bitos relacionados ao tr\u00e2nsito (20%) e por suic\u00eddios (10%).<\/p>\n<p>O trabalho de levantamento de casos de mortes violentas ocorreu entre junho de 2014 e dezembro de 2015. Para obter uma amostra representativa da cidade, Andreuccetti coletou amostras de sangue de cad\u00e1veres durante aut\u00f3psias pelas diversas EPML da cidade, em diferentes dias e hor\u00e1rios da semana, ao longo de 19 meses.<\/p>\n<p>V\u00edtimas que receberam seis ou mais horas de tratamento m\u00e9dico devido ao evento de les\u00e3o ou que sobreviveram pelo mesmo per\u00edodo antes da morte foram exclu\u00eddas da amostra.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 um grande n\u00famero de casos de pessoas que deram entrada no hospital e v\u00e3o parar no Instituto M\u00e9dico Legal. Em muitos destes casos, a les\u00e3o fatal ocorreu de forma violenta ou s\u00fabita, sendo que a v\u00edtima pode ter estado sob efeito de drogas no momento do acidente, crime ou suic\u00eddio. Mas, devido \u00e0 interna\u00e7\u00e3o por mais de seis horas, os vest\u00edgios de \u00e1lcool e drogas no sangue podem sofrer influ\u00eancia ap\u00f3s o evento traum\u00e1tico. Esses casos foram exclu\u00eddos do levantamento\u201d, disse Andreuccetti.<\/p>\n<p>O resultado final do levantamento chegou a uma amostra com 365 mortes, todas violentas, s\u00fabitas ou inesperadas, que deram entrada no IML. A amostra reuniu 104 homic\u00eddios (28,5% do total), 56 v\u00edtimas de acidentes de tr\u00e2nsito (ou 15,3%), 44 suic\u00eddios (12,1%), 26 quedas (7,1%) e 21 casos de envenenamento ou intoxica\u00e7\u00e3o (5,8%). Em 114 casos (31,2%), a morte s\u00fabita ou violenta ocorreu de formas que n\u00e3o as anteriores.<\/p>\n<p>\u201cDevido a diversas a\u00e7\u00f5es governamentais no come\u00e7o da d\u00e9cada (2010), a mortalidade no tr\u00e2nsito paulistano caiu consideravelmente, junto com a mortalidade por homic\u00eddios que vem caindo desde a d\u00e9cada passada. Hoje a taxa de mortes por homic\u00eddios \u00e9 maior do que no tr\u00e2nsito. Mas S\u00e3o Paulo \u00e9 um caso at\u00edpico. No Brasil como um todo, essas flutua\u00e7\u00f5es foram bem menores, e continua-se morrendo muito por essas duas causas\u201d, disse Andreuccetti.<\/p>\n<p>Homens e jovens<\/p>\n<p>Uma vez estabelecidas as situa\u00e7\u00f5es onde ocorreram as mortes, o passo seguinte foi identificar quais apresentavam vest\u00edgios de \u00e1lcool ou de drogas no sangue. Para tanto, amostras de sangue de todas as v\u00edtimas foram submetidas a uma triagem abrangente dos casos positivos para uma variedade de medicamentos, drogas il\u00edcitas e \u00e1lcool.<\/p>\n<p>Foram verificadas a concentra\u00e7\u00e3o de \u00e1lcool no sangue (via cromatografia gasosa), bem como a presen\u00e7a de outras drogas, incluindo anfetaminas, sedativos (calmantes) e ansiol\u00edticos (barbit\u00faricos e benzodiazep\u00ednicos), maconha, coca\u00edna, opioides (metadona, morfina, hero\u00edna) e p\u00f3 de anjo (fenciclidina). A presen\u00e7a de drogas no sangue foi detectada por meio do ensaio de imunoabsor\u00e7\u00e3o enzim\u00e1tica (ELISA), posteriormente confirmada por espectrometria de massa.<\/p>\n<p>Das 365 v\u00edtimas, 202 (55,3%) haviam ingerido \u00e1lcool antes de morrer, ou estavam sob efeito de drogas no momento do falecimento, sendo que 63 s\u00f3 ingeriram \u00e1lcool, 92 s\u00f3 usaram drogas e 47 fizeram as duas coisas.<\/p>\n<p>\u201cDe cada duas v\u00edtimas, uma apresentava resqu\u00edcios de \u00e1lcool e\/ou drogas no sangue. Isso significa que mais da metade das v\u00edtimas fez uso de \u00e1lcool ou drogas imediatamente antes de morrer\u201d, disse Andreuccetti.<\/p>\n<p>O \u00e1lcool foi a subst\u00e2ncia mais prevalente entre as v\u00edtimas que fizeram uso de qualquer tipo de subst\u00e2ncia psicoativa, seguido pela coca\u00edna, maconha e os calmantes e ansiol\u00edticos. Mais especificamente, entre as 202 v\u00edtimas positivas para \u00e1lcool e\/ou drogas, 30,1% ingeriram \u00e1lcool, 21,9% coca\u00edna, 14% maconha e 11,5% benzodiazep\u00ednicos. 16,2% usaram \u00e1lcool e qualquer uma dessas drogas.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o esper\u00e1vamos preval\u00eancia t\u00e3o elevada de drogas na amostragem. De cada cinco v\u00edtimas que usaram drogas, quatro usaram coca\u00edna ou maconha. \u00c9 um dado preocupante\u201d, disse Andreuccetti.<\/p>\n<p>No caso das v\u00edtimas de acidentes de tr\u00e2nsito, quase metade (42,9%) tinha tra\u00e7os de \u00e1lcool no sangue e uma em cinco (21,4%) estava sob efeito de uma ou mais subst\u00e2ncias. \u201cIsso mostra que as drogas influenciam mais a viol\u00eancia interpessoal e o \u00e1lcool os acidentes de tr\u00e2nsito\u201d, disse Andreuccetti.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o aos homic\u00eddios, em nada menos que 59,6% das mortes foi acusada a presen\u00e7a de alguma subst\u00e2ncia psicoativa ou \u00e1lcool no sangue, sendo que 16,3% usaram \u00e1lcool e coca\u00edna juntos.<\/p>\n<p>No que tange aos casos de suic\u00eddio, o \u00e1lcool teve a menor representa\u00e7\u00e3o de toda a amostragem. Apenas 9,1% do suicidas haviam ingerido \u00e1lcool. Por outro lado, foi nesse grupo que o uso de benzodiazep\u00ednicos se revelou um dos mais prevalentes. Um em cada cinco estava sob efeito desses medicamentos (18,2%).<\/p>\n<p>Do total de 202 mortes positivas para o uso de \u00e1lcool ou drogas, havia nove homens para cada mulher. E cerca de uma em cada tr\u00eas v\u00edtimas tinha menos de 30 anos. \u201c\u00c9 nessa faixa que se concentra o maior n\u00famero de v\u00edtimas de homic\u00eddio no Brasil. E foi nessa faixa et\u00e1ria que se verificou uma maior preval\u00eancia do uso de outras drogas, em combina\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o com o \u00e1lcool\u201d, disse Andreuccetti.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o \u00e9tnica se mostrou similar: metade dos mortos era branco (50,3%) e a outra metade composta por indiv\u00edduos de outra etnia (pardos, negros, etc.) (49,7%). 60,5% das mortes ocorreram no per\u00edodo das 6 da tarde \u00e0s 6 da manh\u00e3. Morre-se de forma violenta mais \u00e0 noite do que de dia na cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Hist\u00f3rico criminal<\/p>\n<p>Um dado revelador \u00e9 que, das 365 mortes, 15,9% das v\u00edtimas tinham algum hist\u00f3rico criminal. Entre esses, o uso de outras drogas al\u00e9m do \u00e1lcool e o uso m\u00faltiplo de subst\u00e2ncias foram maiores do que entre as v\u00edtimas que n\u00e3o possu\u00edam hist\u00f3rico criminal.<\/p>\n<p>Sempre que poss\u00edvel, Andreuccetti tentou quantificar as v\u00edtimas segundo o local de ocorr\u00eancia da les\u00e3o fatal. Isso foi feito verificando-se a regi\u00e3o da cidade onde o evento da les\u00e3o ocorreu. Assim sendo, inferiu-se que a maioria das mortes por viol\u00eancia quando sob a influ\u00eancia de drogas ocorre no centro e na periferia, ou seja, onde se concentram os maiores centros de com\u00e9rcio e a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda, respectivamente.<\/p>\n<p>\u201cIsso sugere que h\u00e1 um componente socioecon\u00f4mico, mas para sabermos mais seria necess\u00e1rio realizar um estudo espec\u00edfico. Por outro lado, o uso de \u00e1lcool associado a essas mortes parece estar mais disseminado por toda a cidade de S\u00e3o Paulo\u201d, disse Andreuccetti.<\/p>\n<p>De acordo com o epidemiologista, conhecer essas estat\u00edsticas \u00e9 um passo importante para tentar come\u00e7ar a reduzir os n\u00fameros de mortes violentas relacionadas ao consumo de \u00e1lcool e drogas na cidade de S\u00e3o Paulo e em outras grandes cidades do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;Todas essas mortes causam um preju\u00edzo enorme \u00e0 sociedade em termos de servi\u00e7os hospitalares e socorro de emerg\u00eancia, sem falar na dor para os familiares e no significado da perda pela viol\u00eancia de uma pessoa que poderia continuar trabalhando, estudando e produzindo\u201d, disse.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Alcohol in combination with illicit drugs among fatal injuries in Sao Paulo, Brazil: An epidemiological study on the association between acute substance use and injury, de G. Andreuccetti, C.J. Cherpitel, H.B. Carvalho, V. Leyton, I.D. Miziara, D.R. Munoz, A.L. Reingold e N.P. Lemos, est\u00e1 dispon\u00edvel on-line em:\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Peter Moon | Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Um grupo da Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) publicou os resultados de uma pesquisa a respeito da associa\u00e7\u00e3o entre o consumo de \u00e1lcool e drogas com a ocorr\u00eancia de mortes violentas. 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