{"id":3198,"date":"2009-06-19T09:10:30","date_gmt":"2009-06-19T13:10:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=3198"},"modified":"2009-07-27T02:11:20","modified_gmt":"2009-07-27T02:11:20","slug":"fertilizantes-demais-ou-de-menos-gera-prejuizo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2009\/fertilizantes-demais-ou-de-menos-gera-prejuizo\/3198","title":{"rendered":"Fertilizantes demais ou de menos gera preju\u00edzo"},"content":{"rendered":"<p>As \u00e1reas utilizadas para cultivo agr\u00edcola em todo o mundo cont\u00eam fertilizantes demais \u2013 ou de menos. E os dois extremos implicam elevados custos tanto para o ambiente como para o pr\u00f3prio homem.<\/p>\n<p>Os fertilizantes sint\u00e9ticos aumentaram enormemente a produ\u00e7\u00e3o de alimentos, mas o custo da polui\u00e7\u00e3o gerada pelo uso desenfreado tem sido cada vez maior \u2013 como a cria\u00e7\u00e3o de zonas mortas, impratic\u00e1veis para o cultivo, em \u00e1reas costeiras no Golfo do M\u00e9xico e em outros locais. De outro lado, muitas \u00e1reas precisam de um uso mais intensivo desses refor\u00e7os qu\u00edmicos, para repor os nutrientes perdidos por conta da agricultura.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o paradoxal \u00e9 destaque em um artigo publicado na edi\u00e7\u00e3o desta sexta-feira (19\/6) da revista <em>Science<\/em>, escrito por um grupo internacional de pesquisadores, entre eles o professor Luiz Antonio Martinelli, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de S\u00e3o Paulo, um dos coordenadores da \u00e1rea de biologia da FAPESP.<\/p>\n<p>Os pesquisadores analisaram o cultivo de milho em tr\u00eas diferentes pa\u00edses e contextos: Qu\u00eania, China e Estados Unidos. Nas pequenas planta\u00e7\u00f5es no pa\u00eds africano, solos antes f\u00e9rteis est\u00e3o se empobrecendo \u00e0 medida que os cultivos removem mais nutrientes do que os adicionados pelos esfor\u00e7os de fertiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No pa\u00eds mais populoso do planeta, campos s\u00e3o fertilizados de modo mais intenso do que em qualquer outro cen\u00e1rio, atual ou anterior, que tem levado o excesso de fertilizantes para o ambiente, degradando a qualidade da \u00e1gua e do ar, em grande problema ambiental.<\/p>\n<p>O terceiro contexto analisado est\u00e1 no meio-oeste dos Estados Unidos, no qual a quantia de fertilizante empregada na agricultura de milho (em rod\u00edzio com a soja) era elevada, mas tem sido reduzida desde a d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p>Os impactos negativos ao ambiente da utiliza\u00e7\u00e3o desenfreada de fertilizantes qu\u00edmicos t\u00eam levado muitos especialistas a defender uma dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o nesse uso, mas os autores do novo estudo apontam o problema de se adotar uma medida como essa, \u00fanica, para todos os contextos agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>Enquanto algumas regi\u00f5es usam fertilizantes demais, com s\u00e9rios impactos ambientais, em outras, como na \u00c1frica subsaariana, onde mais de 250 milh\u00f5es de pessoas est\u00e3o insuficientemente nutridas, as quantidades adicionadas de nitrog\u00eanio, f\u00f3sforo e de outros produtos s\u00e3o insuficientes para manter a fertilidade m\u00ednima do solo.<\/p>\n<p>Na China, onde a fabrica\u00e7\u00e3o de fertilizantes \u00e9 subsidiada pelo governo, a produtividade m\u00e9dia por hectare aumentou 98% entre 1977 e 2005. O motivo \u00e9 o uso de refor\u00e7os como o nitrog\u00eanio, cujo uso cresceu 271% no per\u00edodo. \u201cAs adi\u00e7\u00f5es de nutrientes superou em muito as verificadas nos Estados Unidos e no oeste da Europa e grande parte da fertiliza\u00e7\u00e3o excessiva se perde no ambiente, degradando tanto a qualidade do ar como da \u00e1gua\u201d, destacam os autores.<\/p>\n<p>O artigo aponta que agricultores no norte da China usam em m\u00e9dia 588 quilos de fertilizantes \u00e0 base de nitrog\u00eanio por hectare cultivado, resultando em uma libera\u00e7\u00e3o de 227 gramas de excesso do elemento qu\u00edmico no ambiente. Segundo os pesquisadores, o uso poderia ser cortado pela metade sem perda na produtividade.<\/p>\n<p>No outro extremo est\u00e3o os pa\u00edses mais pobres do mundo. No Qu\u00eania, por exemplo, os agricultores usam em m\u00e9dia 7 quilos de fertilizantes \u00e0 base de nitrog\u00eanio por hectare. Muito pouco para repor os cerca de 52 quilos de nitrog\u00eanio por hectare que s\u00e3o perdidos anualmente pelas culturas agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>A diminui\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, como verificada nos Estados Unidos, onde o superuso de fertilizantes era a norma entre as d\u00e9cadas de 1970 e 1990. No per\u00edodo, toneladas de nitrog\u00eanio em excesso foram parar no Golfo do M\u00e9xico, levadas pelo rio Mississipi, formando zonas mortas com quantidades \u00ednfimas de oxig\u00eanio.<\/p>\n<p>Desde a d\u00e9cada de 1990, entretanto, o uso tem sido reduzido, mas sem impactar a produtividade, devido ao uso de melhores t\u00e9cnicas agr\u00edcolas. Mesmo usando seis vezes menos fertilizantes do que os chineses, os agricultores no meio-oeste norte-americano conseguem produtividade semelhante.<\/p>\n<p><strong>Desafio e oportunidade<\/strong><\/p>\n<p>O Brasil est\u00e1 no meio dos extremos. As \u00e1reas cultiv\u00e1veis n\u00e3o est\u00e3o sendo nutridas de modo insuficiente e o uso de fertilizantes, em geral, est\u00e1 longe do cen\u00e1rio dram\u00e1tico encontrado na China. Para Martinelli, que tamb\u00e9m \u00e9 professor visitante da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, o Brasil est\u00e1 em um momento crucial em rela\u00e7\u00e3o ao problema, e precisa saber equilibrar corretamente o desenvolvimento agr\u00edcola com a prote\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Martinelli acaba de produzir um artigo junto com Solange Filoso, do Centro de Ci\u00eancia Ambiental da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, ainda n\u00e3o publicado, no qual descreve a transforma\u00e7\u00e3o da agricultura brasileira nas \u00faltimas d\u00e9cadas e ressalta a import\u00e2ncia de se preservar um de seus bens mais valiosos.<\/p>\n<p>\u201cNo futuro pr\u00f3ximo, o Brasil poder\u00e1 se tornar um dos primeiros pa\u00edses a atingir um est\u00e1gio satisfat\u00f3rio de desenvolvimento ao mesmo tempo em que preserva a sua fenomenal biodiversidade e seus importantes ecossistemas\u201d, destacam os autores no artigo encaminhado por Martinelli \u00e0 <strong>Ag\u00eancia FAPESP<\/strong>.<\/p>\n<p>O artigo apresenta diversos n\u00fameros sobre a evolu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola no pa\u00eds. Entre 1961 e 2007, a \u00e1rea plantada com soja cresceu quase 8.000% e a produtividade, mais de 20.000%. A \u00e1rea com milho cresceu menos, dobrando no mesmo per\u00edodo, mas a produtividade aumentou em cinco vezes.<\/p>\n<p>Apenas nos \u00faltimos dois anos, por conta da ado\u00e7\u00e3o em massa de biocombust\u00edveis, a \u00e1rea plantada com cana-de-a\u00e7\u00facar passou de 6 milh\u00f5es para 9 milh\u00f5es de hectares. A pecu\u00e1ria continua com o maior uso da terra: cerca de 200 milh\u00f5es de hectares.<\/p>\n<p>Por outro lado, a \u00e1rea desflorestada na Amaz\u00f4nia aumentou em mais de 400% desde a d\u00e9cada de 1970, passando dos 70 milh\u00f5es de hectares em 2007.<\/p>\n<p>O uso de fertilizantes aumentou grandemente desde a d\u00e9cada de 1960: pot\u00e1ssio (6.000%), nitrog\u00eanio (4.000%) e f\u00f3sforo (2.500%). Apesar de elevados, os n\u00fameros resultaram em uso ainda muito inferior ao verificado nos pa\u00edses desenvolvidos \u2013 e muito abaixo dos valores chineses.<\/p>\n<p>Mas Luiz Martinelli e Solange Filoso apontam que o cen\u00e1rio brasileiro pode piorar rapidamente, especialmente se o pa\u00eds continuar no ritmo atual de desflorestamento.<\/p>\n<p>\u201cApesar dos avan\u00e7os econ\u00f4micos, \u00e9 fundamental que entendamos que a fronteira agr\u00edcola brasileira n\u00e3o pode avan\u00e7ar indefinitivamente. A expans\u00e3o cont\u00ednua colocar\u00e1 em risco n\u00e3o apenas a megabiodiversidade da flora e da fauna brasileiras como as fun\u00e7\u00f5es vitais que os ecossistemas fornecem para sustentar os sistemas agr\u00edcolas\u201d, apontam.<\/p>\n<p>Eles destacam a urg\u00eancia de que os tomadores de decis\u00e3o e a sociedade compreendam os limites dos ecossistemas e que, se isso ocorrer, h\u00e1 uma boa chance de o Brasil continuar a se desenvolver mantendo a sua biodiversidade, que poder\u00e1 vir a ser, no futuro, um bem ainda mais valioso do que \u00e9 hoje. \u201cDevemos agir agora, n\u00e3o amanh\u00e3, porque poucos pa\u00edses desenvolvidos tiveram oportunidade como essa\u201d, afirmam.<\/p>\n<p>Os autores apontam ainda a estreita inter-rela\u00e7\u00e3o entre os ecossistemas e os sistemas agropecu\u00e1rios em todo o mundo. \u201cPodemos dizer, por exemplo, que um porco na China, alimentado com soja brasileira, depende da \u00e1gua da Amaz\u00f4nia\u201d, apontam, lembrando que, de acordo com diferentes modelos clim\u00e1ticos, se o desflorestamento na regi\u00e3o amaz\u00f4nica atingir um ponto cr\u00edtico, haver\u00e1 uma queda significativa na produ\u00e7\u00e3o de chuva em outras partes do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O artigo <em>Nutrient imbalances in agricultural development<\/em>, de Luiz A. Martinelli e outros, pode ser lido por assinantes da <em>Science<\/em> em <strong><a href=\"http:\/\/www.sciencemag.org\/\" target=\"_blank\">www.sciencemag.org<\/a><\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia FAPESP<\/strong> \u2013<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As \u00e1reas utilizadas para cultivo agr\u00edcola em todo o mundo cont\u00eam fertilizantes demais \u2013 ou de menos. E os dois extremos implicam elevados custos tanto para o ambiente como para o pr\u00f3prio homem. 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