{"id":44228,"date":"2013-05-13T13:15:30","date_gmt":"2013-05-13T16:15:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=44228"},"modified":"2013-05-13T15:17:51","modified_gmt":"2013-05-13T18:17:51","slug":"novas-tecnologias-vao-revolucionar-uso-do-teste-de-dna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2013\/novas-tecnologias-vao-revolucionar-uso-do-teste-de-dna\/44228","title":{"rendered":"Novas tecnologias v\u00e3o revolucionar uso do teste de DNA"},"content":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Desde meados da d\u00e9cada de 1990, quando o jogador de futebol americano O. J. Simpson foi a julgamento pelo assassinato da ex-mulher Nicole Brown e de seu amigo Ronald Goldman, o exame de <em><strong>DNA<\/strong><\/em> tem se revelado uma das principais ferramentas da ci\u00eancia forense para a identifica\u00e7\u00e3o de suspeitos.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, o tempo entre a coleta da amostra na cena do crime e o t\u00e9rmino do relat\u00f3rio pelos especialistas n\u00e3o era menor que oito semanas. Hoje, em laborat\u00f3rio, j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel realizar todo o processo em menos de uma hora. De l\u00e1 para c\u00e1, tamb\u00e9m se tornou vi\u00e1vel a realiza\u00e7\u00e3o do exame com amostras menores de DNA e em pior estado de conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos respons\u00e1veis pelos avan\u00e7os nessa tecnologia \u00e9 o americano John Marshall Butler, pesquisador do National Institute of Standards and Technology (NIST), dos Estados Unidos, que esteve em S\u00e3o Paulo na semana passada para um congresso. Na \u00e9poca em que o caso O.J. Simpson estava em evid\u00eancia, o cientista ainda cursava o doutorado no laborat\u00f3rio do Federal Bureau of Investigation (FBI), em Washington.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nesse per\u00edodo estava sendo desenvolvida a tecnologia at\u00e9 hoje mais usada em exames de DNA no mundo inteiro, que consiste na an\u00e1lise de marcadores do tipo STR (Short Tandem Repeat, ou Regi\u00f5es Repetitivas Polim\u00f3rficas), \u00fanicos em cada indiv\u00edduo. Em sua tese, Butler desenvolveu um m\u00e9todo para separar os fragmentos de DNA para a an\u00e1lise por meio de eletroforese capilar (t\u00e9cnica de separa\u00e7\u00e3o de mol\u00e9culas carregadas por meio de um campo el\u00e9trico). Isso permitiu automatizar algumas etapas do teste STR, tornando-o mais simples, preciso e poss\u00edvel de ser feito em oito horas.<\/p>\n<p>Seu mais influente trabalho, no entanto, foi publicado em 2003 \u2013 \u00e9poca em que integrava o grupo de cientistas que orientou a identifica\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas do atentado terrorista ao World Trade Center, ocorrido em 11 de setembro de 2001.<\/p>\n<p>No artigo \u201c<a href=\"http:\/\/cstl.nist.gov\/strbase\/pub_pres\/Butler2003d.pdf\" target=\"_blank\">The development of reduced size STR amplicons as tools for analysis of degraded DNA<\/a>\u201d, publicado no\u00a0Journal of Forensic Sciences, Butler e colaboradores descreveram um m\u00e9todo\u00a0conhecido como mini-STR, que tornou poss\u00edvel realizar o exame com amostras menores e mais fragmentadas de DNA.<\/p>\n<p>\u201cHavia muitos corpos carbonizados ou muito danificados pelo impacto do desabamento das torres. Precis\u00e1vamos de m\u00e9todos mais sens\u00edveis\u201d, disse em entrevista \u00e0\u00a0Ag\u00eancia FAPESP\u00a0concedida durante o 4\u00ba Congresso Brasileiro de Gen\u00e9tica Forense, do qual foi um dos principais destaques.<\/p>\n<p>O evento, realizado com apoio da FAPESP, reuniu no Memorial da Am\u00e9rica Latina, entre os dias 7 e 10 de maio, os mais renomados nomes da \u00e1rea.<\/p>\n<p>Em sua apresenta\u00e7\u00e3o, Butler \u2013 autor de quatro livros sobre o tema \u2013 falou sobre \u201cO estado da arte do DNA forense\u201d e revelou o que espera para o futuro: obter de uma amostra de DNA informa\u00e7\u00f5es como cor de olho, cabelo, pele ou formato da face, para ajudar ainda mais a pol\u00edcia na identifica\u00e7\u00e3o de criminosos.<\/p>\n<p>Leia a seguir trechos da entrevista.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Quando iniciou sua gradua\u00e7\u00e3o em Qu\u00edmica j\u00e1 tinha a inten\u00e7\u00e3o de trabalhar com ci\u00eancia forense?<br \/>\nJohn Marshall Butler\u00a0\u2013 Sim. Eu tinha muito interesse na \u00e1rea de Direito, mas me aconselharam a n\u00e3o seguir esse caminho porque j\u00e1 havia muitos advogados nos Estados Unidos. Como eu tamb\u00e9m gostava muito de ci\u00eancia, procurei uma \u00e1rea em que pudesse unir as duas coisas.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Nessa \u00e9poca o exame de DNA ainda estava come\u00e7ando. Como foi a evolu\u00e7\u00e3o desde ent\u00e3o e qual foi sua contribui\u00e7\u00e3o?<br \/>\nButler\u00a0\u2013 O exame surgiu em meados da d\u00e9cada de 1980 na Inglaterra. A tecnologia original desenvolvida para testes forenses era a\u00a0Restriction fragment length polymorphism\u00a0(RFLP), que basicamente analisa as diferen\u00e7as no comprimento dos fragmentos de DNA. Foi o m\u00e9todo usado no caso O. J. Simpson. O resultado levava cerca de oito semanas para ficar pronto. Al\u00e9m disso, essa t\u00e9cnica requer uma amostra grande e intacta de DNA. Era necess\u00e1rio ter uma mancha de sangue de v\u00e1rios cent\u00edmetros e ela n\u00e3o poderia ter sido tocada. Se algu\u00e9m colocasse o dedo ou pisasse sobre a mancha, a evid\u00eancia estava arruinada. Mas, nessa \u00e9poca, estava come\u00e7ando a ser desenvolvida a tecnologia mais usada at\u00e9 hoje para DNA forense, que consiste na an\u00e1lise de marcadores do tipo STR. Esse m\u00e9todo permite fazer an\u00e1lises com amostras menores de DNA. Quando o material deixado na cena do crime tem poucas c\u00e9lulas, podemos copiar regi\u00f5es espec\u00edficas do DNA usando um m\u00e9todo chamado PCR (rea\u00e7\u00e3o em cadeia da polimerase, na sigla em ingl\u00eas). Copiamos a regi\u00e3o chamada STR \u2013 uma pequena por\u00e7\u00e3o do DNA repetida no meio da mol\u00e9cula \u2013 que pode ter v\u00e1rios comprimentos. Quanto maior o n\u00famero de repeti\u00e7\u00f5es, maior o tamanho da mol\u00e9cula e cada indiv\u00edduo tem um padr\u00e3o \u00fanico. Sabendo o n\u00famero de repeti\u00e7\u00f5es, podemos colocar essa informa\u00e7\u00e3o em um banco de dados e comparar com dados de suspeitos. Eu era aluno da Universidade de Virginia nessa \u00e9poca e cursava meu p\u00f3s-doutorado no laborat\u00f3rio do FBI. Desenvolvi um m\u00e9todo de separa\u00e7\u00e3o dos fragmentos de DNA por meio de eletroforese capilar. Isso reduziu o tempo de realiza\u00e7\u00e3o do exame STR para cerca de oito horas.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Seu trabalho mais famoso, no entanto, est\u00e1 relacionado ao m\u00e9todo mini-STR, de 2003. Como funciona?<br \/>\nButler\u00a0\u2013 O exame STR original tem como alvo uma grande se\u00e7\u00e3o do DNA, embora a parte repetida fique numa pequena \u00e1rea no meio da mol\u00e9cula. O mini-STR basicamente prop\u00f5e usar como alvo uma se\u00e7\u00e3o menor do DNA, com o objetivo de capturar apenas a varia\u00e7\u00e3o que ocorre na regi\u00e3o das repeti\u00e7\u00f5es. Ou seja, voc\u00ea consegue a mesma informa\u00e7\u00e3o com um peda\u00e7o menor de DNA; por isso, o m\u00e9todo funciona melhor nos casos em que a amostra est\u00e1 danificada, em que foi exposta \u00e0 \u00e1gua, ao calor ou \u00e0s condi\u00e7\u00f5es ambientais por longos per\u00edodos. Esse tipo de situa\u00e7\u00e3o faz com que a mol\u00e9cula de DNA v\u00e1 se quebrando em peda\u00e7os cada vez menores. N\u00f3s publicamos os primeiros trabalhos sobre o tema na \u00e9poca da identifica\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas do atentado ao World Trade Center. Precis\u00e1vamos de m\u00e9todos mais sens\u00edveis porque havia muitos corpos carbonizados ou muito danificados pelo impacto do desabamento das torres. Depois de algum tempo, algumas empresas transformaram essa tecnologia em kits comerciais.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 O senhor ajudou no trabalho de identifica\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas de 11 de setembro de 2001?<br \/>\nButler\u00a0\u2013 Pessoalmente n\u00e3o identifiquei ningu\u00e9m, mas eu integrava um comit\u00ea de 25 cientistas que se reuniu ao longo de sete anos e tinha como miss\u00e3o orientar o trabalho de identifica\u00e7\u00e3o desenvolvido em um laborat\u00f3rio de Nova York.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Quais foram os avan\u00e7os desde ent\u00e3o?<br \/>\nButler\u00a0\u2013 Desenvolvemos m\u00e9todos para acelerar ainda mais todo o processo do exame, desde a coleta da amostra de DNA at\u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o dos resultados. O tempo para fazer as c\u00f3pias de DNA por PCR foi encurtado dramaticamente, usando enzimas diferentes e ciclos curtos de aquecimento e resfriamento do material. No laborat\u00f3rio, j\u00e1 conseguimos fazer tudo em menos de uma hora.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Mas isso, por enquanto, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel em n\u00edvel de pesquisa?<br \/>\nButler\u00a0\u2013 Sim. Para que se torne rotina \u00e9 preciso que as empresas criem os kits comerciais. Parte do desafio da ci\u00eancia forense \u00e9 que leva um tempo para implementar as novidades \u2013 geralmente s\u00e3o cinco anos entre a cria\u00e7\u00e3o da tecnologia e ela estar pronta para ser usada na corte. A tecnologia STR, por exemplo, tornou-se rotina por volta do ano 2000.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Por que \u00e9 importante acelerar o processo ainda mais,\u00a0em sua opini\u00e3o?<br \/>\nButler\u00a0\u2013 Isso n\u00e3o s\u00f3 permite fazer a compara\u00e7\u00e3o da evid\u00eancia na cena do crime com o suspeito mais rapidamente como tamb\u00e9m amplia as possibilidades de uso do exame. Permitir\u00e1, por exemplo, identificar pessoas suspeitas em aeroportos. Poder\u00e1 tamb\u00e9m ser usada nas embaixadas, como um dos mecanismos de an\u00e1lise na hora de conceder um visto de entrada para um determinado pa\u00eds. Assim como o advento do smartphone revolucionou a forma como a internet \u00e9 usada, as novas tecnologias para exame de DNA v\u00e3o mudar a forma como ele \u00e9 usado. H\u00e1 vantagens e desvantagens. No caso do smartphone, tornou-se poss\u00edvel responder a um e-mail durante uma reuni\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 preciso mais voltar ao escrit\u00f3rio para fazer isso. Mas hoje, possivelmente, as pessoas est\u00e3o mais distra\u00eddas, prestam menos aten\u00e7\u00e3o \u00e0s reuni\u00f5es. Tecnologias mais r\u00e1pidas e mais poderosas para exame de DNA poder\u00e3o impactar a privacidade das pessoas. Mas o Facebook tamb\u00e9m causou um impacto na privacidade das pessoas. Cabe ao indiv\u00edduo usar a tecnologia de forma respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Como funciona o teste do cromossomo Y, conhecido como YSTR, e quando ele pode ser \u00fatil?<br \/>\nButler\u00a0\u2013 Principalmente em crimes sexuais, quando h\u00e1 uma mistura do DNA da v\u00edtima, se ela for mulher, e do agressor, geralmente um homem. O resultado \u00e9 direcionado apenas para a por\u00e7\u00e3o masculina de DNA encontrada na amostra. Os marcadores para o exame do cromossomo Y foram desenvolvidos na mesma \u00e9poca que o teste STR padr\u00e3o, mas s\u00f3 foram de fato adotados quando o primeiro kit comercial ficou dispon\u00edvel, por volta de 2003. Muitos lugares ainda n\u00e3o t\u00eam esse tipo de teste. \u00c9 uma abordagem diferente para obter informa\u00e7\u00f5es da amostra de DNA. Em alguns casos tamb\u00e9m pode ser usado na busca de pessoas desaparecidas, se a v\u00edtima for homem.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 O Brasil acaba de regulamentar uma lei que torna obrigat\u00f3ria a coleta de DNA de pessoas condenadas por crimes hediondos para compor uma base de dados nacionais. Tamb\u00e9m permite, em alguns casos, a coleta de amostras de suspeitos e a cria\u00e7\u00e3o de um banco de material gen\u00e9tico de pessoas desaparecidas. Como isso funciona nos Estados Unidos?<br \/>\nButler\u00a0\u2013 Todos os 50 estados americanos exigem a coleta de DNA ap\u00f3s a condena\u00e7\u00e3o criminal e existe um banco de dados nacional. Em 2006 a legisla\u00e7\u00e3o federal permitiu a coleta de amostras de suspeitos, pessoas presas mas que ainda n\u00e3o foram julgadas. Mas cada estado tem que criar sua pr\u00f3pria lei. Atualmente, isso \u00e9 feito em 28 estados e a Corte Suprema est\u00e1 avaliando o tema. J\u00e1 o banco de dados de pessoas desaparecidas, que cont\u00e9m tanto material de familiares como de ossadas e corpos de desconhecidos encontrados, existe h\u00e1 cerca de dez anos. Com certeza, estamos em est\u00e1gios diferentes, mas com a aprova\u00e7\u00e3o da lei no Brasil os bancos de dados poder\u00e3o crescer rapidamente e ajudar a solucionar muitos casos.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 O que o senhor espera para o futuro do DNA forense?<br \/>\nButler\u00a0\u2013 Conseguir mais informa\u00e7\u00f5es da amostra. Descobrir a forma da face ou a cor dos olhos e dos cabelos. Isso pode ser \u00fatil em certas ocasi\u00f5es e, em outras, n\u00e3o. Se voc\u00ea descobre que o indiv\u00edduo tem olhos castanhos e cabelo castanho, por exemplo, isso \u00e9 muito comum. Mas se voc\u00ea descobre que o criminoso \u00e9 ruivo ou tem uma cor de olho muito diferente, pode ajudar a pol\u00edcia na identifica\u00e7\u00e3o do respons\u00e1vel pelo crime. As t\u00e9cnicas para descobrir a cor da pele ainda n\u00e3o est\u00e3o perfeitas, mas est\u00e3o melhorando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Desde meados da d\u00e9cada de 1990, quando o jogador de futebol americano O. J. Simpson foi a julgamento pelo assassinato da ex-mulher Nicole Brown e de seu amigo Ronald Goldman, o exame de DNA tem se revelado uma das principais ferramentas da ci\u00eancia forense para a identifica\u00e7\u00e3o de suspeitos. 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