{"id":49665,"date":"2013-11-11T14:41:28","date_gmt":"2013-11-11T16:41:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=49665"},"modified":"2013-11-11T14:41:28","modified_gmt":"2013-11-11T16:41:28","slug":"excesso-de-iodo-na-gestacao-e-lactacao-pode-causar-hipotireoidismo-na-prole","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2013\/excesso-de-iodo-na-gestacao-e-lactacao-pode-causar-hipotireoidismo-na-prole\/49665","title":{"rendered":"Excesso de iodo na gesta\u00e7\u00e3o e lacta\u00e7\u00e3o pode causar hipotireoidismo na prole"},"content":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Um experimento feito com ratas na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) mostrou que o consumo excessivo de iodo durante o per\u00edodo de gesta\u00e7\u00e3o e lacta\u00e7\u00e3o pode tornar a prole mais propensa a sofrer de <em><strong>hipotireoidismo<\/strong><\/em> na vida adulta.<\/p>\n<p>O trabalho faz parte do projeto de p\u00f3s-doutorado de Caroline Serrano do Nascimento,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/141538\/impacto-da-exposicao-ao-excesso-de-iodo-durante-a-prenhez-eou-lactacao-sobre-a-atividade-do-eixo-hip\/\" target=\"_blank\">realizado com Bolsa<\/a>\u00a0da FAPESP e supervis\u00e3o da professora Maria Tereza Nunes, do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas (ICB-USP).<\/p>\n<p>\u201cOs efeitos delet\u00e9rios do excesso agudo e cr\u00f4nico de iodo no organismo j\u00e1 est\u00e3o descritos na literatura. Agora, estamos observando que esse elemento desencadeia tamb\u00e9m mecanismos epigen\u00e9ticos, ou seja, o consumo excessivo desse elemento pela m\u00e3e durante a gesta\u00e7\u00e3o e lacta\u00e7\u00e3o gera consequ\u00eancias no desenvolvimento fetal e, aparentemente, programa o organismo do filhote para ficar mais suscet\u00edvel ao desenvolvimento de hipotireoidismo durante a vida adulta\u201d, comentou Nascimento.<\/p>\n<p>O iodo \u00e9 um micronutriente essencial para o homem e demais mam\u00edferos, pois \u00e9 usado na s\u00edntese dos horm\u00f4nios tireoidianos T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina). Al\u00e9m de regular o metabolismo, esses horm\u00f4nios s\u00e3o importantes para o funcionamento adequado de praticamente todos os \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p>J\u00e1 h\u00e1 muitas d\u00e9cadas se sabe que a defici\u00eancia desse mineral pode causar b\u00f3cio, ou seja, um aumento no volume da gl\u00e2ndula tireoide que prejudica seu funcionamento. Sabe-se tamb\u00e9m que a falta de iodo durante a gesta\u00e7\u00e3o pode levar a danos cerebrais em crian\u00e7as, uma vez que os horm\u00f4nios tireoidianos desempenham um papel extremamente importante no desenvolvimento do sistema nervoso central. Por essa raz\u00e3o, no Brasil, tornou-se obrigat\u00f3ria na d\u00e9cada de 1950 a adi\u00e7\u00e3o de iodo no sal de cozinha.<\/p>\n<p>Mas estudos recentes t\u00eam mostrado que o consumo superior \u00e0 dose di\u00e1ria recomendada \u2013 cerca de 150 microgramas \u2013 tamb\u00e9m pode trazer preju\u00edzos ao funcionamento da tireoide. Este ano, uma resolu\u00e7\u00e3o da Anvisa reduziu a faixa de varia\u00e7\u00e3o do iodo no sal de 20 a 60 miligramas por quilo \u2013 quantidade recomendada pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) para popula\u00e7\u00f5es que consomem at\u00e9 10 gramas de sal por dia \u2013 para 15mg\/kg a 45 mg\/kg.<\/p>\n<p>A medida foi tomada ap\u00f3s pesquisas do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade mostrarem que a popula\u00e7\u00e3o brasileira ingere uma taxa de iodo maior do que a recomendada pela OMS em raz\u00e3o do consumo elevado de sal.<\/p>\n<p>Em seu mestrado e doutorado, Nascimento estudou o que acontece no organismo durante uma sobrecarga aguda de iodo. \u201cDesde 1948 se sabe que o excesso agudo exerce um efeito inibit\u00f3rio no tireocito \u2013 a c\u00e9lula da tireoide que produz os horm\u00f4nios tireodianos. \u00c9 um efeito r\u00e1pido e adaptativo, que tem como fun\u00e7\u00e3o proteger a c\u00e9lula daquela sobrecarga moment\u00e2nea. O objetivo do meu mestrado e doutorado foi desvendar as bases moleculares por tr\u00e1s desse fen\u00f4meno\u201d, contou.<\/p>\n<p>Nascimento mostrou que o excesso de iodo diminui a express\u00e3o e atividade de uma prote\u00edna conhecida como NIS, que \u00e9 respons\u00e1vel por transportar este oligoelemento essencial para a bioss\u00edntese de horm\u00f4nios tireoidianos pelos tireocitos.<\/p>\n<p>\u201cQuando a NIS est\u00e1 menos expressa ou n\u00e3o est\u00e1 funcionado adequadamente, o tireocito capta menos iodo e produz menos horm\u00f4nios. Mas, ap\u00f3s o per\u00edodo de inibi\u00e7\u00e3o ou terminada a sobrecarga, a c\u00e9lula volta a sintetizar e secretar horm\u00f4nios normalmente\u201d, disse.<\/p>\n<p>Dados da literatura e tamb\u00e9m de outro estudo conduzido no ICB sob a coordena\u00e7\u00e3o de Nunes, no entanto, indicam que, quando o consumo excessivo de iodo se torna cr\u00f4nico, o tireocito perde a capacidade de se adaptar e de escapar do efeito inibit\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u201cQuando tratamos ratos cronicamente com excesso de iodo, observamos diminui\u00e7\u00e3o na express\u00e3o de diversas prote\u00ednas relacionadas \u00e0 s\u00edntese dos horm\u00f4nios tireoidianos e aumento na express\u00e3o de prote\u00ednas relacionadas \u00e0 inibi\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o do tireocito. Al\u00e9m disso, ocorre um aumento na produ\u00e7\u00e3o de citocinas inflamat\u00f3rias, que podem desencadear um quadro de tireoidite\u201d, contou a pesquisadora.<\/p>\n<p>Segundo Nascimento, h\u00e1 estudos que relacionam o aumento na incid\u00eancia de casos de tireoidites autoimunes, como a tireoidite de Hashimoto, ao excesso de iodo na alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Reprograma\u00e7\u00e3o de genes<\/p>\n<p>Conhecendo os efeitos da exposi\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica ao excesso de iodo e sabendo da import\u00e2ncia dos horm\u00f4nios tireoidianos na gravidez, Nascimento e Nunes decidiram ent\u00e3o investigar os efeitos da sobrecarga durante este importante per\u00edodo do desenvolvimento. Buscaram avaliar se os preju\u00edzos desencadeados pelo excesso de iodo na m\u00e3e poderiam ser transmitidos para seus filhos por meio de mecanismos epigen\u00e9ticos.<\/p>\n<p>No primeiro trimestre da gesta\u00e7\u00e3o, explicou Nascimento, o feto \u00e9 totalmente dependente dos horm\u00f4nios tireoidianos produzidos pela m\u00e3e e qualquer altera\u00e7\u00e3o na s\u00edntese hormonal nessa fase pode causar consequ\u00eancias graves para o desenvolvimento fetal. Ap\u00f3s o segundo trimestre, o beb\u00ea j\u00e1 tem sua pr\u00f3pria tireoide desenvolvida, mas ainda depende do aporte de iodo da m\u00e3e, que \u00e9 feito pela placenta.<\/p>\n<p>\u201cComo a placenta expressa a prote\u00edna NIS, quer\u00edamos descobrir se o excesso de iodo poderia prejudicar o transporte deste elemento para o feto. Al\u00e9m disso, durante a lacta\u00e7\u00e3o, esse transporte tamb\u00e9m poderia ser comprometido pela sobrecarga de iodo, pois a mama tamb\u00e9m expressa NIS. Outro objetivo do estudo \u00e9 investigar se o tratamento da m\u00e3e com excesso de iodo poderia alterar a express\u00e3o de genes na prole ou prejudicar seu desenvolvimento\u201d, explicou Nascimento.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio da gesta\u00e7\u00e3o at\u00e9 o fim da lacta\u00e7\u00e3o, as ratas passaram a receber \u00e1gua contendo uma dose de iodo cinco vezes maior que a recomendada. No caso dos humanos, seria o equivalente a ingerir diariamente o iodo existente em 12 gramas de sal (antes da mudan\u00e7a determinada pela resolu\u00e7\u00e3o da Anvisa). J\u00e1 o grupo controle recebeu apenas a quantidade de iodo considerada ideal.<\/p>\n<p>\u201cOptamos por uma dose equivalente \u00e0 que poderia ser obtida pela popula\u00e7\u00e3o brasileira, que sabidamente come uma quantidade muito grande de sal\u201d, contou Nascimento.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o desmame, aos 21 dias de idade, as proles dos dois grupos passaram a receber ra\u00e7\u00e3o e \u00e1gua com quantidades ideais de iodo. Aos 90 dias de idade, os pesquisadores constataram que os filhotes das ratas submetidas \u00e0 sobrecarga do mineral haviam desenvolvido hipotireoidismo, enquanto os do grupo controle estavam com a tireoide saud\u00e1vel. As m\u00e3es tratadas com excesso de iodo tamb\u00e9m apresentaram quadro de hipotireoidismo, como era esperado, j\u00e1 no fim do per\u00edodo de lacta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cVimos que a maioria dos genes ligados \u00e0 bioss\u00edntese dos horm\u00f4nios tireoidianos estava com a express\u00e3o diminu\u00edda tanto na m\u00e3e, quanto na prole adulta, no grupo exposto ao excesso de iodo durante a gesta\u00e7\u00e3o e lacta\u00e7\u00e3o\u201d, contou Nascimento.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo passo, segundo a pesquisadora, \u00e9 descobrir em que momento da gesta\u00e7\u00e3o ou da lacta\u00e7\u00e3o esse excesso de iodo \u00e9 mais prejudicial. \u201cUma vez que tivermos esclarecido bem os mecanismos que ocorrem na prole, poderemos voltar e descobrir em que fase do desenvolvimento o iodo altera a programa\u00e7\u00e3o g\u00eanica dos animais. Aparentemente, em cada uma das fases h\u00e1 uma resposta diferente na programa\u00e7\u00e3o da express\u00e3o de genes durante a vida adulta\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Apesar de conhecer bem as consequ\u00eancias da ingest\u00e3o excessiva de iodo, Nascimento n\u00e3o defende a ideia de eliminar ou reduzir a adi\u00e7\u00e3o do mineral ao sal. \u201cPenso que o ideal seria investir em pol\u00edticas p\u00fablicas para reduzir o consumo de sal na popula\u00e7\u00e3o, pois dessa forma voc\u00ea evita n\u00e3o apenas preju\u00edzos \u00e0 tireoide como tamb\u00e9m doen\u00e7as cardiovasculares. Com a atual redu\u00e7\u00e3o, por outro lado, n\u00e3o se tem garantia de que as pessoas v\u00e3o ingerir quantidades ideais de iodo se diminu\u00edrem o sal na alimenta\u00e7\u00e3o\u201d, avaliou.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora, conhecer melhor a forma como a prote\u00edna NIS \u00e9 regulada pelo iodo pode trazer perspectivas terap\u00eauticas interessantes.<\/p>\n<p>\u201cA NIS \u00e9 extremamente importante no diagn\u00f3stico e tratamento de c\u00e2ncer de tireoide com iodo radioativo. Muitos trabalhos tentam aumentar a express\u00e3o dessa prote\u00edna em tecidos cancer\u00edgenos, para que eles captem ainda mais o iodo radioativo e a terapia seja mais eficaz. Desta maneira, conhecer como essa prote\u00edna \u00e9 regulada pode trazer perspectivas interessantes no desenvolvimento de terapias que visem tanto o tratamento do c\u00e2ncer de tireoide, como de outros tipos de c\u00e2ncer\u201d, afirmou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Um experimento feito com ratas na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) mostrou que o consumo excessivo de iodo durante o per\u00edodo de gesta\u00e7\u00e3o e lacta\u00e7\u00e3o pode tornar a prole mais propensa a sofrer de hipotireoidismo na vida adulta. 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