{"id":50547,"date":"2013-12-11T14:48:03","date_gmt":"2013-12-11T16:48:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=50547"},"modified":"2013-12-11T14:48:03","modified_gmt":"2013-12-11T16:48:03","slug":"instituto-do-sono-e-referencia-internacional-em-pesquisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2013\/instituto-do-sono-e-referencia-internacional-em-pesquisa\/50547","title":{"rendered":"Instituto do Sono \u00e9 refer\u00eancia internacional em pesquisa"},"content":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Tadeu Arantes Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 O <em><strong>sono<\/strong><\/em> \u00e9 um fant\u00e1stico laborat\u00f3rio de pesquisa ainda pouco explorado pelas ci\u00eancias. Alternando-se com a vig\u00edlia, evolui em ciclos, com intensa atividade qu\u00edmica e biol\u00f3gica, e repercutindo estados emocionais, entre outros.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 nada mais importante na homeostase humana do que ele\u201d, afirmou Sergio Tufik, coordenador do\u00a0<a href=\"http:\/\/cepid.fapesp.br\/centro\/30\/\" target=\"_blank\">Instituto do Sono<\/a>\u00a0da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), referindo-se aos mecanismos de autorregula\u00e7\u00e3o e estabiliza\u00e7\u00e3o interna dos organismos. \u201cA priva\u00e7\u00e3o de sono \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o grav\u00edssima, que afeta todas as fun\u00e7\u00f5es do organismo, alterando, por exemplo, as fun\u00e7\u00f5es cerebrais.\u201d<\/p>\n<p>O\u00a0Instituto do Sono, um dos Centros de Pesquisa, Inova\u00e7\u00e3o e Difus\u00e3o (CEPIDs) mantidos pela FAPESP entre 2000 e 2013, realizou estudos que identificaram, por exemplo, a rela\u00e7\u00e3o entre dist\u00farbios respirat\u00f3rios durante o sono e problemas circulat\u00f3rios e card\u00edacos, e a rela\u00e7\u00e3o entre noites mal dormidas e disfun\u00e7\u00f5es hormonais. O instituto disponibilizou ainda \u00e0 popula\u00e7\u00e3o a realiza\u00e7\u00e3o de exames de polissonografia (PSG), que monitoram, nos pacientes adormecidos, diversas vari\u00e1veis indicadoras da boa ou m\u00e1 qualidade do sono e de seus impactos sobre a sa\u00fade.<\/p>\n<p>E suas pesquisas sobre dist\u00farbios de sono e condi\u00e7\u00f5es de trabalho contribu\u00edram para recomenda\u00e7\u00f5es sobre a necessidade de repouso em atividades como a dos motoristas de \u00f4nibus. Foi gra\u00e7as ao instituto que as doen\u00e7as do sono foram inclu\u00eddas no rol das ocorr\u00eancias cobertas pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS).<\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es relacionadas com esses dist\u00farbios ganharam destaque na agenda da pesquisa em todo o mundo quando a restri\u00e7\u00e3o de sono se tornou um \u201cestado cr\u00f4nico\u201d da sociedade moderna: os ritmos biol\u00f3gicos deixaram de acompanhar o ciclo circadiano. \u201cAntigamente, o sol nascia, bloqueava a melatonina, fazendo a pessoa dormir. Com a ilumina\u00e7\u00e3o artificial tudo mudou. As pessoas podem trabalhar e se divertir \u00e0 noite, isso sem falar na televis\u00e3o, na internet e em todos os outros recursos dispon\u00edveis. A modernidade fez com que as pessoas passassem a dormir menos\u201d, analisou Tufik.<\/p>\n<p>A primeira organiza\u00e7\u00e3o dedicada ao estudo de doen\u00e7as relacionadas ao sono surgiu nos Estados Unidos, em 1979. Alguns anos depois iniciaram-se as pesquisas na Unifesp que viriam a deslanchar a partir de 2000, quando o Instituto do Sono passou a integrar o programa CEPID apoiado pela FAPESP.<\/p>\n<p>Ao longo de 12 anos, os pesquisadores investigaram a correla\u00e7\u00e3o de m\u00e3o dupla entre a qualidade de sono e as v\u00e1rias enfermidades decorrentes de noites insones ou mal dormidas. Altera\u00e7\u00f5es card\u00edacas, problemas imunol\u00f3gicos, psor\u00edase, disfun\u00e7\u00e3o er\u00e9til e at\u00e9 c\u00e2ncer foram algumas das condi\u00e7\u00f5es relatadas.<\/p>\n<p>Descobriu-se, por exemplo, que a s\u00edndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS) \u2013 uma parada respirat\u00f3ria que se prolonga por mais de 10 segundos \u2013 pode provocar altera\u00e7\u00f5es funcionais e estruturais no cora\u00e7\u00e3o. Utilizando ecocardiografia com imagens tridimensionais, os pesquisadores constataram que, quando a pessoa faz o movimento de inspirar e o ar n\u00e3o entra, h\u00e1 uma press\u00e3o negativa dentro do t\u00f3rax que reduz o retorno de sangue do pulm\u00e3o para o lado direito do cora\u00e7\u00e3o, impedindo que ele se encha por inteiro, e for\u00e7ando o \u00e1trio esquerdo a se contrair mais.<\/p>\n<p>\u201cEssa muscula\u00e7\u00e3o card\u00edaca altera a estrutura do \u00e1trio esquerdo, a ponto de reduzir o volume de sangue bombeado\u201d, explicou Dalva Poyares, coordenadora do estudo, que envolveu 56 pacientes com diagn\u00f3stico de apneia e foi publicado na revista especializada\u00a0Heart\u00a0no final de 2009. \u201cApesar de ser uma obstru\u00e7\u00e3o que ocorre na garganta, a apneia pode afetar a circula\u00e7\u00e3o inteira, de modo a causar problemas mec\u00e2nicos no cora\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o forem tratados, estes tendem a se tornar permanentes. E, ao longo do tempo, podem levar at\u00e9\u00a0a insufici\u00eancia card\u00edaca\u201d, detalhou a pesquisadora.<\/p>\n<p>A pesquisa mencionada fez parte de um estudo maior,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bv.fapesp.br\/pt\/bolsas\/66530\/estratificacao-de-risco-cardiovascular-em-pacientes-com-sindrome-da-apneia-obstrutiva-do-sono-estudo\/\" target=\"_blank\">\u201cEstratifica\u00e7\u00e3o de risco cardiovascular em pacientes com apneia do sono\u201d<\/a>, que avaliou mais de 600 pessoas. \u201cForam publicados 10 artigos em decorr\u00eancia desse estudo\u201d, informou Poyares.<\/p>\n<p>A SAOS acomete principalmente homens de meia-idade. Caracteriza-se por roncos intensos e interrup\u00e7\u00f5es da respira\u00e7\u00e3o (apneias), que levam \u00e0 queda da oxigena\u00e7\u00e3o e fragmenta\u00e7\u00e3o do sono. O paciente em geral n\u00e3o percebe os sintomas durante o sono, mas, ao longo do dia, apresenta cansa\u00e7o ou fadiga, sonol\u00eancia e preju\u00edzo cognitivo.<\/p>\n<p>Outras pesquisas realizadas no instituto permitiram correlacionar a SAOS com a s\u00edndrome metab\u00f3lica (SM), prevalentes em pessoas com obesidade, principalmente do tipo abdominal, disse S\u00f4nia Maria Togeiro, pesquisadora e professora do Instituto do Sono.<\/p>\n<p>A defini\u00e7\u00e3o de s\u00edndrome metab\u00f3lica exige a presen\u00e7a de pelo menos tr\u00eas dos seguintes componentes: adiposidade abdominal; pr\u00e9-diabetes ou diabetes, dislipidemia (aumento de colesterol ou triglic\u00e9rides) e hipertens\u00e3o arterial.<\/p>\n<p>\u201cEm nossas pesquisas, detectamos que, quanto mais grave a apneia obstrutiva do sono do grupo pesquisado, maior o n\u00famero de indiv\u00edduos com s\u00edndrome metab\u00f3lica e com maior n\u00famero de componentes da s\u00edndrome\u201d, disse Togeiro.<\/p>\n<p>Em um estudo epidemiol\u00f3gico com 1.042 participantes da cidade de S\u00e3o Paulo, constatou-se que a presen\u00e7a da SAOS aumentava o risco de pr\u00e9-diabetes e diabetes, independentemente da obesidade e de outros fatores conhecidos.<\/p>\n<p>\u201cAvaliamos o efeito do tratamento da SAOS com um aparelho que impede o fechamento da faringe e reverte a apneia. Mensuramos o cortisol (horm\u00f4nio relacionados ao estresse) e as subst\u00e2ncias inflamat\u00f3rias associadas ao risco cardiovascular. E obtivemos redu\u00e7\u00e3o desses fatores\u201d, relatou a pesquisadora.<\/p>\n<p>\u201cNossa pesquisa sugere que a apneia obstrutiva do sono pode agravar a s\u00edndrome metab\u00f3lica e aumentar o risco metab\u00f3lico e cardiovascular. Mas ainda necessitamos de estudos de coorte (ou seja, com seguimento de anos) para confirmar esses achados\u201d, concluiu.<\/p>\n<p>Segundo a pesquisadora, existem atualmente propostas para que se inclua na defini\u00e7\u00e3o de s\u00edndrome metab\u00f3lica a presen\u00e7a da s\u00edndrome da apneia obstrutiva do sono. Assim, ao diagnosticar a SM, o m\u00e9dico tamb\u00e9m estar\u00e1 alerta para a possibilidade de ocorr\u00eancia de mais uma doen\u00e7a, a SAOS, que faz parte do mesmo espectro.<\/p>\n<p>No entanto, a preocupa\u00e7\u00e3o de que um epis\u00f3dio de apneia possa, por si mesmo, levar ao \u00f3bito n\u00e3o procede. \u201cO quadro \u00e9 revertido depois de um breve intervalo de tempo, porque existe uma sinaliza\u00e7\u00e3o qu\u00edmica, regida por oxig\u00eanio (O2) e di\u00f3xido de carbono (CO2,), que informa o c\u00e9rebro acerca da car\u00eancia respirat\u00f3ria. Ent\u00e3o, o c\u00e9rebro envia um comando que promove um microdespertar, possibilitando \u00e0 pessoa retomar o ritmo respirat\u00f3rio normal\u201d, explicou Poyares.<\/p>\n<p>Mesmo assim, em raz\u00e3o dos efeitos delet\u00e9rios da apneia, foi desenvolvido um aparelho, o CPAP, que, acoplado a uma m\u00e1scara, lan\u00e7a ar no nariz durante o sono, regularizando a respira\u00e7\u00e3o da pessoa que tem essa s\u00edndrome.<\/p>\n<p>Oitocentos m\u00e9dicos especialistas<\/p>\n<p>O Instituto do Sono est\u00e1 instalado em um edif\u00edcio de 15 andares, com fachada de alum\u00ednio e vidro, na Vila Mariana, em S\u00e3o Paulo. \u201cTemos hoje o maior e melhor instituto do sono do mundo\u201d, disse Tufik. Com 74 leitos em sua unidade principal e 10 leitos em uma unidade auxiliar, todos eles equipados com aparelhos de polissonografia, o Instituto do Sono tem capacidade para realizar 100 exames por dia e j\u00e1 atendeu 170 mil pacientes desde a sua funda\u00e7\u00e3o, em 1992.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito educacional, especializou 800 m\u00e9dicos em medicina do sono e formou 1018 t\u00e9cnicos e 94 analistas de polissonografia, al\u00e9m de 18 odont\u00f3logos (que produzem aparelhos para o controle de apneia). \u201cEsses 800 m\u00e9dicos est\u00e3o hoje instalados em 700 laborat\u00f3rios espalhados pelo pa\u00eds\u201d, afirmou Tufik.<\/p>\n<p>O coordenador orgulha-se de ter conseguido colocar a polissonografia e o tratamento do sono no rol de procedimentos cobertos pelo SUS. E dos v\u00e1rios equipamentos idealizados no instituto: uma pulseira que mede se o indiv\u00edduo est\u00e1 dormindo ou acordado (importante para prevenir casos de sonol\u00eancia durante a condu\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos) e uma balan\u00e7a que mede o equil\u00edbrio e permite detectar o quanto a pessoa est\u00e1 privada de sono.<\/p>\n<p>O instituto contribuiu ainda para disseminar informa\u00e7\u00f5es sobre a apneia e os efeitos delet\u00e9rios do ronco. \u201cPor meio de uma forte atua\u00e7\u00e3o na m\u00eddia (s\u00f3 no programa Globo Rep\u00f3rter tivemos 15 participa\u00e7\u00f5es), informamos \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que roncar \u00e9 p\u00e9ssimo: diminui a concentra\u00e7\u00e3o de oxig\u00eanio no sangue, provoca hipertens\u00e3o e pode at\u00e9 levar ao infarto. Isso tudo n\u00e3o era conhecido.\u201d<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m\u00a0<a href=\"http:\/\/cepid.fapesp.br\/materia\/92\" target=\"_blank\">Uma pesquisa que mudou a legisla\u00e7\u00e3o<\/a>,\u00a0<a href=\"http:\/\/cepid.fapesp.br\/materia\/116\" target=\"_blank\">Oscila\u00e7\u00f5es Hormonais<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"http:\/\/cepid.fapesp.br\/materia\/115\">Sono e Sexualidade<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Jos\u00e9 Tadeu Arantes Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 O sono \u00e9 um fant\u00e1stico laborat\u00f3rio de pesquisa ainda pouco explorado pelas ci\u00eancias. 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