{"id":51171,"date":"2014-01-03T07:41:56","date_gmt":"2014-01-03T09:41:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=51171"},"modified":"2014-01-03T07:41:56","modified_gmt":"2014-01-03T09:41:56","slug":"pesquisa-pode-ajudar-a-prevenir-lesao-em-atletas-de-alto-rendimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2014\/pesquisa-pode-ajudar-a-prevenir-lesao-em-atletas-de-alto-rendimento\/51171","title":{"rendered":"Pesquisa pode ajudar a prevenir les\u00e3o em atletas de alto rendimento"},"content":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo\u00a0<span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 A dor \u2013 seja ela causada por treinamento intensivo, les\u00e3o, afastamento da fam\u00edlia ou elimina\u00e7\u00e3o de uma prova importante \u2013 \u00e9 algo com que <em><strong>atletas de alto rendimento<\/strong><\/em> t\u00eam de lidar no dia a dia da carreira.<\/span><\/p>\n<p>Uma pesquisa feita na Escola de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica e Esporte da Universidade de S\u00e3o Paulo (EEFE-USP) mostrou que o perfil de personalidade do esportista influencia n\u00e3o apenas sua percep\u00e7\u00e3o da dor como tamb\u00e9m a forma com que ele a enfrenta \u2013 e isso pode ser t\u00e3o importante quanto a habilidade f\u00edsica na trajet\u00f3ria para o sucesso.<\/p>\n<p>\u201cDiante da dificuldade de discriminar o limite de suas habilidades e as diferentes formas de dor, o atleta se depara com a possibilidade de les\u00f5es. Essa pesquisa tem um car\u00e1ter preventivo importante. Adaptamos uma metodologia que poder\u00e1 oferecer indicadores para que a equipe t\u00e9cnica e os profissionais de sa\u00fade consigam compreender melhor a queixa do atleta no sentido de identificar quando ele chegou ao seu limite antes que se lesione\u201d, disse a professora Katia Rubio, coordenadora do estudo\u00a0.<\/p>\n<p>O trabalho \u00e9 fruto de um projeto anterior, intitulado \u201cMem\u00f3rias ol\u00edmpicas por atletas ol\u00edmpicos\u201d e tamb\u00e9m. O objetivo inicial do estudo com atletas ol\u00edmpicos, que ainda est\u00e1 em andamento, era relatar as hist\u00f3rias de vida de todos os brasileiros que j\u00e1 participaram do principal evento esportivo do mundo.<\/p>\n<p>\u201cA quest\u00e3o da dor aparecia com muita frequ\u00eancia na fala dos atletas, mesmo quando n\u00e3o pergunt\u00e1vamos sobre o tema. J\u00e1 quando questionados sobre a dor em suas vidas, a maioria dizia n\u00e3o haver carreira esportiva sem dor. Para alguns, sentir dor no fim de uma sess\u00e3o de treinamento era a indica\u00e7\u00e3o de um bom dia de trabalho\u201d, contou Rubio.<\/p>\n<p>As entrevistas realizadas durante o projeto deram origem ao livro\u00a0Atletas do Brasil Ol\u00edmpico\u00a0(Editora Kazu\u00e1), rec\u00e9m-lan\u00e7ado. A obra traz um cap\u00edtulo dedicado exclusivamente \u00e0 quest\u00e3o da dor, que conta hist\u00f3rias como a da ginasta Soraya Carvalho, impedida no \u00faltimo momento de participar dos Jogos Ol\u00edmpicos de Atlanta, em 1996, por uma fratura provocada pelo treinamento excessivo.<\/p>\n<p>\u201cEu dizia que estava sentindo dores, mas achavam que eu estava reclamando para ganhar descanso, uma vez que o ritmo de treinamentos estava muito intenso. Minha queixa n\u00e3o foi levada a s\u00e9rio [pela equipe t\u00e9cnica] e isso me custou os Jogos Ol\u00edmpicos\u201d, disse Carvalho no livro.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda exemplos de atletas com tend\u00eancia a ignorar os sinais de alerta da dor e a desafiar os limites do organismo em nome do objetivo esportivo, como \u00e9 o caso do corredor Joaquim Cruz. O atleta sofreu diversas les\u00f5es em decorr\u00eancia do treinamento feito durante anos com t\u00eanis e pista inadequados. Na entrevista concedida a Rubio, Cruz relembra as estrat\u00e9gias mentais que desenvolveu para enfrentar a dor e que lhe permitiram ganhar duas medalhas ol\u00edmpicas \u2013 ouro nos jogos de Los Angeles, em 1984, e prata nos de Seul, em 1988.<\/p>\n<p>\u201cAntes dos Jogos Ol\u00edmpicos de Seul eu tinha passado por uma cirurgia e coloquei na minha mente que tudo ia dar certo e deu certo. Muitas pessoas me falaram que, uma vez operado, voc\u00ea nunca \u00e9 o mesmo. Isso n\u00e3o me tocava e, para sair daquele clima, eu pensava \u2018se isso que est\u00e3o me dizendo \u00e9 verdade, n\u00e3o ser\u00e1 no meu caso. Eu sou diferente e vou superar\u2019\u201d, contou Cruz.<\/p>\n<p>Para entender mais profundamente as dimens\u00f5es da dor na vida de atletas profissionais, o grupo de Rubio avaliou 216 competidores brasileiros de n\u00edvel ol\u00edmpico atuantes em sete modalidades: atletismo, basquete, futebol, handebol, rugby, t\u00eanis de mesa e voleibol.<\/p>\n<p>Todos responderam a um question\u00e1rio conhecido como Invent\u00e1rio da Dor para o Esporte \u2013 originalmente desenvolvido por pesquisadores norte- americanos e adaptado para a realidade brasileira pela equipe de Rubio.<\/p>\n<p>\u201cEm uma etapa piloto do projeto, utilizamos escalas da psicologia hospitalar para a avalia\u00e7\u00e3o da dor, mas percebemos que os instrumentos usados na popula\u00e7\u00e3o comum n\u00e3o s\u00e3o vi\u00e1veis no esporte, pois os atletas s\u00e3o muito mais resistentes \u00e0 dor. Tivemos de adaptar uma escala espec\u00edfica\u201d, contou Rubio.<\/p>\n<p>Para mensurar o quanto a percep\u00e7\u00e3o da dor est\u00e1 relacionada ao perfil psicol\u00f3gico, os pesquisadores usaram um modelo bastante conhecido na \u00e1rea de Psicologia como Bateria Fatorial de Personalidade (BFP). Tamb\u00e9m foi realizado um estudo qualitativo, no qual entrevistas mais aprofundadas foram feitas com parte da amostra. Parte dos resultados foi divulgada\u00a0\u00a0na\u00a0Revista Brasileira de Psicologia do Esporte.<\/p>\n<p>\u201cNo in\u00edcio, trabalhamos com a hip\u00f3tese de que haveria dois grandes tipos de dor: aquela relacionada ao treinamento \u2013 uma dor habitual e at\u00e9 prazerosa \u2013 e a dor da les\u00e3o \u2013 sobre a qual o atleta n\u00e3o tem controle e que gera um profundo temor, pois coloca em risco a longevidade de sua carreira e a continuidade de patroc\u00ednios. Depois incorporamos outras dimens\u00f5es da dor, como a dor do corte, da saudade da fam\u00edlia, da derrota e do esquecimento, que surge no momento em que se faz a transi\u00e7\u00e3o de carreira\u201d, contou Rubio.<\/p>\n<p>Modelos de enfrentamento<\/p>\n<p>O Invent\u00e1rio para a Dor no Esporte trabalha com cinco subescalas: enfrentamento direto, enfrentamento cognitivo, catastrofiza\u00e7\u00e3o, evitamento e consci\u00eancia corporal. A soma dos resultados de cada uma das subescalas indica o modelo de enfrentamento da dor de cada indiv\u00edduo, explicou Rubio.<\/p>\n<p>Atletas com altos n\u00edveis de \u2018catastrofiza\u00e7\u00e3o\u2019, por exemplo, tendem a se desesperar diante da les\u00e3o e adotam uma postura pessimista. \u201cEles acham que tudo vai dar errado e isso se reflete no engajamento \u00e0 fisioterapia. Provavelmente, o per\u00edodo de reabilita\u00e7\u00e3o ser\u00e1 muito mais longo nesses casos. Por isso \u00e9 importante um trabalho de psicologia para tentar trazer esse indiv\u00edduo para um perspectiva mais otimista\u201d, afirmou Rubio.<\/p>\n<p>J\u00e1 os atletas com altos n\u00edveis de \u2018evitamento\u2019 tornam-se menos competitivos quando lesionados, pois tendem a se poupar para evitar a dor. Aqueles com alta pontua\u00e7\u00e3o em \u2018enfrentamento direto\u2019, ao contr\u00e1rio, tendem a ignorar a dor e a interpret\u00e1-la como parte da competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cNa parte qualitativa da pesquisa levantamos a hist\u00f3ria de um atleta que chegou a competir com fraturas. Ele conta que continuou competindo como se nada tivesse acontecido, pois para ele era muito importante o resultado\u201d, contou Rubio.<\/p>\n<p>Os atletas com maior pontua\u00e7\u00e3o na subescala \u2018consci\u00eancia corporal\u2019 s\u00e3o aqueles que conseguem perceber os sinais do corpo, como \u00e9 o caso relatado pela jogadora de voleibol Ana Richa, que atuou primeiro no v\u00f4lei de quadra e, depois, no de praia.<\/p>\n<p>\u201cFomos cobaias das teorias de treinamento. Experimentaram tudo com a gente: a escola japonesa, a russa, a cubana&#8230; Eu sabia at\u00e9 onde podia chegar, respeitava meu corpo. Mandavam a gente ir at\u00e9 o limite. Talvez meu corpo seja privilegiado, talvez eu tenha me poupado. O fato \u00e9 que eu estou aqui, inteira, mas muitas das minhas colegas n\u00e3o est\u00e3o nessas mesmas condi\u00e7\u00f5es\u201d, contou Richa no livro.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, h\u00e1 os atletas com altos n\u00edveis de \u2018enfrentamento cognitivo\u2019, que usam t\u00e9cnicas mentais para manter o foco na tarefa a ser desempenhada, seja o treinamento ou a fisioterapia. \u201c\u00c9 aquele sujeito que conversa com a dor e tamb\u00e9m aquele que vai para a internet pegar todas as informa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis sobre seu quadro para discutir com a equipe qual \u00e9 a melhor atitude a ser tomada\u201d, contou Rubio.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o da pesquisadora, esse conhecimento sobre o perfil de enfrentamento da dor de cada atleta abre a possibilidade de realizar interven\u00e7\u00f5es mais efetivas \u2013 tanto do ponto de vista preventivo como de reabilita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA ideia \u00e9 aprimorar os instrumentos que usamos na pesquisa para serem aplicados no cotidiano do esporte, colaborando para um programa de preven\u00e7\u00e3o. Os resultados nos permite ainda levantar hip\u00f3teses para futuros estudos que ajudem, por exemplo, identificar o perfil de atleta propenso a usar doping\u201d, afirmou Rubio.<\/p>\n<ul>\n<li>Atletas do Brasil Ol\u00edmpico<br \/>\nAutora: Katia Rubio<br \/>\nEditora Kazu\u00e1<br \/>\nMais informa\u00e7\u00f5es:\u00a0<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo\u00a0Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 A dor \u2013 seja ela causada por treinamento intensivo, les\u00e3o, afastamento da fam\u00edlia ou elimina\u00e7\u00e3o de uma prova importante \u2013 \u00e9 algo com que atletas de alto rendimento t\u00eam de lidar no dia a dia da carreira. 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