{"id":51722,"date":"2014-01-27T19:09:18","date_gmt":"2014-01-27T21:09:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=51722"},"modified":"2014-01-27T19:09:18","modified_gmt":"2014-01-27T21:09:18","slug":"cientistas-propoem-usar-capivaras-para-o-estudo-do-avc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2014\/cientistas-propoem-usar-capivaras-para-o-estudo-do-avc\/51722","title":{"rendered":"Cientistas prop\u00f5em usar capivaras para o estudo do AVC"},"content":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Al\u00e9m de ser o maior roedor do mundo, a capivara (Hydrochaeris hydrochaeris) possui outra caracter\u00edstica anat\u00f4mica bastante peculiar. Quando atinge a maturidade sexual, por volta de um ano de idade, uma das duas principais art\u00e9rias que vascularizam seu c\u00e9rebro se fecha. A outra, simultaneamente, dobra de tamanho e passa por um processo de remodelamento para suprir a demanda cerebral por oxig\u00eanio e nutrientes.\u00a0<span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Um processo obstrutivo semelhante, por\u00e9m mais repentino e com desfecho\u00a0potencialmente mais desastroso, pode ocorrer em humanos portadores de aterosclerose ou de coagulopatias. Por causa dessa similaridade, em um\u00a0<\/span><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">\u00a0publicado na revista\u00a0Cells Tissues Organs, cientistas da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e da University College London (UCL), no Reino Unido, prop\u00f5em usar a <em><strong>capivara como modelo de estudo do Acidente Vascular Cerebral<\/strong> <\/em>do tipo isqu\u00eamico (AVCi) \u2013 aquele causado pela oclus\u00e3o de uma art\u00e9ria importante para a vasculariza\u00e7\u00e3o do c\u00e9rebro.<\/span><\/p>\n<p>\u201cA capivara seria um modelo animal melhor do que o rato por ter o peso corporal m\u00e9dio (entre 20 e 40 quilos) e a longevidade (de 10 a 14 anos) mais compar\u00e1vel \u00e0 esp\u00e9cie humana. Esta poderia ser uma \u00e1rea de estudo multidisciplinar, com participa\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria farmac\u00eautica para o teste de novas drogas\u201d, opinou o m\u00e9dico veterin\u00e1rio e professor Augusto Coppi, respons\u00e1vel pelo Laborat\u00f3rio de Estereologia Estoc\u00e1stica e Anatomia Qu\u00edmica (LSSCA) do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina Veterin\u00e1ria e Zootecnia (FMVZ) da USP e coordenador da\u00a0\u00a0pela FAPESP.<\/p>\n<p>Tanto no homem como na capivara, assim\u00a0como nos demais mam\u00edferos, as duas principais carreadoras de sangue para o c\u00e9rebro s\u00e3o a art\u00e9ria car\u00f3tida interna e a art\u00e9ria basilar. \u201cAs art\u00e9rias car\u00f3tidas saem do cora\u00e7\u00e3o, passam uma de cada lado do pesco\u00e7o, e quando chegam na altura das orelhas se dividem em car\u00f3tida externa e car\u00f3tida interna (que origina a maior parte das art\u00e9rias cerebrais). J\u00e1 a art\u00e9ria basilar \u00e9 formada pela jun\u00e7\u00e3o das art\u00e9rias vertebrais na altura da nuca. Este sistema \u00e9 tamb\u00e9m chamado de v\u00e9rtebro-basilar\u201d, explicou Coppi.<\/p>\n<p>Nas capivaras, por volta dos seis meses de idade, a art\u00e9ria car\u00f3tida interna naturalmente come\u00e7a a sofrer um processo de fibrose e, aos 12 meses, fica completamente obstru\u00edda por tecido conjuntivo, assemelhando-se a um cord\u00e3o fibroso. Concomitantemente, a art\u00e9ria basilar passa por uma readapta\u00e7\u00e3o estrutural para se tornar o principal fornecedor de sangue para o c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>\u201cEste \u00e9 um processo fisiol\u00f3gico e n\u00e3o sabemos com certeza por que ele ocorre. Formulamos algumas hip\u00f3teses em estudos anteriores publicados pelo nosso grupo e a mais prov\u00e1vel \u00e9 que a art\u00e9ria basilar assuma a fun\u00e7\u00e3o de principal respons\u00e1vel pela vasculariza\u00e7\u00e3o de todo o c\u00e9rebro nas capivaras. A car\u00f3tida interna perde sua fun\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a matura\u00e7\u00e3o sexual\u201d, contou Coppi.<\/p>\n<p>No caso dos humanos, por\u00e9m, as art\u00e9rias car\u00f3tida interna e basilar compartilham a tarefa de vasculariza\u00e7\u00e3o cerebral. \u201cNo entanto, a car\u00f3tida interna \u00e9 mais suscet\u00edvel a ser obstru\u00edda por placas ateromatosas (formadas por colesterol e c\u00e1lcio) do que a basilar. E, infelizmente, ao contr\u00e1rio do que acontece com as capivaras, o processo \u00e9 repentino e n\u00e3o h\u00e1 tempo do outro sistema se remodelar para suprir a demanda do c\u00e9rebro\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Impulsos nervosos<\/p>\n<p>Na pesquisa publicada na revista\u00a0Cells Tissues Organs\u00a0os pesquisadores analisaram amostras de tecido da art\u00e9ria basilar de capivaras adultas e dos nervos que a envolvem. \u201cNosso objetivo era descobrir como se comportam os nervos que suprem essa art\u00e9ria, que s\u00e3o fundamentais para garantir a motilidade do vaso e consequentemente a condu\u00e7\u00e3o adequada de sangue e nutrientes para o c\u00e9rebro. N\u00e3o basta simplesmente aumentar o calibre da art\u00e9ria. Se o fluxo sangu\u00edneo n\u00e3o for regular e constante pelo sistema v\u00e9rtebro-basilar, o tecido cerebral pode sofrer les\u00f5es\u201d, explicou Coppi.<\/p>\n<p>Com aux\u00edlio de t\u00e9cnicas de imuno-citoqu\u00edmica (que usam anticorpos para identificar mol\u00e9culas em n\u00edvel subcelular), da microscopia eletr\u00f4nica de transmiss\u00e3o (que permite a visualiza\u00e7\u00e3o de estruturas em n\u00edvel subcelular) e da estereologia (microscopia em 3-D), os cientistas confirmaram a exist\u00eancia de sinapses e termina\u00e7\u00f5es nervosas ativas na art\u00e9ria basilar remodelada, ou seja, de comunica\u00e7\u00e3o entre as fibras nervosas e a art\u00e9ria basilar modificada em capivaras adultas.<\/p>\n<p>Confirmaram ainda a presen\u00e7a de duas subst\u00e2ncias vasoativas (que estimulam a contra\u00e7\u00e3o dos vasos): a endotelina-1 e o seu receptor, a endotelina A.<\/p>\n<p>\u201cNem todos os vasos t\u00eam endotelina \u2013 subst\u00e2ncia important\u00edssima na manuten\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio hemodin\u00e2mico cerebral. Existem outras subst\u00e2ncias vasoativas, como a noradrenalina, por exemplo. Mas a endotelina oferece um controle mais fino e uma condu\u00e7\u00e3o mais regular de sangue. Conseguimos confirmar que, ap\u00f3s o fechamento da art\u00e9ria car\u00f3tida interna durante a puberdade, a art\u00e9ria basilar das capivaras adultas assume o controle, duplica o seu di\u00e2metro, tornando-se, portanto, capaz de fornecer um suprimento sangu\u00edneo regular para o todo o c\u00e9rebro\u201d, explicou Coppi.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, a presen\u00e7a de endotelina tanto na art\u00e9ria car\u00f3tida interna como na art\u00e9ria basilar j\u00e1 havia sido descrita em humanos e em ratos. Esta, no entanto, \u00e9 a primeira vez na literatura m\u00e9dica que se confirma a exist\u00eancia dessa subst\u00e2ncia vasoativa na art\u00e9ria basilar (e nos seus nervos associados) em capivaras.<\/p>\n<p>\u201cEstudos futuros poder\u00e3o confirmar se h\u00e1 a presen\u00e7a de outras subst\u00e2ncias vasoativas na art\u00e9ria basilar das capivaras. Sugerimos tamb\u00e9m o estudo de novas drogas que possam atuar nesse local. A ideia \u00e9 pensar em novos marcadores bioqu\u00edmicos que possam sinalizar e induzir em humanos uma angiog\u00eanese r\u00e1pida e eficaz no sistema carot\u00eddeo e, ao mesmo tempo, ativar o mecanismo de remodelamento da art\u00e9ria basilar de forma similar ao que ocorre na capivara, promovendo uma circula\u00e7\u00e3o alternativa de sangue para o c\u00e9rebro\u201d, afirmou Coppi.<\/p>\n<p>A parceria com os pesquisadores da University College London j\u00e1 dura mais de uma d\u00e9cada e resultou em tr\u00eas publica\u00e7\u00f5es anteriores que se complementam. Em 2004, na revista\u00a0Anatomia, Histologia, Embryologia, o\u00a0\u00a0estruturalmente o processo de obstru\u00e7\u00e3o da art\u00e9ria car\u00f3tida interna e de remodela\u00e7\u00e3o da art\u00e9ria basilar das capivaras.<\/p>\n<p>Em 2005, no\u00a0, os autores discutiram a poss\u00edvel presen\u00e7a da endotelina-1 e do seu receptor na art\u00e9ria basilar das capivaras.<\/p>\n<p>O\u00a0\u00a0em 2006 na revista\u00a0Cell and Tissue Research\u00a0descreveu\u00a0com maior\u00a0riqueza de detalhes as altera\u00e7\u00f5es estruturais na art\u00e9ria car\u00f3tida interna obstru\u00edda e o aumento de calibre e remodelamento estrutural da art\u00e9ria basilar.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma s\u00e9rie de estudos em que fomos investigando de forma integrada e multidisciplinar o processo, visando entend\u00ea-lo de forma cada vez mais profunda e hol\u00edstica. Neste \u00faltimo, chegamos ao n\u00edvel da biologia molecular e temos subs\u00eddios robustos para propor o uso desse animal como modelo de estudo do AVC isqu\u00eamico.<\/p>\n<p>Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) o AVC lidera as mortes por doen\u00e7as do aparelho circulat\u00f3rio no pa\u00eds. A proje\u00e7\u00e3o para 2014 \u00e9 que o problema afete 350 mil brasileiros.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Immunoreactive Endothelin-1 and Endothelin A Receptor in Basilar Artery Perivascular Nerves of Young and Adult Capybaras (doi: 10.1159\/000348617), pode ser lido em.<\/p>\n<p>Mais informa\u00e7\u00f5es pelo e-mail\u00a0, pelo site\u00a0<span style=\"color: #0066cc;\"><\/span><span style=\"color: #000000;\">\u00a0e pela\u00a0.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Al\u00e9m de ser o maior roedor do mundo, a capivara (Hydrochaeris hydrochaeris) possui outra caracter\u00edstica anat\u00f4mica bastante peculiar. Quando atinge a maturidade sexual, por volta de um ano de idade, uma das duas principais art\u00e9rias que vascularizam seu c\u00e9rebro se fecha. 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