{"id":51955,"date":"2014-02-05T19:27:10","date_gmt":"2014-02-05T21:27:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=51955"},"modified":"2014-02-05T19:27:10","modified_gmt":"2014-02-05T21:27:10","slug":"curiosidade-e-essencial-ao-jovem-pesquisador-diz-vencedor-do-nobel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2014\/curiosidade-e-essencial-ao-jovem-pesquisador-diz-vencedor-do-nobel\/51955","title":{"rendered":"Curiosidade \u00e9 essencial ao jovem pesquisador, diz vencedor do Nobel"},"content":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Foi durante o ensino m\u00e9dio que o biof\u00edsico alem\u00e3o <em><strong>Erwin Neher<\/strong><\/em>, hoje com 69 anos, ficou fascinado com a ideia de que pelas c\u00e9lulas do corpo humano percorriam correntes el\u00e9tricas. O desejo de compreender melhor esse fen\u00f4meno o direcionou para a carreira cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Graduou-se em F\u00edsica no in\u00edcio dos anos 1960 pela Universidade T\u00e9cnica de Munique (Technische Universit\u00e4t M\u00fcnchen), na Alemanha. Fez o mestrado em biof\u00edsica pela University of Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, e, de volta a Munique, come\u00e7ou a estudar a transmiss\u00e3o de impulsos nervosos em c\u00e9lulas de carac\u00f3is durante o seu doutorado.<\/p>\n<p>O trabalho o levou ao Max Planck Institute of Psychiatry, onde na \u00e9poca estavam sendo investigados mecanismos sin\u00e1pticos em neur\u00f4nios de moluscos. Nesse per\u00edodo, conheceu o fisiologista Bert Sakmann, que se tornou um amigo e parceiro no desenvolvimento de um m\u00e9todo revolucion\u00e1rio capaz de medir corrente el\u00e9trica em c\u00e9lulas, conhecido como\u00a0patch-clamp.<\/p>\n<p>Em linhas gerais, a t\u00e9cnica consiste em isolar um peda\u00e7o da membrana celular com uma micropipeta de vidro com\u00a0um eletrodo em seu interior. A corrente que flui pela micropipeta \u00e9 a mesma da membrana celular e, aplicando uma tens\u00e3o conhecida, torna-se poss\u00edvel fazer a medi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neher e Sakmann conseguiram, dessa forma, provar algo\u00a0debatido na ci\u00eancia havia muito tempo: a exist\u00eancia dos canais i\u00f4nicos \u2013 prote\u00ednas presentes na membrana celular que funcionam como t\u00faneis ligando o interior e o exterior da c\u00e9lula e permitindo a passagem de \u00edons, como pot\u00e1ssio, s\u00f3dio e c\u00e1lcio, por meio dos quais passa a corrente el\u00e9trica.<\/p>\n<p>Os pesquisadores isolaram, pela primeira vez, um min\u00fasculo canal i\u00f4nico e decifraram assim a comunica\u00e7\u00e3o celular. Os primeiros resultados foram publicados em 1976, em um artigo na revista\u00a0Nature. Ap\u00f3s alguns anos de aperfei\u00e7oamento, a t\u00e9cnica se tornou sens\u00edvel o suficiente para registrar at\u00e9 as mais discretas altera\u00e7\u00f5es na corrente el\u00e9trica, o que possibilitou realizar pesquisas de eletrofisiologia com c\u00e9lulas de mam\u00edferos.<\/p>\n<p>O\u00a0patch-clamp\u00a0\u2013 que nunca chegou a ser patenteado \u2013 \u00e9 usado at\u00e9 hoje em laborat\u00f3rios de todo o mundo. Contribuiu para o entendimento de diversas doen\u00e7as relacionadas ao mau funcionamento de canais i\u00f4nicos, como fibrose c\u00edstica, fibromialgia e um tipo de arritmia heredit\u00e1ria conhecido como s\u00edndrome de Brugada.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo tamb\u00e9m abriu caminho para o tratamento de certos tipos de dores cr\u00f4nicas e da diabetes neonatal e ajudou a tornar os testes de novos medicamentos mais seguros.<\/p>\n<p>Ao longo de sua carreira, Neher ganhou diversos pr\u00eamios \u2013 entre eles o Leibniz Award, em 1986, considerado o mais importante na \u00e1rea da ci\u00eancia na Alemanha. O reconhecimento internacional veio em 1991, quando ele e Sakmann foram contemplados com o Nobel de Medicina.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, Neher j\u00e1 havia abandonado os estudos sobre canais i\u00f4nicos e vinha se dedicando ao tema que hoje o fascina: entender como ocorre a libera\u00e7\u00e3o de neurotransmissores e transmiss\u00e3o sin\u00e1ptica. Em sua avalia\u00e7\u00e3o, tal conhecimento \u00e9 fundamental para compreender diversas doen\u00e7as neurol\u00f3gicas e abrir caminho para uma poss\u00edvel cura.<\/p>\n<p>Atualmente, Neher \u00e9 pesquisador do Max Planck Institute for Biophysical Chemistry, em G\u00f6ttingen, na Alemanha, onde coordena um grupo de pesquisa sobre biof\u00edsica de membrana.<\/p>\n<p>De passagem por S\u00e3o Paulo \u2013 onde proferiu, nos dias 29 e 30 de janeiro, palestras durante a programa\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u00a0\u00a0\u2013, Neher concedeu uma entrevista \u00e0\u00a0Ag\u00eancia FAPESP, na qual falou sobre as pesquisas do passado, do presente, sobre a import\u00e2ncia da comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e sobre o que chama de \u201cestilo de vida da ci\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Quando o senhor se descobriu cientista?<br \/>\nErwin Neher\u00a0\u2013 Desde crian\u00e7a eu tinha muito interesse pela natureza e por tecnologia. Desmontava r\u00e1dios e rel\u00f3gios e depois tentava montar novamente para entender como funcionavam. Mas foi pelos 16 ou 17 anos que fiquei fascinado com a ideia de que no corpo humano havia corrente el\u00e9trica, embora naquela \u00e9poca ainda n\u00e3o fosse poss\u00edvel medi-la. Comecei a me interessar pelas ideias relativamente novas dos brit\u00e2nicos Alan Hodgkin [1914-1988] e Andrew Huxley [1917-2012] sobre gera\u00e7\u00e3o de potencial de a\u00e7\u00e3o [impulsos nervosos]. E tamb\u00e9m pela bioinform\u00e1tica, na \u00e9poca chamada de cibern\u00e9tica. No fim do ensino m\u00e9dio, quando chegou a hora de escolher um campo de estudo, eu estava dividido. N\u00e3o sabia se come\u00e7ava pela F\u00edsica ou pela Biologia para depois seguir para a Biof\u00edsica. De alguma forma, a decis\u00e3o foi pela F\u00edsica. Estava fascinado pela ideia de estudar fen\u00f4menos el\u00e9tricos no interior das c\u00e9lulas.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Come\u00e7ar pela F\u00edsica foi a escolha acertada?<br \/>\nNeher\u00a0\u2013 Bem, com isso eu deixei de aprender certos detalhes sobre a Biologia, principalmente sobre a neuroanatomia, e isso foi um obst\u00e1culo para entender certos artigos cient\u00edficos que me interessavam. Por outro lado, tive um bom embasamento sobre as leis da f\u00edsica que regulam tudo o que ocorre dentro das c\u00e9lulas. A base em F\u00edsica tamb\u00e9m me deu confian\u00e7a para desenvolver modelos de estudo, me ajudou a antever quais tipos de simplifica\u00e7\u00f5es poderiam ser feitas para estudar um certo fen\u00f4meno. Al\u00e9m disso, o conhecimento sobre equa\u00e7\u00f5es diferenciais e integrais \u00e9 fundamental para entender rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas e isso n\u00e3o aprendemos no curr\u00edculo b\u00e1sico do ensino m\u00e9dio alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Mas o interesse em Biof\u00edsica teve alguma rela\u00e7\u00e3o com o que o senhor aprendeu na escola?<br \/>\nNeher\u00a0\u2013 N\u00e3o. Na escola t\u00ednhamos apenas as disciplinas cl\u00e1ssicas. O interesse em cibern\u00e9tica e em impulsos nervosos surgiu por causa de minhas leituras extraclasse.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Se hoje fosse um jovem cientista escolheria o mesmo campo de estudo?<br \/>\nNeher\u00a0\u2013 Acredito que sim. Biof\u00edsica \u00e9 um tema muito bom. Penso que explicar os processos complexos da vida com base nas leis da Qu\u00edmica e da F\u00edsica \u00e9 um dos grandes desafios que temos \u00e0 frente. Talvez hoje eu estivesse mais inclinado a trabalhar, por meio da bioinform\u00e1tica, com essa enorme quantidade de informa\u00e7\u00e3o gen\u00f4mica dispon\u00edvel. Um dos meus filhos est\u00e1 indo nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Como analisa o impacto do m\u00e9todo\u00a0patch-clamp\u00a0mais de 30 anos ap\u00f3s a primeira publica\u00e7\u00e3o na\u00a0Nature?<br \/>\nNeher\u00a0\u2013 O impacto foi muito al\u00e9m do que esper\u00e1vamos na \u00e9poca. Assim que esse m\u00e9todo altamente sens\u00edvel de medir corrente el\u00e9trica na c\u00e9lula se tornou acess\u00edvel, avan\u00e7ou o conhecimento em diversos aspectos. Em primeiro lugar, tornou-se poss\u00edvel entender a mec\u00e2nica de funcionamento dos canais i\u00f4nicos e os detalhes moleculares de como eles operam. O\u00a0patch-clamp\u00a0se tornou o m\u00e9todo padr\u00e3o para fazer eletrofisiologia com c\u00e9lulas pequenas, como as c\u00e9lulas de mam\u00edferos. Antes, algo semelhante vinha sendo feito com as t\u00e9cnicas de microeletrodos [m\u00e9todo voltage-clamp] \u2013 limitadas \u00e0s c\u00e9lulas grandes encontradas em invertebrados. Meus primeiros trabalhos, ainda durante o doutorado, foram feitos com c\u00e9lulas de carac\u00f3is. Mas com o m\u00e9todo\u00a0patch-clamp, de repente, tornou-se poss\u00edvel fazer eletrofisiologia com tecido de bi\u00f3psias de mam\u00edferos e todos os tipos de cultura celular. Isso revolucionou a biologia. As pessoas perceberam que os canais i\u00f4nicos n\u00e3o existiam apenas em c\u00e9lulas eletricamente excit\u00e1veis, como neur\u00f4nios e c\u00e9lulas musculares ou neuroend\u00f3crinas. Com essa t\u00e9cnica, descobrimos que as c\u00e9lulas n\u00e3o excit\u00e1veis \u2013 a maioria em nosso organismo \u2013 tamb\u00e9m t\u00eam muitos canais i\u00f4nicos, de muitos tipos diferentes, e est\u00e3o envolvidos em diversas fun\u00e7\u00f5es. Todas as fun\u00e7\u00f5es dos sentidos s\u00e3o mediadas por canais i\u00f4nicos, que transformam o est\u00edmulo f\u00edsico, como a vibra\u00e7\u00e3o da c\u00f3clea, em eletricidade. Todas as c\u00e9lulas do rim que regulam o transporte de fluidos, as c\u00e9lulas do sangue, os linf\u00f3citos, todas t\u00eam um certo tipo de canal i\u00f4nico envolvido na regula\u00e7\u00e3o de seu funcionamento. Al\u00e9m de tudo isso, o m\u00e9todo possibilitou o entendimento de um grande n\u00famero de doen\u00e7as cong\u00eanitas causadas pelo mau funcionamento de canais i\u00f4nicos.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Os canais i\u00f4nicos tamb\u00e9m se tornaram alvo de novos medicamentos?<br \/>\nNeher\u00a0\u2013 Sim. Estudos posteriores mostraram que os canais i\u00f4nicos s\u00e3o alvos priorit\u00e1rios para medicamentos, pois s\u00e3o grandes reguladores do funcionamento celular. Com apenas algumas mol\u00e9culas \u00e9 poss\u00edvel bloquear alguns pequenos canais e influenciar o funcionamento da c\u00e9lula. A pesquisa sobre canais i\u00f4nicos se tornou um grande t\u00f3pico na ind\u00fastria farmac\u00eautica, pois tamb\u00e9m ajudou a tornar os testes de novas drogas mais seguros. Muitas mol\u00e9culas candidatas a se tornar medicamentos tinham efeitos colaterais graves porque bloqueavam determinados canais i\u00f4nicos no cora\u00e7\u00e3o. Hoje, o FDA [Food and Drug Administration, \u00f3rg\u00e3o que regulamenta o uso de medicamentos nos Estados Unidos] tornou esse tipo de teste obrigat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 H\u00e1 exemplos de tratamentos desenvolvidos gra\u00e7as a esse conhecimento?<br \/>\nNeher\u00a0\u2013 Um dos exemplos que me ocorre \u00e9 o tratamento da diabetes neonatal. \u00c9 uma doen\u00e7a cong\u00eanita rara. Uma pesquisadora da University of Oxford descobriu que muitos casos s\u00e3o em raz\u00e3o do mau funcionamento de um certo canal i\u00f4nico que opera no p\u00e2ncreas e controla a libera\u00e7\u00e3o de insulina. J\u00e1 havia uma droga dispon\u00edvel para tratar diabetes do tipo 2 que atua sobre esse canal e ela descobriu que, com a mesma terapia, era poss\u00edvel controlar o problema desses beb\u00eas. E h\u00e1 tamb\u00e9m o tratamento para dor cr\u00f4nica baseado no bloqueio de uma subforma espec\u00edfica de canal de s\u00f3dio envolvida nas termina\u00e7\u00f5es nervosas.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 H\u00e1 mais de 20 anos o senhor parou de estudar os canais i\u00f4nicos e voltou-se para a neuroci\u00eancia. Qual \u00e9 a quest\u00e3o que o fascina atualmente?<br \/>\nNeher\u00a0\u2013 Tenho tentado entender como ocorre a libera\u00e7\u00e3o de neurotransmissores e a transmiss\u00e3o sin\u00e1ptica. Parece-me que, apesar de conhecermos muitos dos componentes das mol\u00e9culas envolvidas no processo de libera\u00e7\u00e3o de neurotransmissores, ainda n\u00e3o entendemos exatamente como isso acontece. De que forma ves\u00edculas que cont\u00eam neurotransmissores se fundem com a membrana celular.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Que tipo de avan\u00e7o esse conhecimento poder\u00e1 trazer?<br \/>\nNeher\u00a0\u2013 Claro que o objetivo final \u00e9 entender as doen\u00e7as neurol\u00f3gicas. Muitas delas s\u00e3o baseadas no mau funcionamento das transmiss\u00f5es sin\u00e1pticas. Para ter um sistema nervoso trabalhando de forma apropriada \u00e9 preciso haver um balan\u00e7o entre sinapses excitat\u00f3rias e sinapses inibit\u00f3rias. A transmiss\u00e3o sin\u00e1ptica tem plasticidade e sua intensidade est\u00e1 em constante mudan\u00e7a dependendo do fluxo de informa\u00e7\u00e3o pelo sistema. Essa plasticidade ocorre em todas as escalas de tempo, podem ser milissegundos ou mais. Tudo isso requer uma enorme variedade de processos reguladores para que o sistema nervoso funcione adequadamente. N\u00e3o podemos entender doen\u00e7as como esquizofrenia, transtorno bipolar ou autismo sem conhecer o que ocorre no n\u00edvel celular. Claro que n\u00e3o podemos garantir que o conhecimento em n\u00edvel celular ser\u00e1 o suficiente para achar uma cura para essas doen\u00e7as, mas, por outro lado, achar uma cura sem ter esse conhecimento me parece imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 \u00c9 a primeira vez que o senhor visita o Brasil? O que conhece sobre o cen\u00e1rio da ci\u00eancia brasileira?<br \/>\nNeher\u00a0\u2013 J\u00e1 estive outras duas vezes no pa\u00eds. A primeira foi em 2005, quando dei uma palestra a convite da Sociedade Brasileira de Bioqu\u00edmica e Biologia Molecular. Em 2007, participei do simp\u00f3sio inaugural do Instituto Internacional de Neuroci\u00eancias de Natal [Edmond e Lily Safra]. Mas n\u00e3o conhe\u00e7o bem o cen\u00e1rio cient\u00edfico brasileiro e n\u00e3o tive colabora\u00e7\u00f5es formais com pesquisadores daqui. Tenho a no\u00e7\u00e3o de que a ci\u00eancia est\u00e1 se desenvolvendo rapidamente no pa\u00eds, particularmente em S\u00e3o Paulo, onde h\u00e1 bom suporte financeiro. Penso que o Brasil est\u00e1 em um bom caminho.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Como est\u00e1 o cen\u00e1rio na Alemanha e na Europa com a crise econ\u00f4mica?<br \/>\nNeher\u00a0\u2013 A maior parte da Europa tem alguma dificuldade, principalmente Espanha, It\u00e1lia e \u2013 em menor grau \u2013 Fran\u00e7a. Mas a Alemanha tem se sa\u00eddo bem durante esse tempo, pois o pa\u00eds passou por reformas bastante severas no sistema social e no financiamento \u00e0 pesquisa. Temos um bom suporte \u00e0 pesquisa e a grande vantagem da economia alem\u00e3 \u00e9 ter uma ind\u00fastria muito competitiva de carros e muitas ind\u00fastrias de porte m\u00e9dio que fabricam equipamentos para f\u00e1bricas. Durante esses anos da crise, houve uma demanda grande por esse tipo de equipamento pelos pa\u00edses do Bric [grupo formado por Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia e China\u00a0]. Isso nos coloca em uma boa posi\u00e7\u00e3o e o governo \u2013 nos \u00faltimos cinco anos \u2013 manteve sua promessa de aumentar anualmente o financiamento \u00e0 pesquisa. Podemos dizer que somos afortunados.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 O senhor j\u00e1 contou em entrevistas anteriores que conheceu sua mulher no laborat\u00f3rio e tiveram cinco filhos. Como foi poss\u00edvel conciliar carreira e fam\u00edlia?<br \/>\nNeher\u00a0\u2013 \u00c9ramos ambos pesquisadores do Max Planck. Minha mulher teve de desistir de sua carreira na ci\u00eancia ap\u00f3s o terceiro filho e n\u00e3o foi nada f\u00e1cil para ela. Mas, recentemente, ela voltou a trabalhar com assuntos ligados \u00e0 ci\u00eancia em um instituto dedicado a oferecer educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no ensino m\u00e9dio. Nesse instituto, alunos podem ir sozinhos ou em turma realizar experimentos de alto n\u00edvel. Ali\u00e1s, ela esteve no Rio de Janeiro \u2013 durante o F\u00f3rum Mundial de Ci\u00eancia 2013 \u2013 e deu uma palestra sobre educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 J\u00e1 que o senhor mencionou o tema educa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, acredita que o ensino e a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica s\u00e3o atividades que devem fazer parte da carreira de um cientista?<br \/>\nNeher\u00a0\u2013 Claro que os cientistas devem fazer um esfor\u00e7o para explicar ao p\u00fablico como o dinheiro est\u00e1 sendo gasto. Tamb\u00e9m devem contribuir para recrutar jovens cientistas e torn\u00e1-los interessados em sua pesquisa. Mas nem todo bom cientista \u00e9 um bom comunicador; n\u00e3o podemos esperar que todos fa\u00e7am isso. Alguns s\u00e3o bons professores, outros apenas entediam sua audi\u00eancia com detalhes sobre sua pesquisa. E isso n\u00e3o \u00e9 bom. Por outro lado, na Alemanha, temos um jornalismo cient\u00edfico muito elaborado, com pessoas engajadas e treinadas para comunicar e fazer as coisas parecerem mais interessantes. Minha posi\u00e7\u00e3o \u00e9: sim, \u00e9 importante divulgar a ci\u00eancia, mas sem tornar cansativo para o p\u00fablico e sem gastar todo o tempo do cientista com divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Al\u00e9m da ci\u00eancia, a que outras atividades o senhor dedica seu tempo?<br \/>\nNeher\u00a0\u2013 De maneira geral, penso ser verdadeira a ideia de que, para um cientista, a ci\u00eancia \u00e9 ao mesmo tempo um hobby e uma profiss\u00e3o. Mas claro que voc\u00ea n\u00e3o pode se dedicar a ela o tempo todo. Tenho tamb\u00e9m interesses em economia, em artes, toco um pouco de piano e sou muito fascinado por temas ligados a energias renov\u00e1veis. Como hobby, eu opero um moinho de \u00e1gua para gera\u00e7\u00e3o de energia.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Qual conselho daria aos jovens pesquisadores brasileiros?<br \/>\nNeher\u00a0\u2013 Para um cientista, \u00e9 realmente importante ser cativado por um problema e isso significa estar constantemente pensando a respeito desse assunto. \u00c9 o que chamo de estilo de vida da ci\u00eancia. Claro que \u00e9 imposs\u00edvel fazer isso 24 horas por dia; \u00e9 preciso dormir, interagir com a fam\u00edlia e tudo o mais. Mas, pelo menos, sempre que estiver sozinho, nos momentos tranquilos, deve-se pensar sobre seu problema, avaliar os experimentos de seu laborat\u00f3rio em um outro contexto, comparar os resultados com sua hip\u00f3tese e tentar buscar solu\u00e7\u00f5es de diferentes \u00e2ngulos. O jovem pesquisador deve avaliar se tem essa curiosidade que o cativa. Em seguida, deve avaliar se o problema que o instiga \u00e9 pelo menos importante o suficiente para lhe prover o sustento. Afinal, n\u00e3o se vive de ar. Uma vez que esses dois requisitos forem atendidos, deve verificar se tem as habilidades que o tornam capaz de alcan\u00e7ar seus objetivos.<\/p>\n<p>Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 O que mudou ap\u00f3s ganhar o Nobel?<br \/>\nNeher\u00a0\u2013 Com o Nobel v\u00eam muitas novas demandas para o tempo do cientista. Muitas pessoas pensam que o pr\u00eamio as habilita para falar sobre qualquer assunto. Claro que isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Ganhamos o Nobel por um conhecimento muito espec\u00edfico, por resolver problemas espec\u00edficos. Os cientistas t\u00eam de aprender a lidar com essas novas demandas de forma que sobre tempo suficiente para sua pesquisa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 Foi durante o ensino m\u00e9dio que o biof\u00edsico alem\u00e3o Erwin Neher, hoje com 69 anos, ficou fascinado com a ideia de que pelas c\u00e9lulas do corpo humano percorriam correntes el\u00e9tricas. O desejo de compreender melhor esse fen\u00f4meno o direcionou para a carreira cient\u00edfica. 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