{"id":53172,"date":"2014-03-20T15:03:48","date_gmt":"2014-03-20T18:03:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=53172"},"modified":"2014-03-20T15:03:48","modified_gmt":"2014-03-20T18:03:48","slug":"proteina-produzida-no-tecido-adiposo-e-gatilho-para-diabetes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2014\/proteina-produzida-no-tecido-adiposo-e-gatilho-para-diabetes\/53172","title":{"rendered":"Prote\u00edna produzida no tecido adiposo \u00e9 gatilho para diabetes"},"content":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 J\u00e1 est\u00e1 bem estabelecida na literatura cient\u00edfica a rela\u00e7\u00e3o entre obesidade \u2013 principalmente gordura visceral \u2013, inflama\u00e7\u00e3o sist\u00eamica cr\u00f4nica e o desenvolvimento de dist\u00farbios metab\u00f3licos como <em><strong>diabetes<\/strong><\/em>. Em\u00a0\u00a0em mar\u00e7o na revista\u00a0Cell Metabolism, pesquisadores da Harvard University, nos Estados Unidos, descreveram o papel de uma prote\u00edna secretada pelo tecido adiposo e pelo f\u00edgado \u2013 a RBP4 \u2013 na ativa\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas de defesa produtoras de subst\u00e2ncias inflamat\u00f3rias e na consequente indu\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia \u00e0 insulina.<\/p>\n<p>\u201cMostramos que a RBP4, uma prote\u00edna encontrada em concentra\u00e7\u00f5es duas ou tr\u00eas vezes mais altas em obesos e diab\u00e9ticos, funciona como gatilho para a inflama\u00e7\u00e3o no tecido adiposo. Essa mol\u00e9cula \u00e9, portanto, um alvo para novos medicamentos\u201d, disse o brasileiro Pedro Moraes-Vieira, autor principal do artigo.<\/p>\n<p>Moraes-Vieira cursou\u00a0\u00a0e\u00a0\u00a0na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) com apoio da FAPESP. Atualmente, realiza p\u00f3s-doutorado em Harvard sob a supervis\u00e3o de Barbara Kahn, professora da Divis\u00e3o de Endocrinologia.<\/p>\n<p>De acordo com o pesquisador, acreditava-se at\u00e9 a d\u00e9cada de 1990 que a \u00fanica fun\u00e7\u00e3o da prote\u00edna RBP4 no organismo era transportar vitamina A. No entanto, estudos epidemiol\u00f3gicos recentes com humanos indicaram haver correla\u00e7\u00e3o entre resist\u00eancia \u00e0 insulina, inflama\u00e7\u00e3o sist\u00eamica e concentra\u00e7\u00f5es elevadas de RBP4.<\/p>\n<p>Em 2005, uma pesquisa coordenada por Kahn e feita com camundongos mostrou que a express\u00e3o da prote\u00edna RBP4 aumentava \u00e0 medida que animais sadios se tornavam resistentes \u00e0 insulina.<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 esse momento, n\u00e3o estava claro o mecanismo pelo qual a eleva\u00e7\u00e3o da RBP4 induzia o dist\u00farbio metab\u00f3lico. Nosso estudo tinha o objetivo de entender como essa prote\u00edna poderia modular a inflama\u00e7\u00e3o, principalmente no tecido adiposo\u201d, explicou Moraes-Vieira.<\/p>\n<p>Para fazer a investiga\u00e7\u00e3o, o grupo usou um modelo de camundongos transg\u00eanicos capazes de expressar a prote\u00edna RBP4 nas c\u00e9lulas musculares. \u201cNossos animais apresentavam o mesmo grau de eleva\u00e7\u00e3o na concentra\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea de RBP4 observado em humanos obesos ou diab\u00e9ticos, ou seja, cerca de tr\u00eas vezes maior que o normal. Os camundongos transg\u00eanicos tornavam-se diab\u00e9ticos por volta da sexta semana de vida, embora permanecessem magros\u201d, contou Moraes-Vieira.<\/p>\n<p>Enquanto nos ratos a eleva\u00e7\u00e3o da RBP4 era resultante da transgenia, no caso dos humanos acredita-se que possa ser causada pelo aumento do tecido adiposo visceral ou pelo estresse metab\u00f3lico provocado pelo ac\u00famulo de gordura no f\u00edgado, explicou o pesquisador.<\/p>\n<p>As an\u00e1lises<\/p>\n<p>Quando os animais transg\u00eanicos completaram de oito a dez semanas de vida, os pesquisadores mediram o \u00edndice de massa corp\u00f3rea (IMC), a porcentagem de gordura e de massa magra, as concentra\u00e7\u00f5es de \u00e1cidos graxos e colesterol no sangue e fizeram testes de toler\u00e2ncia \u00e0 glicose e \u00e0 insulina.<\/p>\n<p>Ao comparar os resultados com os do grupo controle, formado por camundongos com concentra\u00e7\u00f5es normais de RBP4, o grupo transg\u00eanico apresentou diferen\u00e7a apenas nos testes de toler\u00e2ncia \u00e0 glicose e \u00e0 insulina, que confirmaram o diabetes.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o sacrif\u00edcio dos roedores, os pesquisadores avaliaram a presen\u00e7a de subst\u00e2ncias inflamat\u00f3rias no tecido adiposo visceral e subcut\u00e2neo, no ba\u00e7o, nos linfonodos e no f\u00edgado.<\/p>\n<p>\u201cObservamos uma grande inflama\u00e7\u00e3o no tecido adiposo visceral, com ativa\u00e7\u00e3o tanto de c\u00e9lulas do sistema imune inato quanto do sistema imune adaptativo. Vimos tamb\u00e9m uma inflama\u00e7\u00e3o moderada no f\u00edgado, com ativa\u00e7\u00e3o apenas do sistema imune inato. Isso porque a RBP4 tende a se acumular mais no tecido adiposo\u201d, contou Moraes-Vieira.<\/p>\n<p>Por meio de uma t\u00e9cnica conhecida como citometria de fluxo \u2013 usada para contar, fenotipar, examinar e classificar c\u00e9lulas \u2013, os pesquisadores analisaram os leuc\u00f3citos presentes nos tecidos inflamados.<\/p>\n<p>\u201cA literatura cient\u00edfica relata a exist\u00eancia de dois tipos de macr\u00f3fagos no tecido adiposo visceral \u2013 um pr\u00f3-inflamat\u00f3rio e outro anti-inflamat\u00f3rio. Observamos que a prote\u00edna RBP4 faz com que macr\u00f3fagos anti-inflamat\u00f3rios tamb\u00e9m comecem a produzir citocinas pr\u00f3-inflamat\u00f3rias. Esse macr\u00f3fago transformado ativa o sistema imune adaptativo e induz a produ\u00e7\u00e3o de linf\u00f3citos T CD4 do tipo TH1\u201d, contou Moraes-Vieira.<\/p>\n<p>De acordo com o pesquisador, as c\u00e9lulas do tipo TH1 s\u00e3o especializadas em secretar uma subst\u00e2ncia inflamat\u00f3ria chamada interferon-gamma (IFN-?). Em excesso, essa citocina interfere na sinaliza\u00e7\u00e3o dos adip\u00f3citos, ativa ainda mais os macr\u00f3fagos e impede a a\u00e7\u00e3o eficiente da insulina.<\/p>\n<p>Para testar a hip\u00f3tese de que eram os macr\u00f3fagos \u2013 considerada uma das c\u00e9lulas apresentadoras de ant\u00edgenos (APCs, na sigla em ingl\u00eas) \u2013 os respons\u00e1veis pela ativa\u00e7\u00e3o do sistema imune adaptativo e a consequente indu\u00e7\u00e3o da inflama\u00e7\u00e3o, o grupo realizou outro experimento.<\/p>\n<p>\u201cIsolamos c\u00e9lulas dendr\u00edticas de camundongos, que s\u00e3o um outro tipo de APC, as ativamos com RBP4 e as infundimos em camundongos sadios. Ap\u00f3s seis semanas de infus\u00f5es semanais, os animais ficaram diab\u00e9ticos e desenvolveram inflama\u00e7\u00e3o no tecido adiposo visceral, com grande concentra\u00e7\u00e3o de linf\u00f3citos do tipo TH1\u201d, contou Moraes-Vieira.<\/p>\n<p>Um terceiro experimento feito tamb\u00e9m com animais transg\u00eanicos revelou que uma via de sinaliza\u00e7\u00e3o celular mediada pela prote\u00edna JNK \u00e9 fundamental para que o efeito inflamat\u00f3rio desencadeado pela RBP4 aconte\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cPor meio de uma parceria com pesquisadores da University of Massachusetts, nos Estados Unidos, desenvolvemos um modelo de camundongo transg\u00eanico nocaute para a JNK [o gene respons\u00e1vel pela express\u00e3o da prote\u00edna foi silenciado] apenas nos macr\u00f3fagos. Isolamos ent\u00e3o os macr\u00f3fagos pr\u00f3-inflamat\u00f3rios e anti-inflamat\u00f3rios do tecido adiposo visceral desses animais e tratamos com RBP4, mas n\u00e3o ocorreu a ativa\u00e7\u00e3o do sistema imune adaptativo. Ou seja, sem a via da JNK a inflama\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 desencadeada\u201d, contou Moraes-Vieira.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador, o papel-chave da RBP4 no desenvolvimento de diabetes tipo 2 em obesos j\u00e1 despertou o interesse da ind\u00fastria farmac\u00eautica.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 uma empresa investigando imunobiol\u00f3gicos potencialmente capazes de diminuir a concentra\u00e7\u00e3o de RBP4 na circula\u00e7\u00e3o. Isso ajudaria a diminuir a inflama\u00e7\u00e3o no tecido adiposo e, teoricamente, melhoraria a resist\u00eancia \u00e0 insulina\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0RBP4 Activates Antigen-Presenting Cells, Leading to Adipose Tissue Inflammation and Systemic Insulin Resistance (doi: 10.1016\/j.cmet.2014.01.018)\u00a0pode ser lido em\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Karina Toledo Ag\u00eancia FAPESP\u00a0\u2013 J\u00e1 est\u00e1 bem estabelecida na literatura cient\u00edfica a rela\u00e7\u00e3o entre obesidade \u2013 principalmente gordura visceral \u2013, inflama\u00e7\u00e3o sist\u00eamica cr\u00f4nica e o desenvolvimento de dist\u00farbios metab\u00f3licos como diabetes. 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