{"id":69667,"date":"2015-04-29T18:00:36","date_gmt":"2015-04-29T21:00:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=69667"},"modified":"2015-04-29T18:00:36","modified_gmt":"2015-04-29T21:00:36","slug":"as-licoes-da-seca-do-milenio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2015\/as-licoes-da-seca-do-milenio\/69667","title":{"rendered":"As li\u00e7\u00f5es da Seca do Mil\u00eanio"},"content":{"rendered":"<p>Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Acostumados a conviver com a altern\u00e2ncia entre per\u00edodos de seca e de inunda\u00e7\u00f5es, os australianos foram surpreendidos no fim do s\u00e9culo 20 pela chamada <strong><em>Seca do Mil\u00eanio<\/em><\/strong>, uma estiagem sem precedentes que atingiu todo o pa\u00eds entre os anos de 1997 e 2009 e afetou fortemente a cidade de Melbourne, capital do estado de Victoria.<\/p>\n<p>\u201cFoi uma seca completamente diferente do que se poderia prever com a an\u00e1lise de mais de 100 anos de registros meteorol\u00f3gicos. Quando a estiagem finalmente terminou, tivemos enchentes em v\u00e1rias cidades, al\u00e9m de fortes ondas de calor. Foram batidos 123 recordes meteorol\u00f3gicos, de precipita\u00e7\u00e3o e de temperatura, no ver\u00e3o de 2012\/2013. No ano seguinte, foram 156 recordes\u201d, relatou Tony Wong, diretor executivo do Centro de Pesquisa Cooperativa para Cidades Sens\u00edveis \u00e0 \u00c1gua \u2013 uma iniciativa do governo australiano que re\u00fane pesquisadores de v\u00e1rias \u00e1reas e institui\u00e7\u00f5es, ind\u00fastrias e parceiros governamentais para o desenvolvimento de solu\u00e7\u00f5es sociais e tecnol\u00f3gicas para a gest\u00e3o da \u00e1gua urbana.<\/p>\n<p>A seca afetou fortemente o afluxo de \u00e1gua para os reservat\u00f3rios respons\u00e1veis pelo abastecimento de Melbourne. Em 2008, o n\u00edvel da principal represa da regi\u00e3o, instalada no rio Thomson, era semelhante \u00e0 situa\u00e7\u00e3o atual do sistema Cantareira, em S\u00e3o Paulo. Embora o n\u00edvel da represa australiana tenha melhorado nos anos seguintes, jamais retornou \u00e0 m\u00e9dia hist\u00f3rica e voltou a cair recentemente.<\/p>\n<p>\u201cHouve um momento em que ficamos realmente preocupados, pois havia \u00e1gua suficiente apenas para 18 meses de abastecimento. Foi quando tomamos a decis\u00e3o de construir uma planta de dessaliniza\u00e7\u00e3o\u201d, contou Wong.<\/p>\n<p>Em um evento realizado em S\u00e3o Paulo, no dia 22 de abril, com a participa\u00e7\u00e3o da FAPESP, Wong afirmou que a Seca do Mil\u00eanio ensinou duas importantes li\u00e7\u00f5es aos australianos. A primeira \u00e9 que, em um cen\u00e1rio de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas sujeito a eventos extremos, a gest\u00e3o dos recursos h\u00eddricos de uma cidade n\u00e3o pode se basear apenas na an\u00e1lise de s\u00e9ries hist\u00f3ricas de dados meteorol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a infraestrutura para o futuro deve ser planejada de modo a acomodar os eventos extremos de maneira integrada, ou seja, as solu\u00e7\u00f5es n\u00e3o devem mirar fen\u00f4menos como seca e enchente isoladamente.<\/p>\n<p>Wong integrou a Miss\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o para a Am\u00e9rica Latina, organizada pelo governo de Victoria, um dos mais importantes estados australianos, com o objetivo de fomentar colabora\u00e7\u00e3o acad\u00eamica em \u00e1reas como educa\u00e7\u00e3o, gest\u00e3o da \u00e1gua, planejamento urbano, agricultura e biotecnologia.<\/p>\n<p>Ele lembrou que, desde 2004, quando os especialistas australianos ainda afirmavam que a estiagem n\u00e3o passava de um evento comum de variabilidade clim\u00e1tica, o governo de Victoria j\u00e1 vinha tomando uma s\u00e9rie de medidas para minimizar os impactos da escassez h\u00eddrica. O primeiro passo foi investir em estrat\u00e9gias de conserva\u00e7\u00e3o da \u00e1gua.<\/p>\n<p>\u201cTeve in\u00edcio uma grande campanha para mudar o comportamento das pessoas. Um grande cartaz foi instalado em nossa principal esta\u00e7\u00e3o de trem para alertar diariamente para os n\u00edveis dos reservat\u00f3rios, e os \u00edndices iam caindo dia a dia. Foi ent\u00e3o que percebemos que est\u00e1vamos enfrentando uma crise h\u00eddrica\u201d, relatou.<\/p>\n<p>Em n\u00edvel nacional, os cidad\u00e3os tiveram de conviver com medidas de restri\u00e7\u00e3o. Foram proibidos, por exemplo, de usar \u00e1gua pot\u00e1vel na lavagem de carros ou na irriga\u00e7\u00e3o de jardins.<\/p>\n<p>A campanha para a redu\u00e7\u00e3o do consumo dom\u00e9stico foi aliada a estrat\u00e9gias de conserva\u00e7\u00e3o no setor agr\u00edcola. Um programa de moderniza\u00e7\u00e3o dos sistemas de irriga\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia come\u00e7ado a ser implantado antes mesmo do in\u00edcio da seca e ajudou a aumentar a efici\u00eancia no uso da \u00e1gua de 30% para 80% nas fazendas australianas. Al\u00e9m disso, foi criado uma esp\u00e9cie de mercado da \u00e1gua, no qual os fazendeiros podiam vender seu excedente para colegas cujas culturas demandam maior volume de recurso h\u00eddrico.<\/p>\n<p>\u201cO consumo por habitante em Melbourne come\u00e7ou a cair na medida em que a comunidade como um todo foi ficando mais engajada. Se n\u00e3o fosse por essa mudan\u00e7a de comportamento, ter\u00edamos ficado completamente sem \u00e1gua at\u00e9 2009. A estrat\u00e9gia de conserva\u00e7\u00e3o salvou a cidade, pois n\u00e3o havia tempo h\u00e1bil para construir a planta de dessaliniza\u00e7\u00e3o\u201d, disse Wong.<\/p>\n<p>Paralelamente \u00e0s medidas de conserva\u00e7\u00e3o, foram idealizadas iniciativas para aumentar a capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua de fontes alternativas, que inclu\u00edram o desenvolvimento de infraestrutura para aproveitamento de \u00e1guas pluviais e reciclagem de \u00e1guas residu\u00e1rias.<\/p>\n<p>\u201cMas por volta de 2007 ficou evidente que todas essas iniciativas levam tempo para serem efetivadas e apresentarem solu\u00e7\u00f5es reais e, por isso, o governo decidiu investir em dessaliniza\u00e7\u00e3o. A seca terminou antes de a planta ficar pronta e at\u00e9 hoje ela n\u00e3o foi acionada. Mas essa infraestrutura nos concedeu um per\u00edodo de certeza \u2013 de que se a seca vier, n\u00e3o faltar\u00e1 \u00e1gua \u2013 e nos permite investir em solu\u00e7\u00f5es de longo prazo mais sustent\u00e1veis como reciclagem de \u00e1gua\u201d, avaliou Wong.<\/p>\n<p>Diversidade de fontes<\/p>\n<p>Outra importante li\u00e7\u00e3o aprendida com a Seca do Mil\u00eanio, segundo Wong, foi a necessidade de diversificar o portf\u00f3lio de fontes de \u00e1gua e rever constantemente as estrat\u00e9gias com base na emerg\u00eancia de novas tecnologias. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, na avalia\u00e7\u00e3o do australiano, garantir seguran\u00e7a h\u00eddrica \u00e0s cidades apenas com base no modelo tradicional de capta\u00e7\u00e3o por meio de represas.<\/p>\n<p>\u201cNosso esgoto \u00e9 um recurso frequentemente ignorado e podemos criar solu\u00e7\u00f5es descentralizadas para reaproveitar essa \u00e1gua na irriga\u00e7\u00e3o de plantas e nas descargas de sanit\u00e1rios, por exemplo. Com pol\u00edticas p\u00fablicas adequadas, cada vez que um pr\u00e9dio antigo for abaixo podemos estimular que o novo introduza infraestrutura para re\u00faso de \u00e1gua\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>J\u00e1 o investimento em infraestrutura para coleta de \u00e1gua da chuva pode, segundo Wong, ajudar a solucionar tamb\u00e9m o problema das enchentes.<\/p>\n<p>\u201cEm Melbourne estamos construindo grandes \u00e1reas alag\u00e1veis para coleta de \u00e1gua pluvial e, assim, tamb\u00e9m conseguimos evitar inunda\u00e7\u00f5es em regi\u00f5es vulner\u00e1veis. Com o monitoramento dos radares meteorol\u00f3gicos, podemos prever a chegada de uma tempestade e drenar os reservat\u00f3rios a tempo\u201d, disse.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel confiar em dados hist\u00f3ricos para prever condi\u00e7\u00f5es futuras, uma vez que a ci\u00eancia mostra que n\u00e3o h\u00e1 mais estacionariedade, Wong defende o uso de modelos matem\u00e1ticos para simular cen\u00e1rios futuros e avaliar o impacto de pol\u00edticas p\u00fablicas antes que sejam implementadas.<\/p>\n<p>\u201cA infraestrutura do futuro ter\u00e1 de ser uma combina\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es centralizadas (grandes iniciativas implementadas pelos governos) e descentralizadas (solu\u00e7\u00f5es locais, implementadas pelos cidad\u00e3os e estimuladas por pol\u00edticas p\u00fablicas). E s\u00e3o as solu\u00e7\u00f5es descentralizadas que dar\u00e3o \u00e0s cidades resili\u00eancia para sobreviver em um clima de incerteza\u201d, afirmou Wong.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de Wong, outros 20 representantes de universidades e institui\u00e7\u00f5es de pesquisa e do governo do estado de Victoria fizeram parte da Miss\u00e3o de Educa\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m passou pelo Chile e seguir\u00e1 para Col\u00f4mbia e Peru.<\/p>\n<p>\u201cMuitas cidades latino-americanas compartilham desafios similares aos da Austr\u00e1lia e aos do estado de Victoria. Essas experi\u00eancias compartilhadas ressaltam \u00e1reas de interesse m\u00fatuo e poss\u00edveis alian\u00e7as entre nossos governos, pesquisadores e especialistas em educa\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou Steven Herbert, ministro de Educa\u00e7\u00e3o Profissional e Tecnol\u00f3gica do estado de Victoria e chefe da miss\u00e3o.<\/p>\n<p>A c\u00f4nsul e adido comercial da Australian Trade Comission em S\u00e3o Paulo, Sheila Hunter, afirmou que os australianos est\u00e3o familiarizados com o problema da escassez h\u00eddrica e desejam compartilhar sua experi\u00eancia com os paulistas.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o Paulo est\u00e1 enfrentando uma grave crise nos reservat\u00f3rios de \u00e1gua. Esperamos que ao compartilhar nosso aprendizado possamos ajudar a identificar solu\u00e7\u00f5es inovadoras para lidar com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que todos iremos enfrentar no futuro\u201d, disse.<\/p>\n<p>Representando a FAPESP no evento estiveram o assessor da presid\u00eancia Fernando Menezes, o coordenador adjunto de Pesquisa para Inova\u00e7\u00e3o e do Plano Diretor de Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o para o Estado de S\u00e3o Paulo, Sergio Robles Reis de Queiroz, e o coordenador do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas Globais (PFPMCG), Reynaldo Luiz Victoria.<\/p>\n<p>Para falar sobre a atual crise h\u00eddrica enfrentada pelo Estado de S\u00e3o Paulo e as estrat\u00e9gias que est\u00e3o sendo implementadas para aumentar a seguran\u00e7a h\u00eddrica na regi\u00e3o esteve presente o professor Am\u00e9rico Sampaio, coordenador de Saneamento da Secretaria de Saneamento e Recursos H\u00eddricos do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>\u201cA dessaliniza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua do mar por enquanto est\u00e1 descartada em S\u00e3o Paulo em raz\u00e3o do alto custo. Temos de conciliar a gest\u00e3o da oferta \u2013 ir atr\u00e1s de novos mananciais cada vez mais distantes, o que historicamente sempre foi feito no Brasil e em S\u00e3o Paulo \u2013 e a gest\u00e3o da demanda adotar medidas para reduzir o consumo\u201d, disse Sampaio.<\/p>\n<p>Como exemplos de gest\u00e3o da oferta Sampaio citou as obras emergenciais e tamb\u00e9m as de m\u00e9dio e longo prazo que est\u00e3o sendo implementadas pelo governo estadual, entre elas a transposi\u00e7\u00e3o de \u00e1guas do Rio Para\u00edba do Sul.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito da gest\u00e3o da demanda, Sampaio afirmou que o governo paulista pretende estimular a medi\u00e7\u00e3o individualizada da \u00e1gua em condom\u00ednios, a ado\u00e7\u00e3o de infraestrutura para re\u00faso da \u00e1gua e a troca de aparelhos sanit\u00e1rios \u2013 vasos, chuveiros e torneiras \u2013 por modelos poupadores. Disse ainda que \u00e9 preciso rever o valor da tarifa de \u00e1gua, considerada por ele muito barata, e investir no controle de perdas do sistema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Acostumados a conviver com a altern\u00e2ncia entre per\u00edodos de seca e de inunda\u00e7\u00f5es, os australianos foram surpreendidos no fim do s\u00e9culo 20 pela chamada Seca do Mil\u00eanio, uma estiagem sem precedentes que atingiu todo o pa\u00eds entre os anos de 1997 e 2009 e afetou fortemente a cidade de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":28409,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"tdm_status":"","tdm_grid_status":"","footnotes":""},"categories":[22],"tags":[],"class_list":{"0":"post-69667","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil"},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69667","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69667"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69667\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28409"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69667"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69667"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69667"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}