{"id":76267,"date":"2015-10-13T16:30:21","date_gmt":"2015-10-13T19:30:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=76267"},"modified":"2015-10-13T16:30:21","modified_gmt":"2015-10-13T19:30:21","slug":"remedio-para-gastrite-pode-ser-nova-arma-contra-esquistossomose","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2015\/remedio-para-gastrite-pode-ser-nova-arma-contra-esquistossomose\/76267","title":{"rendered":"Rem\u00e9dio para gastrite pode ser nova arma contra esquistossomose"},"content":{"rendered":"<p> Reinaldo Jos\u00e9 Lopes | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Quem tem problemas estomacais recorrentes conhece o omeprazol, medicamento receitado para tratar de gastrite e \u00falceras, entre outras disfun\u00e7\u00f5es digestivas. Usando t\u00e9cnicas gen\u00f4micas, pesquisadores do Instituto de Qu\u00edmica da Universidade de S\u00e3o Paulo (IQ-USP), do Instituto Butantan e de outras institui\u00e7\u00f5es nacionais descobriram uma capacidade insuspeita para esse mesmo f\u00e1rmaco: potencializar a a\u00e7\u00e3o da droga normalmente utilizada contra o verme Schistosoma mansoni, causador da <strong><em>esquistossomose<\/em><\/strong> (ou barriga d\u2019\u00e1gua, como \u00e9 conhecida popularmente).<\/p>\n<p>A descoberta, publicada na revista cient\u00edfica de acesso livre , ocorreu quando os pesquisadores se puseram a mapear o padr\u00e3o de ativa\u00e7\u00e3o dos genes do S. mansoni depois de os parasitas serem afetados por quantidades modestas de praziquantel, medicamento cuja administra\u00e7\u00e3o aos pacientes, em uma \u00fanica dose oral por ano, normalmente \u00e9 suficiente para eliminar os vermes.<\/p>\n<p>Entre os genes que pareciam estar associados \u00e0 rea\u00e7\u00e3o do esquistossomo contra a droga, havia diversas regi\u00f5es do DNA cujos equivalentes em humanos est\u00e3o ligados \u00e0 a\u00e7\u00e3o de medicamentos conhecidos, e um dos mais interessantes da lista \u00e9 justamente o omeprazol.<\/p>\n<p>Sergio Verjovski-Almeida, professor no Departamento de Bioqu\u00edmica do IQ-USP e coordenador do estudo, explica que a busca por f\u00e1rmacos que possam atuar em sinergia com o praziquantel deriva, paradoxalmente, do sucesso desse medicamento antiesquistossomose.<\/p>\n<p>Como o praziquantel \u00e9 a \u00fanica droga usada em larga escala contra a doen\u00e7a, teme-se que, mais cedo ou mais tarde, apare\u00e7am linhagens do S. mansoni que sejam resistentes a ele, mais ou menos como ocorre na corrida armamentista entre antibi\u00f3ticos e cepas de bact\u00e9rias.<\/p>\n<p>\u201cAinda n\u00e3o se sabe ao certo se essa resist\u00eancia j\u00e1 surgiu de forma significativa na natureza. Alguns poss\u00edveis casos de resist\u00eancia talvez se devam apenas ao uso incorreto do praziquantel. Mas, de qualquer maneira, a preocupa\u00e7\u00e3o existe\u201d, conta Verjovski-Almeida.<\/p>\n<p>O uso combinado de dois f\u00e1rmacos diferentes diminui muito essa possibilidade, j\u00e1 que o organismo do parasita precisaria ser \u201csortudo\u201d o suficiente para carregar varia\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que o tornassem resistente a ambas as drogas.<\/p>\n<p>Ao buscar novos \u201ccalcanhares de aquiles\u201d do verme nos genes afetados pelo praziquantel, Verjovski-Almeida conta ter se inspirado, em parte, nos seus trabalhos com gen\u00f4mica de c\u00e9lulas do c\u00e2ncer.<\/p>\n<p>\u201cNo c\u00e2ncer, quando se usa uma droga contra o tumor, \u00e9 comum que rapidamente as c\u00e9lulas cancerosas sofram muta\u00e7\u00f5es que podem conferir resist\u00eancia contra o tratamento, e as c\u00e9lulas com essas muta\u00e7\u00f5es logo produzem muitos clones. A ideia, ent\u00e3o, \u00e9 tentar entender essas redes de altera\u00e7\u00f5es gen\u00f4micas\u201d, explicou. \u201cEssa \u00e9 a vantagem da minha maluquice de trabalhar nessas duas coisas diferentes ao mesmo tempo\u201d, brincou.<\/p>\n<p>Machos, f\u00eameas e pr\u00f3tons<\/p>\n<p>Para saber quais genes eram afetados pelo f\u00e1rmaco, a equipe obteve, em primeiro lugar, amostras do mRNA (RNA mensageiro) dos parasitas. O mRNA \u00e9 a mol\u00e9cula que serve de intermedi\u00e1rio entre a informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica contida no DNA e os ribossomos, \u201cf\u00e1bricas\u201d de prote\u00ednas que funcionam com base nas instru\u00e7\u00f5es trazidas pelo mRNA. Para ser mais exato, quanto mais c\u00f3pias do mRNA correspondentes a determinado gene est\u00e3o sendo produzidas pela c\u00e9lula, mais ativo est\u00e1 aquele gene.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s esse passo inicial, as mol\u00e9culas de mRNA serviram de \u201cmolde\u201d para a produ\u00e7\u00e3o de seus equivalentes na forma de DNA. Estas, por sua vez, foram adicionadas a um chip com milhares de \u201cpo\u00e7os\u201d nos quais estavam contidas c\u00f3pias de trechos de genes conhecidos do S. mansoni.<\/p>\n<p>A ideia por tr\u00e1s desse processo \u00e9 simples: como o DNA \u00e9 uma mol\u00e9cula conhecida por seus pares de bases complementares \u2013 a base A (adenina) s\u00f3 se liga com a base T (timina), a base C (citosina) s\u00f3 se liga com a G (guanina) \u2013, a t\u00e9cnica promove a liga\u00e7\u00e3o dos trechos de genes previamente colocados no chip com os que estavam ativos nos parasitas vivos.<\/p>\n<p>Como um marcador que pode ser identificado visualmente \u00e9 adicionado aos \u201cpo\u00e7os\u201d, quanto mais frequente for o pareamento, mais vis\u00edvel ser\u00e1 o marcador, portanto ser\u00e1 poss\u00edvel inferir o n\u00edvel de ativa\u00e7\u00e3o de determinado gene.<\/p>\n<p>Os pesquisadores aplicaram essa t\u00e9cnica para tentar identificar os genes afetados pelo praziquantel tanto em machos da esp\u00e9cie quanto em f\u00eameas \u2013 e, no caso destas \u00faltimas, foram avaliadas tanto as f\u00eameas que formavam um casal quanto as que ficaram sem seus machos.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 importante porque o acasalamento da esp\u00e9cie \u00e9 um fen\u00f4meno sui generis: a f\u00eamea se instala dentro da cavidade corporal do macho, em um abra\u00e7o perp\u00e9tuo. \u201cO uso do praziquantel pode desfazer esse elo \u2013 em geral, os machos morrem primeiro, provavelmente porque ficam mais diretamente expostos ao medicamento que est\u00e1 circulando na corrente sangu\u00ednea do paciente\u201d, disse Verjovski-Almeida.<\/p>\n<p>Todos esses fatores podem influenciar a din\u00e2mica da doen\u00e7a e do tratamento. Considerando, por exemplo, os dois tipos diferentes de f\u00eameas, o praziquantel parece aumentar a ativa\u00e7\u00e3o de certos genes nas S. mansoni acasaladas, enquanto o rem\u00e9dio faz mais ou menos os mesmos genes ficarem menos ativos nas f\u00eameas sem pares.<\/p>\n<p>Apesar de tais diferen\u00e7as, por\u00e9m, os pesquisadores encontraram alguns genes afetados independentemente do sexo e \u201cestado civil\u201d dos vermes. Um dos quais mais os intrigaram \u00e9 o SmATP1A2, cuja vers\u00e3o em seres humanos cont\u00e9m o c\u00f3digo para a produ\u00e7\u00e3o de uma enzima que facilita a libera\u00e7\u00e3o de \u00e1cido no est\u00f4mago. Ou seja, \u00e9 justamente o que o omeprazol evita nos pacientes com problemas g\u00e1stricos, diminuindo a acidez estomacal.<\/p>\n<p>\u201cQuando vi essa informa\u00e7\u00e3o, achei que o omeprazol n\u00e3o seria \u00fatil contra o S. mansoni porque o processo ocorreria no est\u00f4mago, mas na realidade ele come\u00e7a na corrente sangu\u00ednea, justamente onde est\u00e3o os parasitas\u201d, disse Verjovski-Almeida.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que, no caso do verme, o gene provavelmente n\u00e3o tem nada a ver com a acidez estomacal, embora sua fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o esteja clara. \u201cO certo \u00e9 que ele est\u00e1 ligado \u00e0 rea\u00e7\u00e3o do parasita contra o praziquantel\u201d, disse o professor da USP.<\/p>\n<p>Tanto \u00e9 assim que, quando doses do praziquantel que n\u00e3o seriam suficientes para matar a maioria dos vermes foram combinadas com as de omeprazol, a mortalidade de machos aumentou oito vezes, enquanto a de f\u00eameas foi tr\u00eas vezes maior, mostraram experimentos in vitro.<\/p>\n<p>O pr\u00f3ximo passo \u00e9 testar a combina\u00e7\u00e3o em modelos animais e, caso os resultados continuem a se mostrar encorajadores, tentar a mesma abordagem em pacientes humanos. A vantagem \u00e9 que ambos os medicamentos s\u00e3o bem conhecidos e usados em pessoas h\u00e1 d\u00e9cadas, o que, em tese, facilitaria o seu uso combinado. \u201cPoder\u00edamos tentar primeiro um ensaio de toxicidade em pacientes\u201d, exemplifica Verjovski-Almeida.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da equipe da USP, o estudo contou ainda com a participa\u00e7\u00e3o de pesquisadores do Instituto Butantan, do Centro de Pesquisas Ren\u00e9 Rachou, da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, em Belo Horizonte, e do Instituto Tecnol\u00f3gico Vale, em Bel\u00e9m. Verjovski-Almeida, inclusive, est\u00e1 prestes a se transferir para o Butantan, onde espera intensificar o lado aplicado dos estudos com o S. mansoni.<\/p>\n<p>O artigo\u00a0Synergy of Omeprazole and Praziquantel In Vitro Treatment against Schistosoma mansoni Adult Worms (doi: 10.1371\/journal.pntd.0004086), de Sergio Verjovski-Almeida e outros, pode ser lido em:\u00a0.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reinaldo Jos\u00e9 Lopes | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Quem tem problemas estomacais recorrentes conhece o omeprazol, medicamento receitado para tratar de gastrite e \u00falceras, entre outras disfun\u00e7\u00f5es digestivas. 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