{"id":79796,"date":"2016-01-15T16:55:49","date_gmt":"2016-01-15T18:55:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=79796"},"modified":"2016-01-15T16:55:49","modified_gmt":"2016-01-15T18:55:49","slug":"o-impacto-do-fenomeno-financeiro-nas-periferias-das-grandes-cidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/o-impacto-do-fenomeno-financeiro-nas-periferias-das-grandes-cidades\/79796","title":{"rendered":"O impacto do fen\u00f4meno financeiro nas periferias das grandes cidades"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Tadeu Arantes | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 A \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d da vida cotidiana, por meio do acesso ao <em><strong>cr\u00e9dito<\/strong><\/em>, tornou-se um dos componentes mais din\u00e2micos do capitalismo contempor\u00e2neo. E fator de reconfigura\u00e7\u00e3o das periferias de metr\u00f3poles de pa\u00edses emergentes. Este foi o fio condutor da pesquisa , apoiada pela FAPESP no \u00e2mbito de  com o Consejo Nacional de Investigaciones Cient\u00edficas y T\u00e9cnicas de la Rep\u00fablica Argentina (Conicet) .<\/p>\n<p>O estudo foi conduzido pelos professores Fabio Betioli Contel, do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), e Mar\u00eda Laura Silveira, do Consejo Nacional de Investigaciones Cient\u00edficas y T\u00e9cnicas de la Rep\u00fablica Argentina (Conicet). E contou com a participa\u00e7\u00e3o de Marina Regitz Montenegro, orientanda de Contel em p\u00f3s-doutorado tamb\u00e9m  pela FAPESP .<\/p>\n<p>\u201cO projeto contribuiu para a aproxima\u00e7\u00e3o e o interc\u00e2mbio de pesquisadores entre a USP e diversas universidades argentinas, mas principalmente com a Universidade de Buenos Aires (UBA)\u201d, disse Contel \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Mencionando por enquanto apenas os dados levantados no Brasil, e ressalvando que tal levantamento se encerrou antes que a crise conjuntural atualmente vislumbrada pudesse aparecer nas estat\u00edsticas, o pesquisador afirmou que o valor das opera\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito contratadas por pessoas f\u00edsicas cresceu quase cem vezes entre 1995 e 2013, passando de R$ 12,9 bilh\u00f5es a R$ 1,251 trilh\u00e3o (dados n\u00e3o deflacionados). Desse total, 58% foram movimentados por fam\u00edlias com renda per capita entre R$ 320 e R$ 1.120.<\/p>\n<p>\u201cPor meio de mecanismos como o cart\u00e3o de cr\u00e9dito, o credi\u00e1rio nas grandes redes de com\u00e9rcio varejista, o financiamento para aquisi\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis, autom\u00f3veis e outros, a \u2018financeiriza\u00e7\u00e3o\u2019 passou a fazer parte da vida cotidiana da popula\u00e7\u00e3o mais pobre. E a forte expans\u00e3o do consumo que ocorreu durante o per\u00edodo estudado s\u00f3 p\u00f4de se viabilizar por causa dela. O n\u00famero de cart\u00f5es de cr\u00e9dito cresceu 590% entre 2000 e 2012, aumentando principalmente entre a popula\u00e7\u00e3o de menor renda.\u201d<\/p>\n<p>&#8220;Coer\u00e7\u00e3o da compra\u201d<\/p>\n<p>Um fen\u00f4meno importante investigado pelos pesquisadores foi que o protagonismo no processo de \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d deixou de se limitar \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos bancos e institui\u00e7\u00f5es especificamente financeiras e passou a ser exercido tamb\u00e9m por grandes redes de com\u00e9rcio varejista. \u201cEssas empresas obt\u00eam, muitas vezes, maior lucratividade com a venda de produtos financeiros, como o cr\u00e9dito ao consumidor, do que com a venda das mercadorias que fabricam ou comercializam. Os juros incorporados \u00e0s presta\u00e7\u00f5es excedem significativamente o valor real dos eletrodom\u00e9sticos ou eletroeletr\u00f4nicos vendidos\u201d, destacou Contel.<\/p>\n<p>A facilidade do cr\u00e9dito proporciona ao consumidor acesso imediato a um bem que sua renda n\u00e3o permitiria ter. Trata-se, como disse o pesquisador, daquilo que na sociologia foi denominado \u201ccoer\u00e7\u00e3o da compra\u201d, no contexto da \u201csociedade do consumo\u201d. \u201cEssa \u2018imediaticidade\u2019 \u00e9 a grande sedu\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito. Se a pessoa economizasse durante alguns meses, poderia, no final do per\u00edodo, comprar o produto pelo pre\u00e7o \u00e0 vista. O cr\u00e9dito lhe permite obter o produto imediatamente. Mas ao pre\u00e7o de pagar, muitas vezes, o dobro do valor.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 preciso considerar que o impulso da compra atende, em v\u00e1rios casos, a uma demanda leg\u00edtima, reprimida durante anos. O comprador pode ter necessidade real de determinado produto ou ser motivado pelo valor simb\u00f3lico que atribui \u00e0 posse dele. Se o seu padr\u00e3o de renda aumenta, h\u00e1 uma tend\u00eancia muito forte de responder a essa demanda.<\/p>\n<p>\u201cUm dos problemas \u00e9 que o consumidor com menor grau de instru\u00e7\u00e3o raramente faz o c\u00e1lculo de quanto ter\u00e1 pago pelo produto ap\u00f3s quitar todas as parcelas. Sua preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 saber se o valor de cada presta\u00e7\u00e3o cabe no or\u00e7amento mensal..\u201d As consequ\u00eancias disso podem ser o endividamento, a inadimpl\u00eancia e at\u00e9 mesmo a insolv\u00eancia. No segmento das fam\u00edlias com renda familiar at\u00e9 10 sal\u00e1rios m\u00ednimos, 63,9% estavam endividadas e 23% inadimplentes em 2013\u201d, informou o pesquisador.<\/p>\n<p>A principal forma de endividamento detectada pela pesquisa foi o uso do cart\u00e3o de cr\u00e9dito, correspondente a 75,2% dos casos. Um mecanismo conhecido, confirmado pelo estudo, \u00e9 o fato de o cart\u00e3o ser, muitas vezes, usado para rolar d\u00edvida. \u201c\u00c9 claro que o acesso ao consumo gerou um aumento do conforto na vida das pessoas. Seria um contrassenso negar ou subestimar esse fato. Mas o que uma an\u00e1lise aprofundada evidencia \u00e9 que esse fen\u00f4meno mais cria consumidores do que cidad\u00e3os\u201d, argumentou Contel.<\/p>\n<p>Financeiriza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio<\/p>\n<p>A pesquisa demonstra ainda que, concomitantemente \u00e0 \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d da economia, ocorre tamb\u00e9m a \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d do territ\u00f3rio. E este foi um fen\u00f4meno bastante enfatizado pelo estudo, que se desenvolveu, afinal, no \u00e2mbito da geografia.<\/p>\n<p>\u201cConstatamos a crescente presen\u00e7a, nas periferias de S\u00e3o Paulo, de ag\u00eancias banc\u00e1rias, institui\u00e7\u00f5es financeiras de cr\u00e9dito pessoal, filiais das grandes redes de varejo e servi\u00e7os (dedicadas \u00e0 venda de vestu\u00e1rio, eletrodom\u00e9sticos, eletroeletr\u00f4nicos, fast food ou entretenimento), supermercados, hipermercados e shopping centers. \u00c1reas que, na d\u00e9cada de 1990, n\u00e3o eram sequer atendidas por servi\u00e7os de entrega em domic\u00edlio passaram a dispor desses fixos geogr\u00e1ficos. E, devido \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de estabelecimentos, muitas localidades das periferias tornaram-se pontos de refer\u00eancia para o consumo de moradores de outras \u00e1reas\u201d, discorreu o pesquisador.<\/p>\n<p>\u201cDo ponto de vista do fluxo da renda, essa difus\u00e3o e capilariza\u00e7\u00e3o dos bancos, institui\u00e7\u00f5es financeiras e redes de com\u00e9rcio varejista nas periferias, acentua, por meio do custo dos produtos financeiros, a transfer\u00eancia de recursos dos segmentos de menor renda para o circuito superior da economia urbana, constitu\u00eddo pelos grandes grupos empresariais. Do ponto de vista das economias locais, promove a reconfigura\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, contrapondo aos estabelecimentos dedicados aos pequenos neg\u00f3cios \u2013 o chamado circuito inferior da economia urbana \u2013 uma concorr\u00eancia altamente capitalizada, favorecida pela publicidade, pelo status simb\u00f3lico das marcas e pela oferta de cr\u00e9dito a prazo\u201d, prosseguiu.<\/p>\n<p>Como explicou o pesquisador, a \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 um dado estrutural do capitalismo contempor\u00e2neo. Os nexos financeiros comandam todas as atividades econ\u00f4micas, incluindo a ind\u00fastria, o com\u00e9rcio e os servi\u00e7os. E, ou bem a empresa \u00e9 diretamente controlada por um banco, ou bem acaba desenvolvendo um bra\u00e7o financeiro, que eventualmente suplanta em import\u00e2ncia sua pr\u00f3pria atividade-fim (industrial, comercial ou de servi\u00e7os). A novidade, se \u00e9 poss\u00edvel denomin\u00e1-la assim, foi a extrema intensifica\u00e7\u00e3o do processo gra\u00e7as ao recente aumento do poder dos atores financeiros, dado sua maior capilaridade no territ\u00f3rio e sua onipresen\u00e7a nos circuitos da economia urbana.<\/p>\n<p>\u201cUm aspecto muito relevante da \u2018financeiriza\u00e7\u00e3o\u2019 \u00e9 a \u2018 bancariza\u00e7\u00e3o\u2019. Antes, a interface dos bancos com os correntistas eram as ag\u00eancias banc\u00e1rias. Hoje, al\u00e9m das ag\u00eancias, a nova topologia banc\u00e1ria permite a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os por meio dos caixas eletr\u00f4nicos, dos correspondentes banc\u00e1rios (que s\u00e3o postos disponibilizados, principalmente, em ag\u00eancias do correio e casas lot\u00e9ricas), de terminais de cart\u00e3o de cr\u00e9dito e d\u00e9bito e de computadores e smartphones. At\u00e9 camel\u00f4s de rua utilizam atualmente terminais de cart\u00e3o de cr\u00e9dito e d\u00e9bito para facilitar a venda de seus produtos. Trata-se de um processo de desmaterializa\u00e7\u00e3o da moeda em escala planet\u00e1ria. Existe, e se desenvolve cada vez mais, uma nova base t\u00e9cnica que coloca os bancos, literalmente, em todos os lugares\u201d, concluiu Contel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Tadeu Arantes | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 A \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d da vida cotidiana, por meio do acesso ao cr\u00e9dito, tornou-se um dos componentes mais din\u00e2micos do capitalismo contempor\u00e2neo. E fator de reconfigura\u00e7\u00e3o das periferias de metr\u00f3poles de pa\u00edses emergentes. 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