{"id":81363,"date":"2016-02-23T10:48:42","date_gmt":"2016-02-23T13:48:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=81363"},"modified":"2016-02-22T15:50:02","modified_gmt":"2016-02-22T18:50:02","slug":"expressao-nao-verbal-ajuda-a-diagnosticar-a-depressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/expressao-nao-verbal-ajuda-a-diagnosticar-a-depressao\/81363","title":{"rendered":"Express\u00e3o n\u00e3o verbal ajuda a diagnosticar a depress\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p> Jos\u00e9 Tadeu Arantes | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Segundo proje\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS), a <strong><em>depress\u00e3o<\/em><\/strong> alcan\u00e7ar\u00e1, na d\u00e9cada de 2030, a primeira posi\u00e7\u00e3o entre as doen\u00e7as com maior preval\u00eancia no mundo. O transtorno j\u00e1 afeta cerca de 7% da popula\u00e7\u00e3o mundial, conforme informou o ex-secret\u00e1rio-geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas Kofi Annan, na abertura do semin\u00e1rio &#8220;The Global Crisis of Depression&#8221; (A Crise Global da Depress\u00e3o), promovido pela revista The Economist no final de 2014. Contrastando com a imagem de euforia tantas vezes associada aos brasileiros, um estudo conduzido em 18 pa\u00edses, divulgado pela OMS em 2011, apontou o Brasil como aquele com maior n\u00famero de pessoas afetadas pela enfermidade.<\/p>\n<p>A alta incid\u00eancia da doen\u00e7a no Brasil foi confirmada por levantamento mais recente, a Pesquisa Nacional de Sa\u00fade, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) e pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade (MS) em 2014. Segundo o estudo, cerca de 11 milh\u00f5es de pessoas t\u00eam depress\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Uma pesquisa, realizada no Hospital das Cl\u00ednicas e no Hospital Universit\u00e1rio, ambos vinculados \u00e0 Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), investigou a express\u00e3o n\u00e3o verbal da depress\u00e3o: \u201cIndicadores de expressividade e processamento emocional na depress\u00e3o\u201d. O estudo, coordenado por Clarice Gorenstein, professora do Instituto de Ci\u00eancias Biom\u00e9dicas (ICB) da USP, teve o\u00a0 da FAPESP .<\/p>\n<p>A pesquisa contou com a participa\u00e7\u00e3o da p\u00f3s-doutoranda Juliana Teixeira Fiquer, tamb\u00e9m  pela FAPESP .<\/p>\n<p>\u201cGeralmente, o diagn\u00f3stico da depress\u00e3o e a avalia\u00e7\u00e3o dos resultados do tratamento s\u00e3o feitos mediante a aplica\u00e7\u00e3o de question\u00e1rios-padr\u00e3o. As respostas do entrevistado, juntamente com as observa\u00e7\u00f5es do entrevistador, possibilitam definir o quadro e, depois, acompanhar a evolu\u00e7\u00e3o da pessoa. Esse tipo de instrumento tem a vantagem de estabelecer uma linguagem comum, universal. Mas depende essencialmente daquilo que a pessoa fala. E negligencia um outro aspecto, o da comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o verbal, que \u00e9 exatamente aquilo que a pessoa n\u00e3o fala. Nossa pesquisa teve por foco esse outro aspecto\u201d, disse Gorenstein \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Par\u00e2metros corporais<\/p>\n<p>A express\u00e3o n\u00e3o verbal, que diz \u201caquilo que a pessoa n\u00e3o fala\u201d, \u00e9 definida por um amplo conjunto de par\u00e2metros corporais, como postura de ombros e cabe\u00e7a; movimentos de cabe\u00e7a, gerais ou de concord\u00e2ncia\/discord\u00e2ncia; curvatura da boca; sorriso (sim\u00e9trico ou assim\u00e9trico), movimenta\u00e7\u00f5es de sobrancelhas (testa franzida; levantar de sobrancelhas); contato ocular; corpo inclinado na dire\u00e7\u00e3o do entrevistador, sil\u00eancio, choro, entre outros.<\/p>\n<p>\u201cEsses par\u00e2metros podem ser observados de maneira gen\u00e9rica ou de modo sistem\u00e1tico. Nossa pesquisa buscou exatamente definir uma metodologia de observa\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica \u2013 algo sobre o qual havia muito pouco estudo, principalmente no Brasil\u201d, comentou a pesquisadora.<\/p>\n<p>A pesquisa investigou 100 pessoas j\u00e1 diagnosticadas com depress\u00e3o (grupo-depress\u00e3o) e 83 pessoas que sabidamente n\u00e3o tinham depress\u00e3o (grupo-controle). Cada pessoa, com ou sem depress\u00e3o, passou por entrevista durante 15 minutos, ao longo dos quais seu comportamento foi filmado. Uma sequ\u00eancia de cinco minutos de cada filmagem foi posteriormente analisada por dois avaliadores \u201ccegos\u201d \u2013 isto \u00e9, que n\u00e3o sabiam se a pessoa filmada era integrante do grupo-depress\u00e3o ou do grupo-controle. Os avaliadores deviam considerar, em cinco minutos de filme analisado, a frequ\u00eancia de manifesta\u00e7\u00e3o dos par\u00e2metros n\u00e3o verbais mencionados. \u201cPara analisar cinco minutos de filme, cada avaliador precisou em m\u00e9dia de uma hora de trabalho\u201d, informou Gorenstein.<\/p>\n<p>\u201cPercebemos uma diferen\u00e7a significativa no comportamento dos dois grupos em rela\u00e7\u00e3o a esses par\u00e2metros. Considerando apenas alguns exemplos, em uma escala de pontua\u00e7\u00e3o de 0 a 10, foram obtidos os seguintes resultados: sorrisos, 2,3 para o grupo-controle e 1,0 para o grupo-depress\u00e3o; contato ocular, 8,4 e 6,8. J\u00e1 os escores do grupo-depress\u00e3o foram maiores do que os do grupo-controle em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s vari\u00e1veis choro (0,8 e 0) e cabe\u00e7a curvada para baixo (1,8 e 0,7)\u201d, prosseguiu.<\/p>\n<p>A express\u00e3o n\u00e3o verbal pode confirmar ou desmentir a express\u00e3o verbal. Da\u00ed o interesse em incorpor\u00e1-la ao processo de diagn\u00f3stico e avalia\u00e7\u00e3o. \u201cA comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o verbal \u00e9 uma resposta reflexa. E, a menos que haja da parte do entrevistado uma determina\u00e7\u00e3o e uma capacidade muito fortes de controlar a linguagem do corpo, esta tender\u00e1 a expressar aquilo que n\u00e3o \u00e9 exposto na fala, que n\u00e3o passa pelo crivo da fala. Principalmente no contexto cl\u00ednico, a pessoa pode querer mostrar uma melhora, que efetivamente n\u00e3o teve, ou pode tentar esconder uma melhora, com medo de perder o atendimento. A comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o verbal ajudar\u00e1 o avaliador a formar um quadro mais realista\u201d, argumentou Gorenstein.<\/p>\n<p>Anamnese psiqui\u00e1tricas<\/p>\n<p>Al\u00e9m da avalia\u00e7\u00e3o dos par\u00e2metros n\u00e3o verbais, os pesquisadores aplicaram tamb\u00e9m os question\u00e1rios-padr\u00e3o usualmente utilizados nas anamneses psiqui\u00e1tricas. Esses question\u00e1rios, baseados na express\u00e3o verbal, elegem alguns t\u00f3picos, como tristeza, pessimismo, perda de interesse, culpa, choro etc., e, para cada t\u00f3pico, oferecem ao entrevistado um leque de op\u00e7\u00f5es. Por exemplo, para o t\u00f3pico \u201ctristeza\u201d, h\u00e1 uma escala que vai de \u201ceu n\u00e3o me sinto triste\u201d at\u00e9 \u201ceu me sinto t\u00e3o triste que n\u00e3o posso aguentar\u201d. Quando todos os dados foram reunidos em histogramas, a diferen\u00e7a entre o grupo-depress\u00e3o e o grupo-controle tornou-se muito evidente.<\/p>\n<p>Depois da entrevista inicial, os indiv\u00edduos do grupo-depress\u00e3o receberam tratamento antidepressivo farmacol\u00f3gico, com a administra\u00e7\u00e3o de cloridrato de sertralina, um inibidor da recapta\u00e7\u00e3o da serotonina, entre outros procedimentos terap\u00eauticos. \u201cNo grupo-depress\u00e3o, como regra, o tratamento fez aumentar a expressividade facial, a expressividade do tom de voz, a inclina\u00e7\u00e3o do corpo na dire\u00e7\u00e3o do entrevistador e alguns outros par\u00e2metros sugestivos de interesse social e afetos positivos\u201d, afirmou Gorenstein.<\/p>\n<p>Uma poss\u00edvel aplica\u00e7\u00e3o da pesquisa \u00e9 oferecer aos profissionais envolvidos no atendimento \u00e0 sa\u00fade crit\u00e9rios n\u00e3o verbais para a defini\u00e7\u00e3o de diagn\u00f3sticos. No Brasil, 50% das queixas inespec\u00edficas na procura de atendimento na aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica s\u00e3o na realidade casos de transtorno depressivo ou de ansiedade. Um cl\u00ednico atento \u00e0 express\u00e3o n\u00e3o verbal da depress\u00e3o pode indicar uma investiga\u00e7\u00e3o mais profunda quando for o caso. Outra aplica\u00e7\u00e3o \u00e9 aferir a efic\u00e1cia de determinados tratamentos na melhoria do quadro depressivo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Tadeu Arantes | Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Segundo proje\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade (OMS), a depress\u00e3o alcan\u00e7ar\u00e1, na d\u00e9cada de 2030, a primeira posi\u00e7\u00e3o entre as doen\u00e7as com maior preval\u00eancia no mundo. 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