{"id":87822,"date":"2016-06-09T10:10:10","date_gmt":"2016-06-09T13:10:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=87822"},"modified":"2016-06-08T19:48:10","modified_gmt":"2016-06-08T22:48:10","slug":"estudo-elucida-mecanismo-que-torna-as-bacterias-mais-resistentes-a-antibioticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/estudo-elucida-mecanismo-que-torna-as-bacterias-mais-resistentes-a-antibioticos\/87822","title":{"rendered":"Estudo elucida mecanismo que torna as bact\u00e9rias mais resistentes a antibi\u00f3ticos"},"content":{"rendered":"<p> Jos\u00e9 Tadeu Arantes \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 A forma\u00e7\u00e3o do biofilme bacteriano \u00e9 um dos maiores problemas nas <strong><em>infec\u00e7\u00f5es<\/em><\/strong>. Isso ocorre quando, respondendo a uma condi\u00e7\u00e3o ambiental adversa (excesso de temperatura, falta de nutrientes, altera\u00e7\u00e3o de pH, presen\u00e7a de antibi\u00f3ticos etc.), as bact\u00e9rias mudam radicalmente seu modo de vida: deixam de se comportar como seres unicelulares, nadando livremente no meio, e formam uma grande col\u00f4nia, com os indiv\u00edduos aderindo a uma superf\u00edcie, ligando-se uns aos outros e produzindo uma matriz extracelular protetora, composta principalmente por a\u00e7\u00facares.<\/p>\n<p>Esse biofilme, que tende a crescer, \u00e9 extremamente resistente a antibi\u00f3ticos, aumenta a toxicidade dos pat\u00f3genos e leva a infec\u00e7\u00e3o a um est\u00e1gio cr\u00f4nico. Por isso, a compreens\u00e3o do mecanismo que faz as bact\u00e9rias transitarem do modo livre e nadante para o modo de biofilme constitui um tema atual\u00edssimo da microbiologia. Uma grande quantidade de pesquisa foi direcionada ao tema ao longo da \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<p>Um estudo realizado por uma colabora\u00e7\u00e3o internacional de especialistas, sob a coordena\u00e7\u00e3o do brasileiro Marcos Vicente de Albuquerque Salles Navarro, acaba de dar importante contribui\u00e7\u00e3o para a elucida\u00e7\u00e3o desse mecanismo. Artigo a respeito foi publicado pelos pesquisadores no jornal PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America): \u201c\u201d\u00a0.<\/p>\n<p>Navarro \u00e9 professor do Departamento de F\u00edsica e Ci\u00eancia Interdisciplinar do Instituto de F\u00edsica de S\u00e3o Carlos, da Universidade de S\u00e3o Paulo. E recebeu aux\u00edlio da FAPESP, na modalidade Apoio a Jovens Pesquisadores, com a pesquisa \u201c\u201d.<\/p>\n<p>Em muitos pat\u00f3genos \u2013 tal \u00e9 o caso da bact\u00e9ria Pseudomonas aeruginosa, enfocada no estudo \u2013 o processo de transi\u00e7\u00e3o da forma livre e nadante para a forma de biofilme \u00e9 orquestrado pelo nucleot\u00eddeo c-di-GMP, diguanilato monofosfato c\u00edclico, formado no interior das bact\u00e9rias a partir de algum est\u00edmulo externo. O c-di-GMP \u00e9 a mol\u00e9cula sinalizadora envolvida em diversos processos fisiol\u00f3gicos, entre eles o controle da express\u00e3o g\u00eanica na transi\u00e7\u00e3o entre estilos de vida.<\/p>\n<p>\u201cFlutua\u00e7\u00f5es nos n\u00edveis intracelulares de c-di-GMP fazem com que as bact\u00e9rias desliguem os genes respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o do flagelo [a estrutura proteica em forma de cauda que possibilita a esses seres unicelulares nadarem no meio l\u00edquido] e liguem os genes respons\u00e1veis pela produ\u00e7\u00e3o da matriz extracelular de polissacar\u00eddeos [que envolve e protege a col\u00f4nia bacteriana]\u201d, disse Navarro \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>Esse processo j\u00e1 era conhecido pela comunidade especializada e reportado na literatura. A novidade trazida pelo estudo foi esclarecer o papel de uma prote\u00edna espec\u00edfica, a FleQ, no mecanismo de funcionamento do c-di-GMP. \u201cA FleQ \u00e9 uma prote\u00edna-chave na transi\u00e7\u00e3o entre as duas formas de vida bacteriana. Ela \u00e9 receptora do c-di-GMP. E, ao interagir com ele, inibe a express\u00e3o da bioss\u00edntese flagelar e promove a express\u00e3o da bioss\u00edntese polissacar\u00eddea. O que fizemos foi descrever exatamente como isso acontece\u201d, afirmou o pesquisador.<\/p>\n<p>A FleQ \u00e9 chamada de \u201cfator de transcri\u00e7\u00e3o\u201d por ser uma mol\u00e9cula auxiliar no processo de transcri\u00e7\u00e3o do DNA no RNA mensageiro. Esses fatores de transcri\u00e7\u00e3o ligam-se a regi\u00f5es espec\u00edficas do DNA e, uma vez ligados, recrutam toda a maquinaria encarregada da transcri\u00e7\u00e3o para aquele ponto espec\u00edfico. Ali, a maquinaria l\u00ea os genes do DNA que ser\u00e3o transcritos no RNA e, posteriormente, ser\u00e3o traduzidos em prote\u00ednas.<\/p>\n<p>\u201cEm condi\u00e7\u00f5es de baixas concentra\u00e7\u00f5es de c-di-GMP, a FleQ apresenta-se como uma prote\u00edna hexam\u00e9rica. Ou seja, os milhares de \u00e1tomos que a comp\u00f5em interagem uns com os outros formando um arranjo hexagonal ou hex\u00e2mero. Essa estrutura complexa se liga a duas regi\u00f5es espec\u00edficas do DNA, promovendo a transcri\u00e7\u00e3o dos genes respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o do flagelo e inibindo a transcri\u00e7\u00e3o dos genes respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o da matriz polissacar\u00eddea. Assim, suscitam nas bact\u00e9rias o modo de vida livre e nadante\u201d, detalhou Navarro.<\/p>\n<p>\u201cPor\u00e9m, quando interage com o c-di-GMP, a FleQ muda completamente sua forma espacial, passando de um hex\u00e2mero a uma dupla de tr\u00edmeros. Nesta nova conforma\u00e7\u00e3o, ela se torna incapaz de ativar a transcri\u00e7\u00e3o dos genes do flagelo e passa a ativar a transcri\u00e7\u00e3o dos genes da matriz polissacar\u00eddea. Demonstramos rigorosamente esse processo em n\u00edvel molecular\u201d, prosseguiu.<\/p>\n<p>Para descobrir tudo isso, os pesquisadores utilizaram v\u00e1rios m\u00e9todos f\u00edsicos \u2013 como a cristalografia de raios X \u2013 que permitiram determinar a estrutura espacial da mol\u00e9cula da prote\u00edna FleQ e a enorme mudan\u00e7a que essa estrutura sofre na presen\u00e7a do c-di-GMP. Al\u00e9m disso, produziram mutantes da mol\u00e9cula para investigar como altera\u00e7\u00f5es pontuais influ\u00edam na atividade da prote\u00edna. \u201cFizemos um estudo completo in vitro. E complementamos esse estudo com uma investiga\u00e7\u00e3o funcional in vivo, observando como essas variantes da prote\u00edna atuavam na bact\u00e9ria\u201d, resumiu Navarro.<\/p>\n<p>O pesquisador classifica seu estudo como ci\u00eancia b\u00e1sica. Mas o horizonte de aplica\u00e7\u00e3o \u00e9 evidente. O entendimento do mecanismo de atua\u00e7\u00e3o do c-di-GMP \u00e9 um tema emergente em microbiologia devido \u00e0 procura de novos meios de combate aos processos infecciosos, novos antibi\u00f3ticos, novos adjuvantes, especialmente no contexto atual, de alt\u00edssima dissemina\u00e7\u00e3o de cepas bacterianas multirresistentes. Est\u00e1 provado que, interferindo nas vias de sinaliza\u00e7\u00e3o que promovem a forma\u00e7\u00e3o do biofilme, \u00e9 poss\u00edvel tornar as bact\u00e9rias muito mais suscet\u00edveis. E h\u00e1 um novo boom de pesquisas na \u00e1rea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Tadeu Arantes \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 A forma\u00e7\u00e3o do biofilme bacteriano \u00e9 um dos maiores problemas nas infec\u00e7\u00f5es. 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