{"id":93115,"date":"2016-08-18T06:04:36","date_gmt":"2016-08-18T09:04:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=93115"},"modified":"2016-08-17T20:06:28","modified_gmt":"2016-08-17T23:06:28","slug":"pesquisadores-brasileiros-desenvolvem-nanoparticulas-que-podem-inativar-virus-hiv","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/pesquisadores-brasileiros-desenvolvem-nanoparticulas-que-podem-inativar-virus-hiv\/93115","title":{"rendered":"Pesquisadores brasileiros desenvolvem nanopart\u00edculas que podem inativar v\u00edrus HIV"},"content":{"rendered":"<p> Diego Freire \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Para se reproduzir no organismo, um v\u00edrus passa por um processo de adsor\u00e7\u00e3o (liga\u00e7\u00e3o) das suas part\u00edculas \u00e0s c\u00e9lulas infectadas, conectando-se a receptores da membrana celular. Com o objetivo de impedir essa liga\u00e7\u00e3o e, consequentemente, a infec\u00e7\u00e3o, pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) desenvolveram uma estrat\u00e9gia que utiliza nanopart\u00edculas carregadas de grupos qu\u00edmicos capazes de atrair os <strong><em>v\u00edrus HIV<\/em><\/strong>, ligando-se a eles e ocupando as vias de adsor\u00e7\u00e3o que seriam utilizadas nos receptores celulares.<\/p>\n<p>Dessa forma, o v\u00edrus, j\u00e1 com sua superf\u00edcie ocupada pelos grupos qu\u00edmicos carregados pelas nanopart\u00edculas, fica incapacitado de realizar liga\u00e7\u00f5es com as c\u00e9lulas do organismo. A estrat\u00e9gia inovadora de inativa\u00e7\u00e3o viral foi desenvolvida no \u00e2mbito da pesquisa &#8220;&#8221;, realizada com o apoio da FAPESP e coordenada por Mateus Borba Cardoso.<\/p>\n<p>Trata-se do primeiro estudo que demonstra inativa\u00e7\u00e3o viral baseada em qu\u00edmica de superf\u00edcie de nanopart\u00edculas funcionalizadas.<\/p>\n<p>\u201cEsse mecanismo de inibi\u00e7\u00e3o viral se d\u00e1 por meio da modifica\u00e7\u00e3o de nanopart\u00edculas em laborat\u00f3rio, atribuindo-se fun\u00e7\u00f5es \u00e0 sua superf\u00edcie pela adi\u00e7\u00e3o de grupos qu\u00edmicos capazes de atrair as part\u00edculas virais e se conectar a elas. Esse efeito est\u00e9rico, relacionado ao fato de cada \u00e1tomo dentro de uma mol\u00e9cula ocupar uma determinada quantidade de espa\u00e7o na superf\u00edcie, impede que o v\u00edrus chegue at\u00e9 o alvo, as c\u00e9lulas, e se ligue a ele, porque j\u00e1 est\u00e1 \u2018ocupado\u2019 pela nanopart\u00edcula\u201d, explica Cardoso.<\/p>\n<p>Os pesquisadores sintetizaram nanopart\u00edculas de s\u00edlica, componente qu\u00edmico de diversos minerais, com propriedades superficiais distintas e avaliaram sua biocompatibilidade com dois tipos de v\u00edrus. A efic\u00e1cia antiviral foi avaliada em testes in vitro, com os v\u00edrus HIV e VSV-G \u2013 que causa estomatite vesicular \u2013 infectando c\u00e9lulas do tipo HEK 293, uma cultura celular originalmente composta de c\u00e9lulas de um rim pertencente a um embri\u00e3o humano. As part\u00edculas virais foram preparadas para expressar uma prote\u00edna fluorescente que muda a colora\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas infectadas, permitindo que os pesquisadores \u201csigam\u201d a infec\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A inova\u00e7\u00e3o segue a mesma estrat\u00e9gia j\u00e1 adotada pelos pesquisadores na funcionaliza\u00e7\u00e3o de nanopart\u00edculas que levam medicamentos quimioter\u00e1picos em altas concentra\u00e7\u00f5es at\u00e9 as c\u00e9lulas cancer\u00edgenas, evitando que as saud\u00e1veis sejam atingidas e minimizando os efeitos adversos da quimioterapia (leia mais em ).<\/p>\n<p>As nanopart\u00edculas de s\u00edlica foram escolhidas mais uma vez por conta da sua porosidade, que permite uma boa funcionaliza\u00e7\u00e3o de sua superf\u00edcie por meio da adi\u00e7\u00e3o de grupos qu\u00edmicos em seus poros. Depois de sintetizadas, essas part\u00edculas passam por rea\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que sua superf\u00edcie seja funcionalizada de acordo com as afinidades qu\u00edmicas dos v\u00edrus. Grupos qu\u00edmicos espec\u00edficos foram inseridos na superf\u00edcie das part\u00edculas para que as prote\u00ednas virais sejam naturalmente atra\u00eddas por elas.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s esse processo, os pesquisadores deram in\u00edcio \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o das nanopart\u00edculas, realizando medi\u00e7\u00f5es de tamanho e checando se a funcionaliza\u00e7\u00e3o estava correta. Para isso, utilizam um arsenal de t\u00e9cnicas, desde microscopia a an\u00e1lises do potencial zeta \u2013 a carga superficial das part\u00edculas. De posse das informa\u00e7\u00f5es sobre a carga foi poss\u00edvel correlacion\u00e1-la aos dados j\u00e1 conhecidos do envelope viral, a composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica do que est\u00e1 na superf\u00edcie do v\u00edrus, aumentando as chances de as nanopart\u00edculas serem ancoradas em determinadas regi\u00f5es dele.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi utilizada a t\u00e9cnica de espalhamento de raios X a baixos \u00e2ngulos (SAXS, na sigla em ingl\u00eas). Por meio de radia\u00e7\u00e3o gerada pelo acelerador de part\u00edculas do Laborat\u00f3rio Nacional de Luz S\u00edncrotron (LNLS), integrante do CNPEM, os pesquisadores utilizam a t\u00e9cnica para enxergar e estudar a forma e a organiza\u00e7\u00e3o espacial de objetos em propor\u00e7\u00f5es nanom\u00e9tricas \u2013 no caso, as nanopart\u00edculas de s\u00edlica funcionalizadas.<\/p>\n<p>\u201cAs nanopart\u00edculas devidamente funcionalizadas e as part\u00edculas virais passaram, ent\u00e3o, por um tempo de incuba\u00e7\u00e3o para que interagissem umas com as outras em fun\u00e7\u00e3o das propriedades de superf\u00edcie de ambas. Quando existe muita atra\u00e7\u00e3o, provocada pelos grupos qu\u00edmicos presentes na superf\u00edcie das nanopart\u00edculas, a prefer\u00eancia do v\u00edrus \u00e9 de se ligar a elas, n\u00e3o \u00e0s c\u00e9lulas\u201d, conta Cardoso.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a funcionaliza\u00e7\u00e3o das nanopart\u00edculas, os estudos sobre sua carga e outras propriedades e o per\u00edodo de incuba\u00e7\u00e3o, os pesquisadores realizaram os testes in vitro infectando as c\u00e9lulas HEK 293 com os v\u00edrus HIV e VSV-G preparados para expressar a prote\u00edna fluorescente. Por meio de microscopia de fluoresc\u00eancia foi poss\u00edvel acompanhar a infec\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m as c\u00e9lulas que n\u00e3o foram atingidas por ela. Utilizando citometria de fluxo, tecnologia capaz de analisar simultaneamente diversos par\u00e2metros de c\u00e9lulas ou part\u00edculas em suspens\u00e3o, os pesquisadores puderam contar as c\u00e9lulas positivas e negativas frente \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o ao v\u00edrus: as nanopart\u00edculas chegaram a reduzir a infec\u00e7\u00e3o viral em at\u00e9 50%, demonstrando a efici\u00eancia da estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p>\u201cEsse resultado poderia chegar a 100% se aument\u00e1ssemos a quantidade de nanopart\u00edculas funcionalizadas no per\u00edodo de incuba\u00e7\u00e3o, mas os testes s\u00e3o realizados em uma faixa otimizada de inativa\u00e7\u00e3o viral, para que possam ser observados os efeitos nas c\u00e9lulas atingidas pelos v\u00edrus, real\u00e7ando as diferen\u00e7as para fins de compara\u00e7\u00e3o\u201d, diz o pesquisador.<\/p>\n<p>Os testes tamb\u00e9m permitiram verificar que durante o processo a morfologia celular foi mantida, sem que as nanopart\u00edculas a influenciassem.<\/p>\n<p>De acordo com Cardoso, a estrat\u00e9gia poderia ser utilizada, por exemplo, na detec\u00e7\u00e3o e elimina\u00e7\u00e3o de v\u00edrus em bolsas de sangue antes de transfus\u00f5es. Para isso, conta o pesquisador, est\u00e3o sendo estudadas nanopart\u00edculas magn\u00e9ticas que, uma vez dentro do meio sangu\u00edneo contido na bolsa, se ligariam aos v\u00edrus, inativando-os e sendo posteriormente separadas do sangue por um \u00edm\u00e3, levando consigo as part\u00edculas virais. A afinidade entre os grupos qu\u00edmicos carregados pelas nanopart\u00edculas e as part\u00edculas virais tamb\u00e9m poderia servir ao desenvolvimento de novas t\u00e9cnicas de detec\u00e7\u00e3o do HIV e de outros v\u00edrus.<\/p>\n<p>Os resultados da pesquisa foram publicados no peri\u00f3dico cient\u00edfico Applied Materials &amp; Interfaces. O artigo Viral Inhibition Mechanism Mediated by Surface-Modified Silica Nanoparticles \u00e9 assinado por Juliana Martins de Souza e Silva, Talita Diniz Melo Hanchuk, Murilo Izidoro Santos, J\u00f6rg Kobarg e Marcio Chaim Bajgelman, al\u00e9m de Cardoso, e pode ser acessado em.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diego Freire \u00a0| \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Para se reproduzir no organismo, um v\u00edrus passa por um processo de adsor\u00e7\u00e3o (liga\u00e7\u00e3o) das suas part\u00edculas \u00e0s c\u00e9lulas infectadas, conectando-se a receptores da membrana celular. 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