{"id":96283,"date":"2016-09-29T06:26:26","date_gmt":"2016-09-29T09:26:26","guid":{"rendered":"http:\/\/www.redenoticia.com.br\/noticia\/?p=96283"},"modified":"2016-09-28T17:27:31","modified_gmt":"2016-09-28T20:27:31","slug":"nanocapsulas-removem-da-circulacao-as-particulas-mais-nocivas-do-colesterol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/migracao.redenoticia.com.br\/noticia\/2016\/nanocapsulas-removem-da-circulacao-as-particulas-mais-nocivas-do-colesterol\/96283","title":{"rendered":"Nanoc\u00e1psulas removem da circula\u00e7\u00e3o as part\u00edculas mais nocivas do colesterol"},"content":{"rendered":"<p> Karina Toledo\u00a0 | \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Uma nanoformula\u00e7\u00e3o capaz de remover da circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea as part\u00edculas mais nocivas do \u201c<strong><em>colesterol<\/em><\/strong> ruim\u201d \u2013 a lipoprote\u00edna de baixa densidade eletronegativa (LDL-, na sigla em ingl\u00eas) \u2013 est\u00e1 sendo testada em camundongos por pesquisadores da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/p>\n<p>O estudo \u00e9 conduzido na Faculdade de Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas (FCF-USP), no \u00e2mbito de um \u00a0da FAPESP, que tem Dulcineia Saes Parra Abdalla como pesquisadora principal. Resultados recentes foram\u00a0 no European Journal of Pharmaceutics and Biopharmaceutics.<\/p>\n<p>\u201cNossa proposta \u00e9 criar um sistema para remover essa LDL- da circula\u00e7\u00e3o, de modo a impedir que essas part\u00edculas interajam com a parede das art\u00e9rias e induzam uma resposta pr\u00f3-inflamat\u00f3ria que contribua para o in\u00edcio e a progress\u00e3o da les\u00e3o ateroscler\u00f3tica\u201d, contou Abdalla \u00e0 Ag\u00eancia FAPESP.<\/p>\n<p>De acordo com a pesquisadora, embora toda a fra\u00e7\u00e3o das lipoprote\u00ednas de baixa densidade (LDL) tenha a fama de \u201ccolesterol ruim\u201d, a subfra\u00e7\u00e3o eletronegativa (LDL-) \u2013 que inclui part\u00edculas modificadas por processos qu\u00edmicos, como oxida\u00e7\u00e3o e lip\u00f3lise \u2013 pode ser considerada a mais aterog\u00eanica e, portanto, a principal amea\u00e7a \u00e0 sa\u00fade cardiovascular.<\/p>\n<p>Ao ser reconhecida e internalizada por macr\u00f3fagos, um tipo de c\u00e9lula do sistema imunol\u00f3gico, a LDL- desencadeia uma resposta inflamat\u00f3ria que aumenta a instabilidade da placa ateroscler\u00f3tica, contribuindo para a ruptura do ateroma na parede da art\u00e9ria. Esse processo pode culminar em um evento cardiovascular, como infarto agudo do mioc\u00e1rdio ou acidente vascular cerebral.<\/p>\n<p>\u201cAo internalizar esses lip\u00eddeos modificados, os macr\u00f3fagos se transformam no que chamamos de c\u00e9lulas espumosas. O ac\u00famulo dessas c\u00e9lulas espumosas representa o in\u00edcio da les\u00e3o ateroscler\u00f3tica. Quando esses macr\u00f3fagos morrem, liberam todo o seu conte\u00fado de l\u00edpides e outros fragmentos celulares formando uma regi\u00e3o necr\u00f3tica na parede da art\u00e9ria. Isso atrai ainda mais macr\u00f3fagos para o local, bem como linf\u00f3citos e outros tipos de c\u00e9lulas de defesa, que passam a liberar mais mol\u00e9culas inflamat\u00f3rias, agravando o quadro\u201d, explicou Abdalla.<\/p>\n<p>Inicialmente, contou a pesquisadora, o objetivo do grupo foi criar uma metodologia para detectar a subpopula\u00e7\u00e3o de part\u00edculas LDL- em pacientes com dislipidemias, diabetes, insufici\u00eancia renal cr\u00f4nica e outras enfermidades associadas ao risco cardiovascular. Vale lembrar que os exames convencionais feitos em laborat\u00f3rio medem as lipoprote\u00ednas de baixa densidade como um todo, sem discriminar essa subfra\u00e7\u00e3o mais aterog\u00eanica.<\/p>\n<p>\u201cDesenvolvemos anticorpos monoclonais capazes de identificar e se ligar somente \u00e0s part\u00edculas LDL- para fins de diagn\u00f3stico. Mas depois pensamos que poder\u00edamos aproveitar essa ferramenta em uma abordagem terap\u00eautica, ou seja, usar esses anticorpos para neutralizar as part\u00edculas aterog\u00eanicas\u201d, contou Abdalla.<\/p>\n<p>Tra\u00e7ando a estrat\u00e9gia<\/p>\n<p>Os estudos em andamento usam um modelo experimental de aterosclerose. Camundongos foram modificados geneticamente para n\u00e3o expressar o gene da prote\u00edna que atua como receptor para as lipoprote\u00ednas da classe LDL. Dessa forma, o \u201ccolesterol ruim\u201d acumula na circula\u00e7\u00e3o do animal \u2013 simulando casos de hipercolesterolemia familiar. Esse ac\u00famulo leva ao desenvolvimento de les\u00f5es ateroscler\u00f3ticas, no caso dos camundongos principalmente na regi\u00e3o do arco a\u00f3rtico (a parte da art\u00e9ria aorta que fica dentro do cora\u00e7\u00e3o). Com menos de dois meses de dieta rica em colesterol, esses roedores desenvolvem aterosclerose.<\/p>\n<p>Inicialmente, o grupo da FCF-USP testou o tratamento com o anticorpo monoclonal inteiro. Mas, ao se ligar ao ant\u00edgeno (as part\u00edculas LDL-), o imunocomplexo formado poderia ser internalizado pelos macr\u00f3fagos, o que faria aumentar ainda mais a forma\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas espumosas e exacerbaria a resposta inflamat\u00f3ria.<\/p>\n<p>\u201cFoi ent\u00e3o que pensamos em cortar uma parte do anticorpo e trabalhar apenas com as por\u00e7\u00f5es capazes de reconhecer o ant\u00edgeno. Assim, a por\u00e7\u00e3o do anticorpo que se liga aos receptores dos macr\u00f3fagos \u2013 chamada Fe \u2013 seria eliminada\u201d, contou Abdalla.<\/p>\n<p>Por meio de engenharia gen\u00e9tica, em parceria com a pesquisadora Andrea Queiroz Maranh\u00e3o, da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), o grupo desenvolveu um m\u00e9todo para expressar em leveduras da esp\u00e9cie Pichia pastoris uma prote\u00edna recombinante formada pelas regi\u00f5es hipervari\u00e1veis das cadeias leve e pesada do anticorpo que reconhecem a LDL-, que foram unidas por um pept\u00eddeo conector. Essa prote\u00edna \u00e9 chamada pelos pesquisadores de scFv (fragmento vari\u00e1vel de cadeia \u00fanica, na sigla em ingl\u00eas). Essa parte do trabalho foi desenvolvida durante o mestrado de Soraya Megumi Kazuma, com .<\/p>\n<p>\u201cO problema \u00e9 que o scFv \u00e9 uma mol\u00e9cula pequena com tempo de meia-vida na circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea baixo quando comparado ao do anticorpo monoclonal completo. Ent\u00e3o nossa estrat\u00e9gia foi incorporar o scFv em uma nanoc\u00e1psula para aumentar o tempo de vida na circula\u00e7\u00e3o e permitir, no futuro, a libera\u00e7\u00e3o de f\u00e1rmacos no ateroma de forma dirigida\u201d, revelou a pesquisadora.<\/p>\n<p>Essa parte do trabalho contou com a colabora\u00e7\u00e3o de Adriana Raffin Pohlmann e Silvia S. Guterres \u2013 ambas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Duas patentes referentes \u00e0 nanoformula\u00e7\u00e3o j\u00e1 foram depositadas no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) pelos pesquisadores.<\/p>\n<p>De acordo com o relato de Abdalla, a nanoformula\u00e7\u00e3o cont\u00e9m nanoc\u00e1psulas polim\u00e9ricas de multicamadas, ou seja, h\u00e1 um n\u00facleo lip\u00eddico, onde \u00e9 poss\u00edvel colocar f\u00e1rmacos lipossol\u00faveis, recoberto por m\u00faltiplas camadas nas quais \u00e9 poss\u00edvel acrescentar outros f\u00e1rmacos ou mol\u00e9culas para o direcionamento do f\u00e1rmaco ao alvo terap\u00eautico.<\/p>\n<p>\u201cNossa estrat\u00e9gia foi colocar o scFv na superf\u00edcie da nanopart\u00edcula, para direcion\u00e1-la \u00e0 LDL- presente na circula\u00e7\u00e3o. Dessa forma a LDL- ligada \u00e0 nanoformula\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria internalizada pelos macr\u00f3fagos e o scFv tamb\u00e9m n\u00e3o se ligaria a essas c\u00e9lulas via receptores Fe, que seriam usados pelo anticorpo completo. Isso reduziria o processo de ac\u00famulo de colesterol proveniente da lipoprote\u00edna modificada pelo macr\u00f3fago e, consequentemente, diminuiria a forma\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas espumosas e a libera\u00e7\u00e3o de mediadores pr\u00f3-inflamat\u00f3rios na parede arterial, explicou a pesquisadora<\/p>\n<p>Prova de conceito<\/p>\n<p>No modelo experimental, os pesquisadores testaram um protocolo de preven\u00e7\u00e3o da aterosclerose com a nanoformula\u00e7\u00e3o. O trabalho foi feito durante o doutorado de Marcela Frota Cavalcante, . Uma dose foi injetada nos camundongos sete dias antes de ter in\u00edcio a dieta rica em colesterol. Outras quatro doses foram aplicadas ao longo de 28 dias de dieta com 0,5% de colesterol. No final desse per\u00edodo, foi feita uma an\u00e1lise histol\u00f3gica da regi\u00e3o do arco a\u00f3rtico.<\/p>\n<p>Em compara\u00e7\u00e3o com os animais do grupo controle \u2013 que em vez da nanoformula\u00e7\u00e3o receberam apenas placebo \u2013 os camundongos tratados apresentaram uma \u00e1rea com les\u00e3o ateroscler\u00f3tica 74% menor. Tamb\u00e9m foi observada no tecido uma quantidade 68% menor de interleucina-1 beta (IL-1?) \u2013 citocina pr\u00f3-inflamat\u00f3ria liberada pelos macr\u00f3fagos.<\/p>\n<p>\u201cA libera\u00e7\u00e3o dessa citocina IL-1?, dentre outras, \u00e9 um fator importante para aumentar a atividade inflamat\u00f3ria da placa ateroscler\u00f3tica e isso \u00e9 mais problem\u00e1tico do que o tamanho da les\u00e3o em si, pois aumenta o risco de ruptura do ateroma e de forma\u00e7\u00e3o de trombo. Por isso, atualmente, a principal estrat\u00e9gia terap\u00eautica tem sido combater a inflama\u00e7\u00e3o nas placas ateroscler\u00f3ticas\u201d, explicou Abdalla.<\/p>\n<p>A nanoformula\u00e7\u00e3o, segundo a pesquisadora, atua em duas frentes: retira da circula\u00e7\u00e3o um est\u00edmulo pr\u00f3-inflamat\u00f3rio \u2013 a lipoprote\u00edna modificada \u2013 e minimiza o ac\u00famulo de l\u00edpides no vaso sangu\u00edneo. Diminui, portanto, tanto o tamanho da les\u00e3o quanto a atividade inflamat\u00f3ria na placa.<\/p>\n<p>Atualmente, o grupo vem fazendo estudos com camundongos com o intuito de verificar quanto tempo a nanoformula\u00e7\u00e3o permanece no organismo antes de ser metabolizada e para onde ela direciona as part\u00edculas LDL-. Para isso, est\u00e3o sendo usadas t\u00e9cnicas de imagem molecular, como tomografia por emiss\u00e3o de p\u00f3sitrons e tomografia computadorizada. O trabalho conta com a colabora\u00e7\u00e3o de pesquisadores do Instituto de Pesquisas Energ\u00e9ticas e Nucleares (Ipen). Os resultados devem ser divulgados em breve.<\/p>\n<p>O artigo A nanoformulation containing a scFv reactive to electronegative LDL inhibits atherosclerosis in LDL receptor knockout mice (doi: 10.1016\/j.ejpb.2016.07.002)\u00a0pode ser lido em <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Karina Toledo\u00a0 | \u00a0Ag\u00eancia FAPESP \u2013 Uma nanoformula\u00e7\u00e3o capaz de remover da circula\u00e7\u00e3o sangu\u00ednea as part\u00edculas mais nocivas do \u201ccolesterol ruim\u201d \u2013 a lipoprote\u00edna de baixa densidade eletronegativa (LDL-, na sigla em ingl\u00eas) \u2013 est\u00e1 sendo testada em camundongos por pesquisadores da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). 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